Gravadora: Fysisk
Data de Lançamento: 26 de fevereiro de 2016
O Årabrot é considerado pioneiro na Noruega por fazer um metal onde se encaixam estranhezas – que começam pela voz sádico-punk de Kjetil Nernes e vão até o andamento pesado da bateria de Magnus Nymo, que se arrasta como se carregasse consigo uma cruz de pecador.
The Gospel é o sexto álbum da banda, e sites estrangeiros como The Line of Best Fit e The Quietus já consideram o melhor deles.
A razão é puramente estética: o Årabrot canta com a seriedade e imposição de uma banda de metal, mas o resultado parece ser mais destilado.
Há algo de misterioso, de místico até, em canções como “I Run” ou na já considerada épica “Faustus”, 10 minutos em que o grupo brinca de ser Swans, cata alguns riffs à lá Godspeed You! Black Emperor, traz elementos do sludge pop do Mastodon e termina num som massivo, com todos esses elementos aglutinados.
Para chegar a um disco como The Gospel – diversamente espirituoso, uma entrega a um mundo desconhecido – vale a pena contar o que aconteceu com Kjetil. O vocalista teve que cuidar de um câncer sério na garganta.
Após se internar, teve início o que ele mesmo chama de uma ‘guerra interna’.
Por mais que as canções de The Gospel não dialoguem uma com a outra, estão interligadas por suturas de um grupo que não nega, por exemplo, possibilidades da soul-music no death metal
Aí surgiram as imagens: “O tema de The Gospel é a visão de um guerreiro solitário com os olhos no campo de batalha, contemplando a fumaça das bombas na cratera, um silêncio abrangente”, escreveu Kjetil na página do BandCamp do grupo. “A guerra era contra ele mesmo; contra a feiura, contra a doença. Você vai até o fundo do mar, e de repente está na superfície de novo”.
“O homem que já foi ao inferno nunca esquece”, conclui.
As dificuldades passadas por Kjetil são devolvidas, no disco, como uma vontade de seguir todos os caminhos – mesmo que todos tenham que ser percorridos ao mesmo tempo.
Em tempos em que um single pode ser definitivo para uma banda, The Gospel segue via completamente oposta: não é possível isolar nada daqui. Por mais que as canções não dialoguem uma com a outra, estão interligadas por suturas de um grupo que não nega, por exemplo, possibilidades da soul-music no death metal.
Mas, se for usar bandas como comparativo, dá pra imaginar, em sons como “Tall Man” e “Darkest Day”, como a mistura sórdida de The Fall com Opeth após ouvir Roots (1996), do Sepultura.
Punk e o tal do rock cerebral entram na conta. Avant-garde espalhafatoso, ancorado em riffs e percussões ritualísticas também. Isso tudo com ecos da gravação de Steve Albini (que trabalhou em parte do disco) e uma busca litúrgica (a outra parte foi gravada numa igreja sueca).
Outra figura conhecida que atua no disco é Stephen O’Malley, do Sunn O))), que colabora com drones nas guitarras e alguns solos.
Tresloucadamente original, o Årabrot poderia ser apenas um respiro de alívio num ambiente tão desprovido de mudança quanto o metal. Mas, The Gospel é mais que isso. Como o título dá a entender, trata-se de música espirituosa.
