April 24th, 11:46am April 24th, 11:46am Tiago FerreiraEditor do Na Mira desde 2010 – que, além de site, também é canal do YouTube e Embaixador Spotify. Já trabalhei como redator de comunicação interna, produtor de conteúdo da B2W (Americanas, Submarino e afins) e repórter de entretenimento, ciência e tecnologia no Vix.com. Também sou colaborador eventual da Revista da Cultura (da Livraria Cultura).

Antes do segundo show em São Paulo, boa parte dos fãs já esperava o que estava por vir: um setlist com mais de 20 músicas, dois encores e uma sequência que alterna clássicos e canções marcantes dos 9 discos de estúdio do Radiohead – quer dizer, 8, porque Pablo Honey (1993) acabou ficando de fora da conta.

Pois é, eles não tocaram “Creep”. Não tocaram “Optimistic” (de Kid A), não tocaram a especulada “Black Star” (The Bends), nem “True Love Waits” (A Moon Shaped Pool), que foi apresentada em voz e violão por Thom Yorke no show do Rio de Janeiro, dois dias antes.

Tudo isso já era esperado. O que eu realmente não sabia era como me sentir vendo a banda pela primeira vez (não fui ao show de 2009, no Jockey Club).

Diferente de boa parte do público, que ocupava as pistas, assisti na arquibancada leste – uma posição que se revelou privilegiada diante de falhas que comprometeram a experiência de muita gente, como os telões erráticos, os andaimes centrais atrapalhando a visão e o som baixo na pista comum (o Floga-se fez uma resenha sob essa perspectiva).

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Radiohead domina o público

Quem esperava ouvir os clássicos da banda, talvez tenha se desapontado. “Paranoid Android”, por exemplo, só apareceu nos minutos finais da apresentação e digo a vocês: nem foi uma versão assim tão convincente.

Mas até aí o público já estava ganho.

Mesmo diante dos contratempos, a impressão era de que a presença de Thom Yorke, Jonny e Colin Greenwood, Ed O’Brien e Phil Selway significava algo mágico.

Thom emendou alguns ob-riga-do’s em português, mas não se desembestou a falar muito. A comunicação se dava por meio das músicas e, por mais que a teoria associe identificação com quantidade de reproduções, a coisa não funciona bem assim com o Radiohead.

“Karma Police” pode ter feito falta para alguns daqueles milhares de corações despedaçados, mas testemunhei choros em “No Surprises”, ouvi diversos comentários eufóricos pela execução de “Weird Fishes” e imagino quantos fãs deveriam estar num estado de catarse coletiva quando ouviram “2 + 2 = 5” após um desencontro nos riffs iniciais (eu mesmo não prestei atenção, porque era um deles).

Radiohead desperta sensações distintas em seus fãs. Eu mesmo passei a gostar da banda a partir de In Rainbows (2007), após longas batalhas auditivas de The Bends (1995) e OK Computer (1997). A partir de The King of Limbs (2011), a entrega foi total – depois de muita insistência, claro – e juntei sem pestanejar ao grupo dos séquitos da banda, reprocessando continuamente Kid A (2000) e Hail to The Thief (2003), dois dos meus preferidos da banda (comentei a discografia inteira do Radiohead aqui).

No show de domingo, percebi que a relação que construí com a banda me trouxe outra perspectiva de show. Fiquei maluco com a performance de “Idioteque” e, caralho, que coisa fenomenal tornou-se “Lotus Flower” ao vivo. Foi o momento em que entendi cada passo milimetrizado da dancinha do Thom. Só não passei vergonha porque ninguém tava me olhando naquela hora…

Clássicos transfigurados

Realmente o Radiohead surpreendeu quando mostrou algumas canções tarimbadas, mas de uma forma diferente – mais subversiva, talvez, algo que uma banda com mais de 30 anos de estrada pode se permitir fazer.

“Everything in It’s Right Place” foi absolutamente desconstruída, com efeitos tortos e reverbs vocais que a deixaram desajustada, como se tivesse sido remixada por Oneohtrix Point Never.

“My Iron Lung” saiu tão vertiginosa, que as paradinhas dos riffs de Jonny pareciam manter o controle cardíaco dos espectadores.

Outra que surpreendeu na safra de guitar-songs foi “Bodysnatchers”. O alto volume das guitarras fez com que a voz de Thom soasse ainda mais ininteligível, uma característica que passou a ser percebida como algo sofisticado.

Meu maior receio em relação ao show estava na execução de suas músicas mais melancólicas. Sabia que ele começaria com “Daydreaming” e continuei me sentindo fora do círculo quando veio “Ful Stop” como emenda – dois dos destaques do disco mais recente da banda, A Moon Shaped Pool.

Com a sequência de “15 Step” e “Myxomatosis”, as coisas realmente fizeram sentido: o Radiohead estava conectando-se a passos lentos. Foi o despejo emocional da própria banda, antes, para que ela despertasse o despejo emocional coletivo da maioria dos que estavam ali.

A sensação é de muitas, muitas ausências mesmo. Eu queria “Where I End and You Begin”, “Electioneering”, “Videotape”… Queria “Just”, “Burn the Witch”, “Jigsaw Falling into Place”… Mas não se pode negar que a seleção das músicas era de alto padrão, superada por uma apresentação poderosa, capaz de preencher e extrair sensações indizíveis.

O que aconteceu depois, ainda não sei. Mas, faço questão de levantar o coro: FODA-SE CREEP!

Leia também: Toda a discografia do Radiohead comentada e reavaliada

Tracklist do show:

01. Daydreaming 02. Ful Stop 03. 15 Step 04. Myxomatosis 05. You And Whose Army? 06. All I Need 07. Pyramid Song 08. Everything In It’s Right Place 09. Let Down 10. Bloom 11. The Numbers 12. My Iron Lung 13. The Gloaming 14. No Surprises 15. Weird Fishes/Arpeggi 16. 2 + 2 = 5

17. Idioteque

BIS 1 18. Exit Music (For A Film) 19. Nude 20. Identikit 21. There There 22. Lotus Flower

23. Bodysnatchers

BIS 2 24. Present Tense 25. Paranoid Android

26. Fake Plastic Trees

Foto: Celso Tavares/G1