01 Give Life Back to Music 02 The Game of Love 03 Giorgio by Moroder (ft. Giorgio Moroder) 04 Within (ft. Chilly Gonzales) 05 Instant Crush (ft. Julian Casablancas) 06 Lose Yourself to Dance (ft. Pharrell Williams and Nile Rodgers) 07 Touch (ft. Paul Williams) 08 Get Lucky (ft. Pharrell Williams and Nile Rodgers) 09 Beyond 10 Motherboard 11 Fragments of Time (ft. Todd Edwards) 12 Doin’ It Right (ft. Panda Bear)

13 Contact (ft. DJ Falcon)

Gravadora: Columbia
[rating:2.5]

Quando saiu a música “Get Lucky” pela primeira vez, houve uma discussão sobre a possibilidade dela ser fake. Nas redes sociais apontavam: é óbvio, aquela voz não é a do Pharrell. No dia seguinte veio a música verdadeira: se alguma coisa mudou ali, não dá pra perceber. E, sim, a voz era de Pharrell.

Ao ouvir Random Access Memories a sensação é: bem que poderia ser fake. Se o Daft Punk fizesse isso, talvez poucos reconheceriam. Este papo de música orgânica, Chic e Steely Dan ao invés de sintetizadores e batidas repetidas – eis aí um ótimo argumento usado para dar um senso futurístico à música. Só esqueceram-se de refletir que tudo isso é obra do passado. Dos anos 1970, pra ser mais específico.

Qual o senso de noção para uma faixa como “Give Life Back To Music” tergiversar sobre o que é autenticidade artística? Por que o Daft Punk quer falar sobre isso – logo eles que sempre foram atentos ao futuro?

Afinal, se o olhar é realmente o futuro, por que dizer para ‘devolver a vida à música’? O futuro está no passado? Thomas Bangalter e Guy Manoel de Homem-Cristo, no alto de suas máscaras, agora entendem que a música eletrônica não levou a lugar algum a não ser a celebração do que já foi feito?

Para o Daft Punk gerar essa polêmica de que não há vida na música, bom, teria que renegar os recursos tecnológicos que foram tão profícuos em obras como Discovery (2001) e Homework (1997). E isso não existe em R.A.M. O que é “The Game of Love” a não ser uma proposta mais adocicada de “Digital Love”? O que impediria “Motherboard” de ser encarado como um take descartado de Homework?

Nesse sentido de buscar novos parâmetros musicais, o discurso contido em “Giorgio By Moroder” é sintomático. A guitarra funkeira de Nile Rodgers permeia a declaração de um produtor que diz ter sido apresentado ao sintetizador como instrumento do futuro. E temos uma canção que mostra aquilo que o Daft Punk faz de melhor: modular a repetição em um andamento que faz parecer verdadeiro o argumento de que nossos pés, diante da dança, têm uma pulsação. Ou uma espécie de batimento cardíaco on our feets.

De todas as participações do álbum, não é preciso dizer que a de Pharrell é a mais importante e notável. Além de dar um tom mais pop ao disco, seus vocais caem bem com a proposta de ‘adocicar’, permanecer em um local onde as pistas menos fervem. Em “Loose Yourself to Dance” ele soa temivelmente como Justin Timberlake, mas convence com o apelo repetitivo do refrão – algo levado ao extremo com “Get Lucky”, que continua inspirando covers ridículos pela internet.

Julian Casablancas colabora em “Instant Crush” com um vocal tão preguiçoso, que dá vontade de xingar os produtores por não terem optado pelo autotune. Ficaria melhor e bem menos vergonhoso.

A participação de Paul Williams em “Touch” soa monótona. Mas quando entra a repetição da guitarra de Rodgers e a canção resolve implodir para um acid-house com elementos de jazz, vemos que não é uma canção perdida. Os loops e viradas a transfiguram, como se o Daft Punk resolvesse retomar as rédeas. Fica bem feito.

Completa o time de colaboradores o produtor de house Todd Edwards em “Fragments of Time” que, apesar de ter linhas improváveis de guitarra, não te leva para lugar algum se a vontade for dançar; e Panda Bear em “Doin’ It Right”, onde o contraponto vocal de Noah Lennox se encaixa muito bem nos refrões obsessivos ‘faça direito e todo mundo irá dançar’, que não para de ser entoado. Também bem colocado.

A produção de Random Access Memories é o que mais há de apreciável. Mas o futuro não está nesse fator – muito menos em achar que há inovação em retrabalhar elementos que influenciaram a música eletrônica de hoje.

Renegar as pistas para pretensiosamente tentar se arremessar ao topo não me parece algo usual a uma dupla que não faz questão alguma de revelar a identidade. Não foi o puritanismo autêntico que transformou o Daft Punk em um dos maiores nomes da música eletrônica – e, sim, a forma autêntica de como trabalhar a repetição, um dos grandes elementos deste gênero.

É por essas e outras mais que Random Access Memories poderia ser fake. Sempre que ouço, fico procurando as câmeras.

Melhores Faixas: “Giorgio By Moroder”, “Get Lucky”.