01 Do I Wanna Know? 02 R U Mine? 03 One for the Road 04 Arabella 05 I Want It All 06 No. 1 Party Anthem 07 Mad Sounds 08 Fireside 09 Why’d You Only Call Me When You’re High? 10 Snap Out Of It 11 Knee Socks

12 I Wanna Be Yours

Gravadora: Domino
[rating:1.5]

Há mais de duas décadas atrás, Renato Russo dizia que fazíamos parte da geração Coca-Cola: um bando de ‘burgueses sem religião’ consumidos pela felicidade enlatada da publicidade.

As coisas não mudaram muito: a tecnologia permitiu que fizéssemos de nossas emoções e aforismos verdades quase irracionais. Vide as postagens no Facebook: é esta a rede social que compila um universo inteiro de felicidades espontâneas. De gente que ainda acredita na felicidade estampada nos comerciais da Coca-Cola.

Pois este é o público do Arctic Monkeys. A banda de Alex Turner é um subproduto da pau-molescência do rock da mesma forma que os Strokes foram anos antes. O paralelo das duas bandas que já serviram de cobaia como ‘salvadoras’ (um nos EUA, o outro na Inglaterra) serviu para alimentar uma geração onde a sede não poderia ser aniquilada apenas pelo líquido preto.

O vocal barítono de Alex Turner, os riffs manjados de guitarra e as composições adolescentes de flertes, momentos amorosos e contratempos usuais à juventude que diz ‘se perder’ formaram a base do que é a essência Arctic Monkeys.

O problema é que essa essência é absurdamente plastificada, e não é preciso ser especialista para apontar os cut-copies deslavados em seu quinto disco. Eis um exemplo: “Arabella” traz aquelas paradas de “War Pigs”, mas sem a mínima cadência de tempo do Black Sabbath. Dá vontade de interromper e botar pra rodar Paranoid (1971), onde cada minuto vale mais que todo o desperdício de procurar genialidade em AM.

Mais uma vez a banda aposta no jeito Queens of the Stone Age de ser. De fato, AM é a prova cabal de que Humbug (2009) foi um passo mais nocivo do que vantajoso para a banda.

Os ingleses diminuíram a chama roqueira dos dois primeiros álbuns e se viciaram em baladas que não se diferenciam quase nada uma das outras. O que é “No. 1 Party Anthem” se não uma tentativa fracassada de fazer o mesmo que fez em “She’s Thunderstorms” – e sair ainda pior que a fraquíssima “Secret Door” (onde a única coisa legal era a dinâmica da bateria).

“Mad Sounds” contém todos os elementos que formam uma balada praguejante: não bastasse os uh-la-la-las que a banda insiste em incorporar às suas canções desde que surgiu com Whatever People Say I Am… (2006), o contraste de falar de sons furiosos em melodia lenta não garante à canção um tom interessante. Aquilo é coisa de adolescente que acha que acordar triste e permanecer mal-humorado o tempo inteiro é algo cool por revelar uma suposta faceta sentimental. Na verdade, só estamos diante de mais uma de muitas músicas desajustadas e descartáveis, que sempre permearam a música de todos os tempos.

De todo o disco, as únicas que empolgam são as duas primeiras: “Do I Wanna Know?” e “R U Mine?”. Depois, temos uma sucessão de fórmulas ultrapassadas, uma tentativa de estabelecer um estado de permanência no imaginário da juventude que prefere consumir o rock pau-mole em contraste com a elevada testosterona.

Aí, a banda tenta meio que formar a música ideal para hormônios: a cada necessidade de agito, tome aí um riffzinho de “I Want It All”, que não compensa pela escolha terrível de vocais preguiçosos.

“Why’d You Only Call Me When You’re High?” é uma assertiva óbvia que já foi repetida aos extremos em franquias como American Pie, Porky’s e outros filmes adolescentes com bebedeiras e romances clichê. O pior é que ela é tão sem vigor, tão chata, que se você escutá-la às 3 da manhã com o telefone na mão pronto para ligar pra namorada depois de uma briga, vai dormir antes de se passar os 2min40s da música. ‘Why’d you only call me zzzzzzzzz…’.

Sete anos depois do boom que foi o primeiro disco, AM veio para atestar que a testosterona era a única coisa útil que o Arctic Monkeys poderia oferecer. Passada a explosão de hormônios, o que sobra é uma atrofia que não agrega em nada, nem à juventude, muito menos aos interessados por música original e de qualidade.

Assim como a Coca-Cola, entenda: o Arctic Monkeys pode ser uma delícia de propaganda, mas faz um mal danado à saúde.

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A seguir ouça AM, do Arctic Monkeys, na íntegra:

Melhores Faixas: “Do I Wanna Know?”, “R U Mine?”.

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ERRATA

• “War Pigs”, do Black Sabbath, faz parte do álbum Paranoid (1971), e não Vol. 4 (1972), como estava anteriormente.