Gravadora: Olelê Music/Cava Records
Data de Lançamento: 15 de setembro de 2014
Do rock clássico à psicodelia. Essa história já foi contada antes, mas ganha contornos diferentes quando miramos o contexto nacional. Ainda mais quando falamos dos anos 2000, momento em que a inovação está mais ligada a reprocessamentos que criação artística.
Dos riffs e urros que marcaram os seis discos anteriores, o Cachorro Grande partiu para experimentações com teclados e formato mais longevo de canções. Elas chegam a ultrapassar os 10 minutos de duração e mostram a banda gaúcha totalmente transfigurada, como se estivesse absorta numa dimensão bem distante daqui (parte disso se deve à produção de Edu K, da banda De Falla).
“Nós Vamos Fazer Você Se Ligar” é a antena dessa nova fase da banda. Os loopings variam, provocando mistério a qualquer tipo de ouvinte, seja fã ou não desses gaúchos.
“Nuvens de Fumaça” define o eixo do disco. É potencial single, com pitadas de jungle num híbrido que nos remonta ao XTRMNTR, do Primal Scream. “Use o Assento para Flutuar” reverbera tal semelhança: batidas de techno pesado e vocais em reverb delineiam uma canção lunática, que parece ter sido gravada em outra órbita.
A letra de “Eu Não Vou Mudar”, entretanto, revela muito do que se ouvirá no decorrer do disco. As timbragens são inovadoras, mas as composições permanecem ululantes: ‘Se você não vai ouvir o que estou dizendo/Se não posso caminhar contra o vento’.
“Como Era o Bom” tem propósito bastante parecido com “Eu Não Vou Mudar”. Sintetizam que as mudanças estéticas são parte do mesmo Cachorro Grande que obteve sucesso após Pista Livre (2005).
A banda chega a radicalizar nessa empreitada eletrônica em “O Que Vai Ser”, que mais parece um remix claudicante que uma faixa em si. “Torpor Partes 2 & 5”, ainda que seja meio spoken word, soa mais bem-sucedida: é uma crônica sobre o comum, chapação de sábado após ‘empregos normais em horários normais’ de uma situação corriqueira. Ainda que peque por pouco surpreender na narrativa, dá espaço para que as guitarras de Marcelo Gross passeiem por diferentes conexões musicais, com fragmentos que vão da música latina ao rock progressivo.
Em Costa do Marfim, diga-se, vemos o Cachorro Grande dar adeus às poltronas acolchoadas dos tempos de MTV. Sabidos de que o senso de renovação é necessário para evitar que a banda caia na mesmice, eles acertaram na escolha, por mais que os deslizes entrem na soma (o maior deles é “O Que Vai Ser”, faixa óbvia demais que diminui o suposto mistério do novo).
Mesmo que esteja em formato mais ousado que os discos anteriores, Costa do Marfim consegue cativar pela energia, que aqui ressurge renovada (fãs do Kasabian vão gostar).
A banda não abandonou por completo as características do rock setentista, como faz bem em “Eu Quis Jogar”. Esta faixa mostra que a banda terá seu trajeto assegurado no rock que acostumou fazer, caso a nova empreitada não dê certo.
A renovação é latente quando se tem noção da sonoridade de outrora da banda, mas pouco contribui no cenário musical como um todo. Já vimos antes empreitadas como essa. Pela ousadia e pelos resultados obtidos, tá valendo…
