Gravadora: Warp
Data de Lançamento: 22 de setembro de 2014
SYRO é o grito arrebatado de Aphex Twin. Quando ele soltou em Londres um balão verde anunciando o disco de forma repentina, deixou uma frase oculta: ‘prestem atenção em mim!’.
Por que Richard D. James diria isso? Ora, porque o mundo musical não sente mais falta dele. O que não quer dizer que não deveria gratificá-lo: sua meticulosidade com os Selected Ambient Works, a euforia de The Richard D. James Album (1996) e a estranheza de Come to Daddy (1997) muniram o que conhecemos de IDM com o que o humano tem de mais extravagante.
Na eletrônica de Aphex Twin, emoção e inteligência se convergem num andamento que pouco entendemos, mas que julgamos ser real.
Em SYRO, Richard pende muito mais às desavenças estéticas. Faz uso de seus achados (digitalmente) melódicos numa faixa ligeira como “XMAS_EVET10 [120][thanaton3 mix]”, que muito revela o insight do produtor: acid-house e jungle. Aos afeiçoados ao gênero, polivalências de DJ Hype e High Contrast se esmerilham nas tortuosas “4 bit 9d api+e+6 [126.26]” e “CIRCLONT6A [141.98][syrobonkus mix]”.
No entanto, para a cara feia de muitos jornalistas que tentam decifrar Aphex Twin, permanece a impossibilidade de qualquer comparação com outros músicos da renegada IDM. SYRO é latente, voraz. Sua força é destrutiva a ponto de ruir a própria noção que formamos de sua música ao longo dos anos.
Através do avant-garde de “syro u473t8+3 [141,98][piezoluminescence mix]”, sentimos nos aproximar dos anjos na velocidade de um foguete – ao chegar, o ouvinte se depara com uma profusão que lembra harpas e violinos de técnicas impossíveis ao ser humano.
Com “CIRCLONT14 [152.97][shrymoming mix]”, o tour é pelo mundo distópico de Matrix, em torno do vazio de luxuosos prédios inabitados ao lado de um ET que bem poderia ser inimigo de Neo e companhia.
Não é preciso esforço para abstrair ao som de SYRO, o que nos revela certo ar prepotente do artista. O hibridismo de cada faixa beira a genialidade, mas a pressão arremessada ao ouvinte é tão forte, que há momentos em que nos sentimos oprimidos. Isso pode acontecer mesmo na improbabilidade acerca de “s950tx16wasr10] [163.97][earth portal mix]”, quanto na desregrada “PAPAT4 [155][pineal mix]”.
As duas primeiras faixas do disco, muito calcadas no ambient, nos faz imaginar que uma mente de grande sanidade deixou levar-se pela emoção e pelas vicissitudes da existência conforme o avançar do play.
Sabemos que Aphex Twin não é dado a normalidades, mas SYRO busca o sentido de impacto fazendo uso extremado desse impacto (já iniciado quando se depara com os nomes das faixas [vide tracklist abaixo]). O resultado é cativante, embora os meios revelem insegurança diante dos muitos rumos que continuam a ser traçados na música eletrônica.
