
Chico Buarque não lançava nada inédito desde Carioca, de 2006
Gravadora: Biscoito Fino




Talvez o único argumento para fazer uma crítica negativa ao álbum Chico, de Chico Buarque, é a sua brevidade. Apenas 30 minutos de deleite com seus versos indistinguíveis é muito pouco para quem ficou mais de cinco anos sem registro inédito de um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos.
Toda a beleza de Chico também pode ser atribuída ao tempo: todos os takes das 10 canções do álbum foram trabalhadas sem pressa na casa do maestro Luiz Claudio Ramos
Ainda que o músico carioca possa se sentir à vontade no seu confortável divã poético, Chico preza pela sutileza dos sentimentos mais pequenos – aqueles mais difíceis de se fincar na memória. Como em “Essa Pequena”, em que Chico pega emprestada as descrições literárias para construir a imagem da mulher com cabelo ‘cor de abóbora’. Mas ele tem absoluta distinção disso tudo: “temo que não dure muito a nossa novela, mas eu sou tão feliz com ela”. Aqui, pode se traçar sem problemas um paralelo entre a sua carreira como escritor (que vem crescendo com o passar dos anos) e a já consagrada carreira como músico.
Toda a beleza de Chico também pode ser atribuída ao tempo. Não apenas o tempo de estrada, mas o tempo para consolidar a obra. Em uma entrevista pela web, Chico Buarque revelou que todos os takes das 10 canções do álbum foram trabalhadas sem pressa na casa do maestro Luiz Claudio Ramos.
A levada acústica, mas repleta de notas complexas, permeia o disco. Mesmo em “Tipo Um Baião”, Chico inicia com o seu violão para falar de acordeão, citando Luiz Gonzaga e finalizando com efeitos de guitarra após um delicioso xote. Dançante também é “Sou Eu”, escrita em parceria com Ivan Lins, falando sobre a desejada na noite. Já em “Seu Eu Soubesse”, Thais Gulin surge com sua voz doce para registrar um dueto aconchegante que interliga o amor ao descompromisso.
Clipe: “Tipo um Baião”
Descompromisso, por sinal, é a palavra-chave de todo o disco Chico. Não tem nada de muito sério nas composições sobre amor. Até quando parece que iremos vislumbrar um Chico mais sério e profundo, como em “Sem Você 2″, ele faz valer o amor-próprio destacando os lados positivos de não estar com a mulher desejada: ‘Sem você o tempo é todo meu, posso até ver o futebol, ir ao museu ou não’.
A primeira faixa, “Querido Diário”, dá início às primeiras páginas do livro aberto de sentimentalidades – e sem orifícios – do compositor. Essa jornada breve e com um gostinho de quero mais se encerra com “Sinhá”, canção que foi apresentada com João Bosco em um vídeo pela internet antes do lançamento do disco. Chico se forja como um interiorano inocente que adoraria vislumbrar a voluptuosa ‘sinhá’ depois dela se banhar. Nos últimos versos de “Sinhá”, ele encerra com um certo tom de humor e benevolência: “E assim vai se encerrar/O conto de um cantor/Com voz do pelourinho/E ares de senhor”.
E a nós, só cabe aguardar um próximo conto. Ou uma novela, ou um romance.
Clipe: “Sinhá”
Melhores Faixas: “Querido Diário”, ‘Essa Pequena”, “Tipo Um Baião”, “Sinhá”.
