Existe uma diferença pouco discutível entre a forma de compor de Chico Science e Jorge DuPeixe. O antigo líder do Nação Zumbi, que faleceu em 1998, era dotado de tônica que reprocessava embolada, ciranda e hip hop. DuPeixe, por outro lado, é mais incisivo, direto, joga uma massa sonora por meio do timbre com poder de fazer com que um verso críptico seja entoado de forma popular.

Crítica: Nação Zumbi | Nação Zumbi (2014)

Resumindo, é como se DuPeixe soasse tal qual riffs cavalares de guitarra, e Chico, a vocalização de picapes prontas para impressionar, como o turntablism (pense num DJ Shadow).

Essas duas características de liderança separam a banda pernambucana da fase Da Lama ao Caos (1994) e Afrociberdelia (1996) do que foi feito de Rádio S.Amb.A (2000) em diante.

Lidar com isso foi o teste necessário para que DuPeixe mantivesse o NZ no alto escalão do pop/rock nacional, e essa abertura estética é um mérito muito valioso que se deve a ele.

Portanto, subir para tocar canções como “Banditismo Por Uma Questão de Classe” ou “Macô” nos palcos do Cine Joia, em São Paulo, não soa incômodo. É sincero quando diz “Chico vive”, entregando-se e ultrapassando os difíceis entraves da linguagem eloquente do antigo parceiro de banda.

Créditos: Beatriz Silva/Na Mira do Groove

Geograficamente pequeno demais para a potência do show do NZ, o Cine Joia abrigou um público que se dividia nos pormenores. Nem todos podem saber de cabo a rabo as letras do recente disco homônimo, de 2014, mas não se pode dizer que a recepção de “Cicatriz” e ‘Foi de Amor” não foram aclamadas. A conexão da banda foi certeira ao começar com “Monólogo ao Pé do Ouvido”, do primeiro disco da banda. A celebração aos mestres, de cara, deixou clara a mensagem de que o NZ não focaria apenas no repertório de seus últimos discos.

O Nação Zumbi, famoso pro arrebatar as pulsações sanguíneas com seu som fortemente percussivo, está invadindo aquele canto do cérebro responsável pelo sentimentalismo

Este balanço deu mais energia ao show, mas também provou o domínio dos integrantes na forma de apresentá-los. Em “Maracatu Atômico”, eles poderiam deixar que a plateia conduzisse numa boa as pontes musicais. Do repertório composto por DuPeixe, “Quando a Maré Encher” e “Blunt of Judah” carregam peso semelhante de catarse.

Com um repertório tão vasto e tão funcional em apresentações, o Nação Zumbi estabelece um pacto subjetivo com o público. Eles têm os hits e os fornecem com vigor, mas também têm um novo trabalho a apresentar. Nesse caso, a característica de Jorge DuPeixe está a seu favor: suas canções são mais cantaroláveis que as de Chico, por isso “Bala Perdida” e “Defeito Perfeito” cativaram com os efeitos eletronizados da guitarra de Lúcio Maia – uma atração à parte, mostrando que somou à influência de Pete Townshend e Jimi Hendrix o domínio das técnicas de distorção muito caras ao rock dos anos 1980. Ficou evidente que a presença de palco dele foi melhorada após o desenvolvimento de projetos paralelos, como o ‘laboratorial’ Maquinado.

Ainda sobre o repertório de Nação Zumbi, foi convincente a atitude de cantar “A Melhor Hora da Praia” sem backing feminino. No disco, ela tem suporte de Marisa Monte. Nessa madrugada de quinta-feira, que DuPeixe assumiu ser a estreia da canção nos palcos brasileiros, ela foi favorecida pela clarividência sonora. Seu clima pediu o coro, e ele foi bem respondido – ainda que, a meu ver, o NZ poderia se beneficiar se trouxesse mais elementos acústicos, como o violão e o violino, que a tornaram tão bela no disco.

Além de “A Melhor Hora da Praia”, a reação do público para “Um Sonho” foi bastante positiva, o que comprova o seguinte: o Nação Zumbi, famoso pro arrebatar as pulsações sanguíneas com seu som fortemente percussivo, está invadindo aquele canto do cérebro responsável pelo sentimentalismo. Na vibração musical dos refrãos calorosos, também há espaço para a auto-análise sentimental.

O elo entre Chico-DuPeixe não pode ser rompido, mas se mostra cada vez mais distante, e isso só tem beneficiado o NZ.