Gravadora: P-Vine/Northern Spy/Ponderosa
Data de Lançamento: 21 de abril de 2017
Avaliação: 9/10
Estranha a relação de Arto Lindsay com a música brasileira. Natural de Richmond (Virgínia, EUA), o guitarrista passou a infância e adolescência em Garanhuns (Pernambuco).
Ao voltar à terra natal, tornou-se um dos mais célebres expoentes da barulhenta no-wave, com letras niilistas e efeitos dissonantes de guitarra, em grupos como DNA e Lounge Lizzards. A no-wave era uma resposta à banalização do punk em Nova York, mas quando ele voltou ao Brasil, sua expressão pareceu-se voltar justamente para o oposto, o mainstream.
Mesmo produzindo discos de Caetano Veloso e Marisa Monte, Arto Lindsay criou uma divisão musical própria que deixa bem separadas suas influências. De um lado, os efeitos anárquicos daquilo que ele entende de rock; do outro, a sutileza da melodia brasileira que soa como busca inatingível de sua arte.
Noutras palavras, o que estamos cansados de ouvir nas rádios de MPB parece ser uma estética a ser atingida por Arto.
Não conseguir chegar lá, no caso dele, não é uma imperfeição. É retrato do eminente esforço de conectar dois espectros de sua obra distantes demais.
Em Cuidado Madame, é seguro dizer que suas expressões musicais se fundiram numa estética à parte. Essa fusão resultou em algo mais híbrido do que se imaginava, como se dois elementos químicos apresentassem reações desconhecidas numa involuntária junção da natureza.
Polos musicais
A primeira faixa, “Grain by Grain”, é um exemplo de como suas referências se espalham feito a areia com a chegada de um maremoto. O impacto é sentido pelo ouvinte sob diferentes formas: nos detalhes etéreos de “Each to Each”, na sucessão de imagens pressuposta em “Ilha dos Prazeres”, no bagunçar das cordas, teclados e efeitos em “Deck”…
Em alguns momentos esse hibridismo pende mais para um polo musical que outro.
“Seu Pai” é prova de que ele tirou bons ensinamentos do formato brasileiro de canção que ele tanto idolatra: a singeleza lembra Caetano Veloso, mas o tique-taque que pende nos backings expressam a típica secura que Arto recorre para contrapor-se ao ritmo frenético da música brasileira.
Ah, falando em ritmo e tudo o mais, vale notar em Cuidado Madame maior presença da marcação percussiva em sua obra. Tudo bem que não pode faltar uns surtos guitarrísticos (“Arto vs Arto”), mas é a dissonância nas batidas de “Vão Queimar ou Botando Pra Dançar” e no aspecto do que parece ser um kit de bateria fragmentado, em “Tangles”, que vemos Arto fazendo da desconstrução a arte própria.
Percussão à brasileira (mas nem tanto)
Na verdade, a trajetória de Arto passou recentemente por diferentes abordagens da bateria e da percussão.
Em 2014, o músico lançou o disco ao vivo Scarcity com o baterista Paal Nissen-Love, um dos nomes mais importantes do atual free-jazz europeu. Ele também produziu Orquestra Contemporânea de Olinda e trabalhou com Carlinhos Brown.
Para Cuidado Madame, as percussões e atabaques passam pelas mãos de Gabi Guedes, Iuri Passos, Icaro Sá, Jaime Nascimento e Ricardo Braga.
Notas de violão e guitarra são frutos de uma expressão lacônica aqui também: em “Uncrossed”, Patrick Higgins opta por um som monocromático, enquanto as distorções de Berna Ceppas desfiguram totalmente a música. Em “Pele de Perto”, o violão de Dadi Carvalho (Novos Baianos) despe Arto a ponto de imaginarmos como seria um acústico dele para pessoas que desconhecem seus percalços, na distante cidade de Garanhuns.
Além de encurtar a distância entre o noisy e o que o próprio músico chama de ‘sexy Arto’, Cuidado Madame também dá cabo de aproximar o “nexo cultural dos ritmos afrobrasileiros”, por influência do candomblé, à “modernidade ocidental”.
As expressões se coabitam, e as diversas faíscas dessas convergências se tornam a real interlocução musical do álbum, a ponto de ofuscar por completo a extremidade desses polos.
Leia também: Arto, entre o tum-tum e o whah-wah, sobre Encyclopedia of Arto (2014)
