Há um tempo atrás, o último público que pararia para ouvir alguma música de rap brasileiro, principalmente Racionais, era o feminino. Não sem razão. Muitas das letras que falavam sobre as mulheres eram depreciativas e geralmente colocavam-nas como protagonistas de um mundo movido a interesses e desejos sexuais. Ouça “Mulheres Vulgares”, do Racionais, e você saberá do que estou falando.

Do mesmo modo, os ‘playboys’, principais alvos das rimas flamejantes de Mano Brown e sua legião, eram os principais inspiradores das letras incisivas que caracterizaram os primeiros álbuns do mais conhecido grupo de rap brasileiro (e um dos mais importantes).

Entretanto, parece que Brown quer fazer as pazes com seus antigos ‘rivais’. Recentemente, ele vem fazendo parte de um projeto em parceria com o também rapper Don Pixote para tocar em casas noturnas de São Paulo voltadas ao público de classe média alta. Quem informa é o site Catraca Livre.

Na maioria destes shows, a entrada para as mulheres é de graça.

Em entrevista à Rolling Stone no final do ano passado, Brown já havia afirmado que vem mudando sua abordagem crítica e sua postura no rap brasileiro. Se antes as mulheres não passavam de interesseiras em suas primeiras canções, hoje elas já se tornaram motivo de reverência positiva, como mostrou a polêmica faixa “Mulher Elétrica”.

O rap brasileiro passa por uma fase de transformação muito interessante. A nova safra de músicos vem debatendo outras ideias em suas rimas e explorando outros ritmos musicais nas batidas. Emicida, Parteum, Kamau e Rincon Sapiência ilustram bem este novo cenário.

As últimas músicas gravadas pelo Racionais vêm acompanhando este processo de mudança. Não que eles estejam se adaptando às novas necessidades mercadológicas do gênero.

O que fica evidente é que todos os integrantes amadureceram desde que iniciaram no rap, por volta de 1986. E todas essas ‘novas ideias’ estão aparecendo em novas canções. Sinais de que os tempos mudam e de que Bob Dylan estava mais certo do que nunca.