
Que São Paulo mostrou neste ano que está com pulso firme para a música, isso é incontestável. Do samba conceitual de Romulo Fróes ao afro-beat implacável do Bixiga 70, inúmeros gêneros musicais estão surgindo como nuvens brancas passageiras que dão trégua à fumaceira cinzenta.
As faixas do Choramaria são curtas, uma efeméride que talvez seja reflexo do cansaço que uma cidade tão densa como São Paulo proporciona
Lembrar de uma cidade metropolitana como São Paulo é lembrar do cotidiano. Ele pode não ser dos melhores, mas tem tudo para ficar melhor. Talvez essa tenha sido a pretensão do trio Luis Crepaldi (bateria e baixo), Rafael Otoni (vocal e guitarra) e Rafael Sola (teclado, kazoo, gaita e guitarra), que forma o Choramaria.
Eles definem o som deles como rock/blues, mas conseguem se desprender do gênero de raiz norte-americana para injetar um pouco mais de MPB. Por exemplo, a faixa “Que Que Tem o Corcel?” é pontuado por uma escala blueseira, mas se deixa levar por riffs mais esvoaçantes que podem puxar alguma referencia da psicodelia nordestina, por exemplo.
As interjeições vocais lembram algum trabalho do Jumbo Elektro, mas o Choramaria parece ter preferência por identificar-se com o cidadão que está ouvindo sua música no mp3 do que criar um clima festeiro. “Mas lá vem a mesma história/Começar do mesmo jeito/Eu tento disfarçar/Mas não tem jeito”, canta Rafael Otoni em “Até Que Olhando Assim”, faixa que representa o dia mais odiado por 9 entre 10 pessoas: a segunda-feira.
Essa procura por identificação encontra sentido quando se analisa o conceito do grupo: eles lançaram pela internet um EP com oito faixas, sendo que cada uma delas é destinada para um dia da semana. Por que 8, então? – você me pergunta. É que há uma canção chamada “Feriados, Recessos e Dias Santos”, que inclusive abre o EP. E as outras, cada uma representa um dia da semana.
As faixas são curtas, uma efeméride que talvez seja reflexo do cansaço que uma cidade tão densa como São Paulo proporciona. Em “Quarta que Vem” o grupo reclama do trânsito em apenas um verso; “Eu Não Sei Se Preciso Explicar” resume a quinta-feira em riffs urgentes para falar brevemente que não é necessário se prender a uma paixão; e todos vão concordar com o grupo quando ouvir “Será que Sou Só Eu?” (domingo): “Eu nunca consegui me entender bem com os domingos/Que sempre são bem vindos/Mas me deixam antes da hora”.
Ouça abaixo, na íntegra, o EP homônimo do Choramaria:
