Gravadora: RCA (Sony)
Data de Lançamento: 15 de dezembro de 2014

Conforto e confronto são quase anagramas e quase opostos. Juntos, obviamente se convergem, porque dificilmente um abraço vem acompanhado de uma bronca. (Acontece justamente o contrário; o abraço sucede a bronca nas poucas vezes em que os dois termos acompanham um ao outro.)

No caso do terceiro disco de D’Angelo (14 anos depois do ótimo Voodoo), conforto e confronto podem ser observados por um prisma mais complexo: há o momento turbulento (as tretas em Ferguson e State Island após as mortes dos negros Michael Brown, Trayvon Martin e Eric Garner por policiais brancos) e há a distância de uma calma que não deve ser permanente. Noutras palavras, o descanso é de soldado em plena guerra: tem que ser rápido, não pode dormir no barulho.

Em Black Messiah, o conforto veio como algo emergencial. D’Angelo exigiu que a gravadora o lançasse o quanto antes, não para se ajustar aos tempos de agora, mas para oferecer acalanto sem pedir que a batalha termine.

Quanto a isso, o cantor não receia em partir para a crueza: em “1000 Deaths”, deixa a voz de um pastor versar sobre Jesus numa base noise-funk que remete a lapsos de Live-Evil (1971), de Miles Davis, com requintes espaciais do Funkadelic (Kendra Foster, que integra o cósmico grupo, colabora com D’Angelo nas composições). Entra a voz do cantor: está absurdamente ofuscada pelo caos que ele deixou que a música se tornasse. Parece mal produzido, mas a síntese se sobressai às impressões. Alguns dirão no futuro que é uma das piores faixas de D’Angelo; correrão o risco de deixar escorregar a música que melhor representa o calor da batalha. Ah, e ela se agiganta, como se agiganta: o combo guitarras e bateria no melhor estilo Maggot Brain (1971) sobre riffs à lá Meters a deixam estrépita e, inadvertidamente, sensacional.

Mas é logo de cara, na primeira faixa, “Ain’t That Easy”, que D’Angelo expõe as cartas: ‘Você precisa do conforto do meu amor/Para aflorar o melhor de você’. A base R&B como só ele sabe chamuscar vai além do diálogo com a raça negra; a sensualidade vocal é o atrativo em prol de uma batalha em que o sentimental não pode se separar do bélico. A batalha é pelo amor da humanidade, não de uma pigmentação de pele.

Se há tempos se questionava o poder de uma canção de R&B como forma de protesto – e podemos usar como comparativo clássicos como “Dancing in the Street”, “Respect” e “A Change is Gonna Come” – Black Messiah é sua síntese completa. Sabe aquela conhecida história em que James Brown acalmou com um show a cidade de Boston após o repentino assassinato de Martin Luther King Jr.? Digamos que Black Messiah seja o Live at Boston Garden (1968) de 2014. É moderno, sem perder a emoção. Não tem medo de ser refém das vicissitudes humanas, como vemos em “Sugah Daddy”, de uma inteligente compreensão das mulheres (‘visão mundial’) e um broto filosófico de uma mente que também se expõe como conturbada e depravada. Porque de fraturas D’Angelo entende e sabe fazer bonito. “Sugah Daddy” rascunha o personagem misógino que ele não é, como “Really Love” não deixa de sentenciar: ‘Não sou um homem fácil, para compreender, você me sente/Mas, garota, você é paciente comigo/Doo doo wah, eu realmente estou apaixonado por você, eu realmente estou apaixonado por você’.

Em “Sugah Daddy” e “Really Love”, conforto e confronto se enquadram na paixão amorosa com o mesmo vigor de uma paixão pela batalha. É como se D’Angelo sugerisse que um homem completo não é aquele que é bem-sucedido no trabalho, tem esposa, família, filhos e todo fim de ano faz a mesma ceia de Natal. Para o soulman, o homem completo é mortal e transfigurável só pela razão e existir. Acima de tudo o homem completo é aquele que busca alimentar sua alma, seu sentimento, mesmo tenho em vista as fraquezas de seu interior e as mazelas que rondam a sociedade. Tal evidência pode ser percebida na sua forma de cantar: raramente o cantor se sobrepõe às climatizações e, se ela é obscura como a nuvem negra do preconceito, quem é D’Angelo para ousar clarificá-la?

Ele sabe que os demônios perduram (“Prayer”), mas não se deixa abater e oferta a sinceridade de seu coração em “Betray My Heart”, um dos momentos mais límpidos de Black Messiah. Isso não impede o homem de sonhar e divagar por ‘mansões’ e ‘anjos’ em “Another Life”, onde a emoção atinge seu auge. No fundo, conforto e confronto são contradições intrínsecas à alma do ser humano. Manifestam-se na batalha, no amor, nos sonhos vãos, na alegria, na tristeza, no ganho e na perda. Black Messiah compreende tudo isso com a inteligência que só a sinceridade e a vivência podem oferecer.