Gravadora: Sub Pop
Data de Lançamento: 10 de junho de 2014
Não é no fator novidade que está o atrativo do Clipping. Seu estilo noisy magnetiza pela forma séria, mas não tanto assim, servindo de contraponto ao freaky do Death Grips.
Sério, barulhento e com seus bons momentos de descontração.
A velocidade das rimas de Daveed Diggs logo em “Intro” é prova de que não há verbo melhor para o trio que metralhar. Metralhar aos ouvidos, mesmo quando são as mulheres que dominam com suas ‘unhas, cabelo, belo corpo e dentes brancos’ como canta em “Body & Blood”. Nem o verão livra-se da ‘avalanche chegando’ em “Summertime”, com colaboração de King T, barulhos de sirene, doses de psicodelia e um clima de apreensão que exibe um Clipping assertivo ao domar sonoridades improváveis (mérito de William Hutson).
Mas a melhor acepção do termo metralhar está na capacidade de Diggs rimar. Com a velocidade de um Andre 3000, contextualiza sua vida nas ruas em “Taking Off” ou nas brutais descrições de “Or Die” com um dom-jazz-industrial quebrado, que reforça a técnica do grupo em formatar um cenário sci-fi, cabuloso e aterrador. Tanto, que cairia bem a entrada de um Killer Mike ali.
Os achados estéticos de CLPPNG são perceptíveis por se destacarem de toda a pulverização recente pela qual o rap vem passando. Infelizmente, isso não se transfere com eficácia às letras.
“Work Work” tem participação quentíssima de Cocc Pistol Cree, de fazer Nicki Minaj se sentir irrelevante, mas peca por cair numa espiral que se prende à mensagem de ‘fazer as coisas funcionarem’ (Henry Ford nos ensinou isso há mais de um século, ora pois). “Tonight”, que teria potencial de atrair novatos, tem um quê de hedonista que não difere do rol extenso de raps medianos disparados aos montes. Gansgsta Boo não consegue deixá-la interessante. Nem Missy Elliott conseguiria…
Em tempos em que o rap underground não demora a pegar uma fatia do espaço desproporcional de gigantes, o Clipping tem arsenal de peso para expandir seu alcance, nem que seja por vias (figurativamente) beligerantes.
midcity (2013) evidenciou a falta de concorrência no ambiente explorado pelo trio – ainda que Yeezus e Government Plates tenham lá suas intersecções.
Jay-Z e Eminem não os agrada e o formato com que as canções se desenvolvem dá ao Clipping um ar de marrento intransponível. No entanto, há concessões: em “Inside Out”, o input G-Funk no molde Aquemini (1998) se encaixa nas distorções saturadas do grupo. “Dominoes” traz um coral de crianças mas, ao invés de recorrer às vias apelativas de Drake e Rick Ross, se justapõe num andamento torto e cáustico.
Portanto, se há seriedade em CLPPNG, ela é bem melhor assimilada que as poucas piadas soltas, além de sintetizar a busca experimental dos novos contratados da Sub Pop.
Nesse sentido, o Clipping pode parecer fechado e sisudo, mas é nessa clausura subterrânea que há de se encontrar novas frestas para o rap de qualidade.
CLPPNG é só uma porcentagem disso.
