Muita coisa mudou desde que criei o Na Mira em 2010. Antes das redes sociais redefinirem a forma com que interagimos com uma notícia, manter um blog ou site era mais ou menos como manter uma comunidade. Você postava sobre alguma música ou disco e invariavelmente alguém que gostava de ler ou se informar sobre música chegava na sua página.
Orkut e MySpace estavam em alta ainda, mas não eram boas ferramentas para compartilhar texto de um site.
O Twitter, por outro lado, permitiu que esse caminho fosse encurtado: usuários te seguiam por lá e, a partir de retweets, iam espalhando o seu conteúdo.
No começo, o Facebook permitia entrar em contato com diversas pessoas de preferências não necessariamente ligadas à música. As constantes atualizações algorítmicas, porém, fizeram com que somente as pessoas que têm alguma predisposição para o seu conteúdo chegassem até ele. Aí, a coisa foi se tornando mais específica: ao limitar cada vez mais o alcance de suas postagens, somente as pessoas que tivessem alguma predisposição com o assunto viriam o que você posta.
Portanto, a não ser que você fale de bandas ou artistas que as pessoas estejam discutindo ou tenham revelado algum tipo de interesse, dificilmente dá pra expandir sua audiência falando, por exemplo, sobre sons alternativos da Normândia. Se o algoritmo não entende, dificilmente levará a uma quantidade extensa de pessoas – a não ser, claro, que você invista em campanhas do Facebook, que mesmo assim podem não ser tão efetivas.
Concluindo: o Facebook mudou a forma com que as pessoas interagem com o conteúdo musical.
Redes sociais e plataformas digitais
Em um trabalho de pós-graduação, quis ir mais além. Com a chegada do Spotify e, paralelamente, a solidificação de outros serviços de streaming com propósitos variados, como BandCamp, SoundCloud, Apple Music e afins, a interação com o conteúdo musical deveria mudar, certo?
Como o Na Mira já está inserido dentro dessa comunidade de blogueiros musicais há um tempo, decidi (com colegas) perguntar a alguns deles se realmente houve essa mudança e como ela se deu.
O trabalho, de minha autoria ao lado dos colegas Jean Paz e Zillah Amorim, foi publicado no site da Universidade Anhembi Morumbi.
Em relação ao streaming, o primeiro grande acontecimento foi possibilitar as incorporações de música dentro do site. Por exemplo, ao falar de um clipe ou música, você já colocava a incorporação do YouTube, fazendo com que o usuário permanecesse mais tempo dentro da página.
Experiência pessoal
Quando eu comecei com o Na Mira, essa premissa foi importante – na verdade, foi exatamente por essa possibilidade que quis manter um blog de música, para fazer dele um canal interativo, de aproximação com o que eu estava descobrindo/ouvindo.
A predominância do Facebook, por outro lado, foi tornando o acesso às informações musicais mais burocráticas. Dentro da rede social, fica difícil sair para as páginas externas, principalmente quando se usa um smartphone – em que as pessoas exigem acessos rápidos.
Ou seja, se entrar em uma página significa ter que esperar ela rodar, perde-se a chance de ter um usuário dentro do seu site.
Por isso a predominância do smartphone também é um precedente importante. No Na Mira, por exemplo, tive que dedicar um tempão para programar o “Instant Articles”, que permite que ele seja lido dentro do Facebook, sem fazer com que o usuário perca tempo acessando. Ele tem alguns bugs em integrar ao Google Analytics, mas isso é um assunto que prefiro detalhar em outra ocasião. (Outro detalhe: instale um plugin AMP, para que o Google rode mais rápido as buscas relacionadas ao seu site.)
Dito isso, blogs musicais tiveram que se adaptar à predominância das redes sociais. Portanto, não basta um site e um perfil no Facebook e no Twitter.
Dos editores de site com quem conversei, dois se destacam por proliferar sua influência nas redes sociais, de diferentes formas: o “Zona Punk”, por exemplo, tem perfis em Facebook, Twitter, Instagram, Google Plus e até mesmo Spotify, onde publica playlists que têm a ver com o conteúdo do site; por outro lado Marcelo Costa, do “Scream & Yell”, expande sua influência nas redes de forma mais pessoal, variando assuntos (indo da cultura pop aos memes de política) e testando as ferramentas de um jeito mais personalista (algo que o “Floga-se”zap’ também faz, principalmente no Twitter).
O tipo de linguagem desenvolvida por Marcelo faz mais sentido quando se compara a abordagem de blogueiros musicais com blogueiros de outros nichos. Peguemos como exemplo os youtubers de games: eles conversam com a sua audiência como se estivesse mais próximo das pessoas, seja em formato gameplay ou simplesmente comentando algum lançamento de jogo. O mesmo pode-se dizer das videomakers de maquiagem: elas conversam numa linguagem simples e tornam-se grandes influenciadoras por unir essa capacidade de diálogo com a expertise no tema.
A individualidade é um aspecto importante para se tornar um influenciador e, dos estudos de caso que analisamos, Marcelo é o que mais se aproxima disso dos editores de sites musicais.
Tá, mas o que o streaming tem a ver com isso?
Ora, se existem plataformas que facilitam o acesso à reprodução da música, como a produção de conteúdo musical não seria afetada? Isso não é algo lógico?
Para alguns blogueiros com quem conversei, não. Humberto Finatti, do “Zap’N Roll”, mal utiliza as redes sociais, muito menos os serviços de streaming. Nesse sentido, Fernando Augusto Lopes, do “Floga-se”, diz que utiliza as incorporações do YouTube e do BandCamp por serem serviços gratuitos, mas se mantém avesso às políticas do streaming pago – principalmente por conta do repasse dos direitos autorais.
O “Poeira Zine”, de Bento Araújo, possui perfis em diversas plataformas, mas as utiliza mais como branding do produto final que trabalha (revista e podcast) do que como extensão da página. Afinal, com tantas redes, presença é importante.
Talvez seja ainda muito cedo falar sobre essa mudança que o streaming impôs aos produtores de conteúdo. Uma coisa não pode ser ignorada: milhões de pessoas usam Spotify, Deezer e Apple Music. YouTube, então, nem se fala: é a segunda plataforma mais utilizada em todo o mundo como buscador.
As playlists, os programas de rádio e o conteúdo interativo dessas plataformas têm influenciado a forma com que as pessoas ouvem e chegam às músicas. Existe uma curadoria profissional dentro dessas plataformas interligadas ao uso de algoritmos aprimorados. Assim, não é preciso ler um texto gigante para ouvir Cardi B, por exemplo. A música chega até essas pessoas por recomendações das próprias plataformas.
O que acontece é que os blogs e sites musicais ainda têm funções importantíssimas. São eles que contextualizam essa enxurrada de artistas interessantes, que norteiam discussões musicais, que contestam os rumos que a música analógica e digital está tomando, que interpretam tudo isso… Como interligar essa curadoria independente à música digital? Essa integração é necessária? Vai fazer com que mais pessoas se informem sobre música? Será que eles terão que se reinventar durante esse processo? De que forma?
A discussão é válida e importante, porque envolve vários agentes: público, plataformas, músicos, crítica musical, editores… Há um longo caminho a percorrer sobre esse assunto.
