Gravadora: Capitol
Data de Lançamento: 21 de fevereiro

Quando Beck lançou Sea Change (2002) em um bom momento de suas inovações estéticas, alguns se questionaram qual era a grande intenção do músico. Havia um humano ali, por trás de todas as experimentações que tiveram ampla aceitação com Odelay (1996) e o levaram a outros patamares em Mutations (1998) e Midnite Vultures (1999).

A pergunta que cabe agora com a chegada de Morning Phase, seis anos após Modern Guilt, é: qual o motivo de Beck refazer trajetória parecida com o disco que lhe deu aceitação indie?

Aí a resolução é inevitável: quem gosta de Sea Change (assim como One Foot in the Grave, de 1994, ou algumas faixas de Mutations), fica mais propenso a gostar de Morning Phase.

Tais simpatizantes irão entrar na onda logo nos primeiros acordes de “Morning”, uma música que deveria primar pela beleza que buscamos ao acordar, mas só nos deixa com mais preguiça.

O disco é basicamente acústico e os toques espertos de produção são percebidos em simulacros de ventania (vide “Heart is a Drum”) ou nos synths profundos de “Unforgiven”, não por acaso as faixas que melhor passam as mensagens de Beck. São composições do mesmo rapaz solitário de “Loser”, que ainda caminha, sofre, ama, se decepciona, chora e faz um disco triste.

E se você procura uma nova “Loser”, pode se contentar com a proposta de “Wave”, talvez a melhor música do álbum. Os arranjos densos, orquestrados, quase góticos, nos dão uma visão panorâmica de um Beck pequeno e isolado diante da imensidão ao seu redor. Como se estivéssemos contemplando uma figura distante, tornando-se cada vez mais desfocada e misteriosa.

Por mais que o ritmo do disco esteja propositalmente desacelerado, Beck faz uso do folk como uma raiz própria, como se estivesse se entregando a um antepassado. ‘O tempo vai dizer e eu irei’, diz em “Say Goodbye”, afastando-se e querendo pertencer ao mesmo tempo em um local não-específico e não-geográfico.

A boa produção de Morning Phase é eminente mas, se era novidade que você queria de Beck, o disco soa uma decepção. Não há ineditismo; ele já havia provado que sabia sentar em um banquinho e um violão para despejar suas emoções com a mesma habilidade que transfigura sua própria música nos registros mencionados acima.

Dizer que Morning Phase é um disco de canções regulares soa um insulto para quem tem no currículo inquietudes como “High 5” e “Gamma Ray”. Beck sabe como mexer com os violões e felizmente consegue manter o ouvinte atento a uma de suas obras mais reflexivas.

Mas regular, sejamos francos, é um termo que não deveria caber a Beck. E Morning Phase não passa disso.

Que Beck é demasiadamente humano, nós já sabíamos. Não precisava de um disco inteiro como (mais uma) provação.

Esperemos, agora, o crepúsculo tomar conta e o ar inovador assumir novamente as rédeas. É nesse meio que está sua verdadeira relevância musical.