Gravadora: Elo Music/Boitatá
Data de Lançamento: 14 de abril de 2017
Avaliação: 7.5/10

Complicado separar a Banda Isca de Polícia da trajetória de Itamar Assumpção, mas já são quase 15 anos desde que um dos pais da Vanguarda Paulista morreu de câncer, em 2003. Então, não se faz necessária tantas reverências.

No primeiro disco sem o icônico Itamar, a Isca de Polícia lembra, endossa, reforça – e chama convidados que também fazem o mesmo. Em “As Chuteiras de Itamar”, as cantoras Suzana Salles e Vange Milliet fazem uso de simbologias muito próximas ao músico: o amor às orquídeas e a busca pela aceitação do grande público: ‘Mas o que eu queria era ter feito uma canção/Que amarrasse as chuteiras/Do Itamar Assumpção’.

Este não é o único exemplo. A última faixa, “Itamargou”, tem colaboração de Tom Zé e faz trocadilhos com a banda e a eternidade de Itamar.

Julgar essa rememoração é deixar de lado o contexto do retorno da Isca de Polícia, formado por Jean Trad (guitarra), Luiz Chagas (guitarra), Paulo Lepetit (baixo) e Marco da Costa (na bateria, no lugar de Gigante Brasil, que faleceu em 2008), além de Suzana e Vange.

Quando o grupo fez o primeiro show sem Itamar “deu um frio na barriga no primeiro momento, mas a gente sentiu que tinha legitimidade para levar o trabalho dele”, disse Vange, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.

Diretas e indiretas

Mas, para um disco próprio, o excesso de reverência ofusca a potência do grupo, que é latente. O rock da Isca de Polícia tem como característica brincadeiras linguísticas que fogem do regionalismo.

Os integrantes são de São Paulo, mas trazem elementos do samba (“Arisca”) e até do movimento Black Rio (“Meus Erros”), mais próximos à cena carioca.

A grande força, porém, está nas composições. A frase ‘Vou-me embora, para não ficar por fora/Me arrebento pra ficar por dentro’, de “Dentro Fora”, pode ser aplicada em duas situações: no rolê com os amigos ou na opção de se informar ou não. Afinal, quanto mais informação, mais indignação. ‘Me arrebento’, aqui, significa que ter conhecimento profundo das coisas pode ser perigoso, chegando a causar danos internos.

Multiplicam-se os sentidos das canções da Isca de Polícia pela forma com que as mensagens são transmitidas. A repetição das estrofes leva a dúbias interpretações. Pegue “Atração pelo Diabo”: isso não quer dizer que o grupo tenha algum vínculo com o inferno; significa o reforço de um comportamento transgressor, que o grupo fez todo o cuidado de manter desde sua primeira excursão com Itamar, em 1981.

Há, também, canções mais diretas ao ponto, caso de “É o que Temos, É o Melhor”, parceria com Zeca Baleiro. E, claro, os momentos em que o direto e indireto estão conectados, caso da ótima “Corpo Fechado”.

O título Isca, Volume 1 já deixa bem claro que um volume 2 vem aí, possivelmente ainda em 2017. Até lá, as boas vibrações de Itamar, que já estavam intrínsecas ao grupo, não precisarão ser mencionadas novamente.