01 Mordido 02 Vitta, Ian, Cassales 03 Lá em Casa Tá Pegando Fogo 04 Despirocar 05 Líquido Preto 06 Não Se Precipite 07 Rota 08 Torcicolo 09 Nado 10 Por Trás 11 Reinação
12 Cartão Postal
Gravadora: Independente
[rating:2.5]
Guitarras tonificadas à lá Holger agitam de início, e logo o clima cai para um acústico em que o vocalista Alexandre Kumpinski entoe: ‘Vamo acertar/A rima, a métrica, a lógica, a tônica’, como justificativa de consertar ‘o que te incomoda’ na faixa “Não Se Precipite”.
Em um passado distante, no início do século XX, assuntos como esse nem entravam em discussão no meio musical: harmonia, melodia e cadência deveriam seguir uma linearidade. Com as novas descobertas musicais, a bagunça desses elementos nos remete à música experimental – outrora repudiável, hoje mais passível a elogios por representar uma suposta quebra de convenções.
As descobertas musicais do Apanhador Só sucederam de forma interessante: depois de um disco homônimo com boas melodias pop, o grupo se mostrou aventureiro o suficiente para testar métodos rústicos de troca e compartilhamento musical, tornando-se mais próximo dos fãs.
Esse espírito desprendido foi determinante para que a banda agregasse mais instrumentos e parafernálias sonoras, afastando-se da maldição pós-Los Hermanos e criando maior proximidade com o modus operandi Tom Zé.
Mas, parafraseando Friedrich Novalis, a liberdade tem seus resquícios nocivos. Para cada boa composição como “Mordido” e “Despirocar” (duas canções que subvertem o pop com belas guitarras e vigor desenfreado), a banda se deixa desleixar com bobagens como “Líquido Preto” (quase-apologia aos refrigerantes de cola que remonta a “Nescafé”, mas sem citar logomarcas – pode ser Pepsi, Dolly, Coca…) e “Torcicolo”, o resultado mais chinfrim do que seria um diálogo improvável entre Ultraje a Rigor e Jovem Guarda.
As referências de Antes Que Tu Conte Outra são bem mais expandidas. Kumpinski é versátil o suficiente para entoar finais de versos como um Arnaldo Antunes em alguns momentos de “Vitta, Ian, Cassales”, para na seguinte “Lá em Casa Tá Pegando Fogo” arder no canto como se tivesse queimando “A Casa” vazia do poema de Vinícius de Moraes.
O ritmo associável ao Apanhador Só vai ser resgatado lá pela sétima canção, “Rota”, momento em que a banda aterrissa ainda livre após o voo de “Paraquedas”, compacto lançado no ano passado.
Nessa segunda metade do disco, o hibridismo formado por instrumentos improváveis como latas de filme, carrinhos de fricção, roda de skate, tigelas e fôrmas dão lugar a uma sonoridade mais próxima do rock, fortalecendo as melodias e deixando o ouvinte mais atento às letras – não sem pôr no meio batidas de teclados de brinquedo em “Reinação”, que faz uso dos termos do Hino Nacional na estética mais lo-fi possível; e nos barulhos sutis de “Nado”, boa composição autorreferencial que segue suditamente os preceitos do famigerado Pet Sounds. (No entanto, ao invés de animais, a banda alterna entre buzinas, walkie-talkies, liquidificador, fósforo, celular, portão…)
Se a intenção da banda gaúcha era se mostrar experimental, bom, temos que dizer que Antes Que Tu Conte Outra é um êxito. Mas, junto a esse êxito, encontramos perdições tanto nas letras, como na fuzarca sonora – que merece mais elogios que desavenças. Há bons momentos narrativos como “Despirocar” e “Nado”, mas o disco flerta com pieguices (“Cartão Postal”, “Líquido Preto”) que, em alguns momentos, nos faz pensar que a banda necessita do bobo – quando ela mesma sabe que isso é desnecessário. Falta ajustar melhor a vestimenta anti-pop (quem sabe após uma parceira com Tom Zé?).
Assim como a liberdade de Novalis, o experimento é sempre visto com bons olhos, mas carrega suas coisas ruins.
O Apanhador Só pode ser um bom respiro nessa contaminação de mesmice que infecta parte da nova geração MPB/rock brasileira. Diz seguir adiante ‘sem que eu possa controlar’ em “Rota”. No entanto, andanças por rumos inovadores exigem, sim, perspicácia artística para chegar ao prestígio.
Arriscando e tropeçando bastante, ainda é bom saber que a banda prefere seguir o percalço do improvável.
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A seguir, ouça Antes Que Tu Conte Outra, do Apanhador Só, na íntegra:
Melhores Faixas: “Mordido”, “Despirocar”, “Nado”.
