Gravadora: Domino
Data de Lançamento: 28 de junho de 2016
Desde muito tempo a movimentação de Nova York tem influenciado a música pop. Ultimamente o Brooklyn tem chamado mais a atenção; não por seus bairros negros ou por sua forte conexão com as ruas, mas pela atividade de bandas indie como Dirty Projectors, Grizzly Bear e The Drums, responsáveis por esse ‘novo olhar’ a partir da década de 2000.
O que atraiu o músico Dev Hynes de Londres para a cidade norte-americana foi a boemia. Influenciado por livros como Mate-me Por Favor, que traça a história da música punk, e diversas manifestações culturais que vão do balé, teatro e arte digital ao queer-rap, lo-fi e o R&B de traços eletrônicos, o projeto Blood Orange chega ao segundo disco com muito pra assimilar.
Embora as andanças e a multiplicidade nova-iorquina seja preponderante, o título do disco, Freetown Sound, faz reverência a outro lugar: Serra Leoa, país em que o pai de Hynes nasceu.
Seja na Europa ou na América, a fronteira geográfica não influencia em quase nada na música do Blood Orange. Mesmo porque elas não são tão diferentes entre si: basicamente, o disco parece o apanhado de um artista que fez do MPC o principal instrumento. A sonoridade repetitiva dos beats lembra bastante Twin Shadow e bandas amadoras dos anos 1980 – por isso, após “Augustine”, notável por seu lado meio Tears For Fears entoado como uma confissão levítica, é bem previsível ficar caçando as tessituras que amarram as demais canções.
Mesmo a sutileza do baixo, do piano e dos instrumentos de sopro tem poucas variações, como mostram “Chance” e “Love Ya”. “Best to You”, com vocais de Empress Of, é como um passeio de bicicleta num local com poucos obstáculos. Os cantores se dialogam em busca de um consenso. O que no passeio seria respondido pela paisagem, na música é respondido pela junção percussiva de latas e batidas eletrônicas.
Blood Orange contou com diversas participações no álbum: Debbie Harry, eterna musa do Blondie, é o complemento adequado à voz baixinha-intimidadora de Hynes, meio Tricky até, em “E.V.P.”, um dos exemplos mais dissonantes do álbum por adotar uma linha space-funk que se clarifica aos poucos, até ser totalmente invadida por guitarras à lá Nile Rodgers numa atmosfera acinzentada.
Mas, marcante mesmo é a participação de Carly Rae Jepsen em “Better Than Me”. Em entrevista ao New York Times, Hynes revelou: “amo trabalhar com ela porque não podemos fazer o que o outro faz. Ela é muito pró”. Na música, a troca de sussurros entre eles, além da intimidade, fala de reconhecimento do talento do parceiro – totalmente transferível para as nossas relações interpessoais. É bem aparente quando eles dizem que um é melhor que o outro, mas é ao desenvolver esse argumento que percebemos a grandeza da canção: ‘Por que escolher o amor quando o ódio vem antes?’, questiona Hynes. ‘Espere sua vez e mude seus caminhos’.
Na música do Blood Orange, a composição parece ser secundária – o que realmente reina é a climatização. Por isso elas soam como sucessões passageiras, possíveis frutos de uma elucubração. O fato de reunir 17 canções faz de Freetown Sound uma espécie de materialização de um sono de muitas horas.
Canções como “Desirée”, em que o pastiche tem um objetivo, e “Squash Squash”, indie tão nebuloso quanto dos ‘novos’ vizinhos do Brooklyn, usam a repetição como estética, embora não possuam nenhum atrativo para ser tocadas novamente. “Tendo a desenhar o passado, porque as coisas aconteceram, mas podem continuar a se repetir”, explicou Hynes em entrevista ao programa de Zane Lowe, da Apple Music. A releitura é válida, mas a questão é: a forma com que encaramos os mesmos eventos merece, no mínimo, outra abordagem. Freetown Sound deveria ter mais disso.
Errata:
• O título remete à capital da Serra Leoa, e não Sérvia, como estava anteriormente.
