Gravadora: Oloko Records
Data de Lançamento: 3 de novembro de 2014

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Seria correto dizer que rap nacional e filosofia nunca estiveram tão próximos com a tardia aterrissagem musical de Criolo, em Nó na Orelha (2011)?

Alguns trechos da entrevista que o rapper cedeu a Lázaro Ramos, em 2013, denotam que nem Marx, nem Weber, nem Rousseau são suficientes para condensar as ideias do compositor sobre classes sociais. ‘A alma flutua/Leite a criança quer beber/Lázaro, alguém nos ajude a entender?’, relembrou o músico em “Cartão de Visita”, que traz refrão na voz de Tulipa Ruiz.

A terceira faixa de Convoque Seu Buda tem bom humor, malandragem das ruas, glosa aos rappers contemporâneos, space-funk, citação a dados estatísticos da FGV, sarcasmo aos ‘blogs de estirpe’ e ‘perfil de TV’ e um bocado mais, claro. Descompromissada, é a faixa que melhor dialoga com a capa do álbum. É o que Criolo tem de melhor a oferecer. Tal empenho também deve ser gratificado a Daniel Ganjaman e ao arranjo de cordas eletrizante de Marcelo Cabral, a dupla de produção do disco responsável por catapultar a obra musical do rapper desde 2011.

Em questão de arranjos, “Casa de Papelão” também é impecável, ainda que menos acessível. Os sopros são de Thiago França, dentro da vertente free-jazz Albert Ayler/Alice Coltrane. Mas esses sopros estão intrínsecos à esfera do afro-beat, por conta de dois pormenores: a tempestiva percussão de Maurício Badé e parte dos ensinamentos ethio-jazzísticos do parça de Criolo, Mulatu Astatke, com quem dividiu palcos na Europa.

“Casa de Papelão” é um acerto que seria impossível de ser trespassado em Nó na Orelha. Aqui, temos um Criolo bem resolvido, inserindo uma poesia urbana árida que indiretamente dialoga com o que Juçara Marçal atingiu em “Jardim Japão”, a preciosa colaboração feita em Bahia Fantástica (2012), de Rodrigo Campos. (Juçara Marçal também colabora em “Fio de Prumo” (Padê Onã), cujo refrão de ares místicos – cortesia da composição de Douglas Germano – infelizmente é aquebrantado por rimas não tão inspiradas de Criolo. A simbiose Juçara/Criolo ainda está em tempo de ser melhor aproveitada.)

Tanto “Cartão de Visita” como “Casa de Papelão” representam uma nova investida de Criolo, dentro dos parâmetros musicais abertos por Nó na Orelha – ainda que marcadamente mais ousado que o álbum anterior.

Chame de evolução ou sucessão e não estará absurdamente errado. Mas o termo que melhor define Convoque Seu Buda é liberdade artística, o que reflete algo paradoxal em nossos tempos: será que é preciso se fechar num nicho só para adquirir sucesso comercial? Se isso for verdade, então Criolo, em todo esse meandro, é uma anomalia. Uma anomalia reforçada pelo teor diverso deste Convoque Seu Buda.

O hip hop flameja na faixa-título (com a força de um “Subirusdoistiozin”) e em “Plano de Voo” (nos moldes do cada vez mais escutado Ainda Há Tempo, de 2006), mas também há diálogo com outros gêneros: reggae em “Pé de Breque”; samba em “Fermento pra Massa”; afro-beat na mencionada “Casa de Papelão”; e traços da música nortista em “Pegue pra Ela”, que vai fazer com que muitos fãs puxem um par pra dançar nas pistas.

Duas características são sobressalentes em Convoque Seu Buda, e a cada César deve ser garantido os devidos créditos. A mais notável é a mudança estética: o álbum é mais experimental, com timbragens psicodélicas que somam Don Cherry e Arthur Verocai nas influências que você-já-sabe-quais-são na obra de Criolo. Agradeça ao empenho de Cabral e Ganjaman nessa empreitada.

A segunda característica do álbum é a atualização artística do compositor. Crítica social, humor refinado e contextualização da filosofia com o urbano são dotes poderosos em Convoque Seu Buda. Em “Esquiva da Esgrima”, Criolo é assertivo: ‘Quem toma banho de ódio/Exala aroma da morte’. “Pegue pra Ela”, por outro lado, mira as amarras da indústria musical, com claro direcionamento ao modus operandi do Fora do Eixo: ‘Pra cada louco fora do eixo/Quebra-queixo dessa questão/Toda indústria tem no comércio/Seu ponto de reprodução/Então se pra cada pouco processo/Em cada processo uma ação’. Se Gilberto Gil tivesse ouvido tais versos em 1977, certamente incluiria em Refavela.

Pela dimensão que sua obra atingiu, muito ainda vai se ouvir falar de Criolo ao cabo de 2014 e todo o ano de 2015. Sua difusa eloquência e suas teorias ininteligíveis serão pautas de muitos memes pela blogosfera. Felizmente, a música do cantor consegue ser mais contundente que quaisquer de suas declarações abstratas. Ainda que não se amarre no excesso de objetividade que toma conta das letras de diversos rappers por aí, Convoque Seu Buda é lucidamente cru como as ruas do Grajaú e abertamente criativo, como clama não apenas o rap nacional, mas a música brasileira como um todo.