“This is America”, novo clipe de Childish Gambino, atingiu a incrível marca de 10 milhões de visualizações no YouTube em 24 horas por três motivos:
1) por ser chocante ao retratar a violência tal qual ela é;
2) por ser uma afronta direta ao racismo deliberado dos Estados Unidos, potencializado pelo descaso do atual presidente Donald Trump, que praticamente ignorou o tom discriminatório das passeatas de Charlotesville, exemplo de uma espécie de ku klux klan do século XXI;
E, talvez o menos óbvio, 3) a força de expressão da arte negra, que encontra ecos em outros tipos de linguagem e formato com o mesmo objetivo: escancarar a opressão e, ao mesmo tempo, resistir a ela.
Violência explícita
Donald Glover, o cara por trás do projeto Childish Gambino, decidiu ser bem explícito: não teve receio em pegar o revólver e dar vários tiros em cantores e dançarinos que representam a força de expressão negra nas artes.
É consenso que não se trata de novidade: desde a segunda metade dos anos 1980, o hip hop adota esse tipo de ‘papo reto‘ para mostrar a cara ao enfrentar o establishment. Foi assim que nasceu “Fuck the Police”, do N.W.A., e como Chuck D fez história como um dos mais prolíficos cantores de seu tempo à frente do Public Enemy.
Mas, em tempos em que esse tipo de discurso chega a ser óbvio demais no gênero, os cantores têm desenvolvido novos tipos de narrativa para este fim. Quando Run the Jewels lançou “Close Your Eyes (And Count to Fuck)”, encapsulou a indignação coletiva diante do assassinato de jovens negros por policiais brancos.
Para falar de violência explícita, o vídeo não poderia usar uma linguagem diferente, e colocou um jovem e um policial brigando como se estivessem em iguais situações de escolha. Ao assistir, porém, tanto a perseguição quanto a opressão do que parece ser um simples embate aparecem de forma sutil.
De um jeito diferente – mas igualmente sagaz – outro músico que tem abordado violência e racismo na América foi o rapper Kendrick Lamar.
Sua peça audiovisual mais impactante ainda é o clipe de “Alright”, imbuído de uma liberdade poética que põe em choque fantasia e vida real.
Assim como Donald Glover, Kendrick assume a primeira pessoa e surge flutuando pelas ruas de Compton, até que um policial idoso mira com o dedo indicador e simula um tiro no rapper.
Embora não se tenha a materialização de um revólver, a violência surge levemente como simbologia, como se aquele ato fosse a realização de um estado mental de um policial que, se pudesse, atiraria sem hesitar.
Música pop x Trump
Com Trump no poder tem surgido diferentes tipos de narrativa para abordar o preconceito na América. Isso porque os detratores não costumam esquecer que, se um presidente está no poder, é porque muitas pessoas votaram nele. Parece um clichê, mas o líder de uma nação diz muito sobre seu povo.
Esse embate social não é exclusivo do hip hop. Bandas como Arcade Fire, CocoRosie, Superchunk e, inclusive, compositoras do calibre de Fiona Apple e Carrie Brownstein têm ampliado o poder de mobilização contra o conservadorismo da América – trazendo até mesmo um novo questionamento: será que a música de protesto passou a ser uma commodity?
A discussão é importante, porque quando o discurso de protesto passa a ser praticamente adotado como um modelo padrão existe o risco de entrar numa escala industrial. É isso que se chama de kitsch: quando o que deveria ser uma expressão legítima passa a ter ecos de sentimentalismo excessivo, como se vê nas novelas brasileiras, por exemplo.
É comum que músicos usem o sarcasmo como tom de voz para protestar, e é aí que mora o perigo.
Os tiros, as danças e o tom seco de “This is America” são unidos pela voz do sarcasmo, mas a junção de elementos o diferencia das inúmeras canções anti-Trump.
Como bem pontuou uma análise do jornal The Guardian, também existe no clipe de Childish Gambino um direcionamento crítico ao performer negro, “dizendo que eles ainda são feitos para se sentirem como menestréis quando saem para performar sua música ‘negra’”, em referência à era dos blackfaces, prática racista de atores teatrais que pintavam seus rostos de preto e usavam uma personificação bizarra e exagerada para se referir à comunidade afrodescendente como um todo. (Sobre este assunto, é obrigatório assistir ao filme A Hora do Show, de Spike Lee.)
Blackface é exemplo de um preconceito generalizado que se tornou kitsch, mas, quando nos referimos a kitsch, inevitavelmente a estética artística está envolvida. Como pontuou o jornalista Dan Brooks, do New York Times, em análise de uma exposição de Banksy, “sarcasmo é o nosso kitsch“:
“A característica definidora de kitsch é que ele se prende ao nosso desejo de sentir que a arte foi bem-sucedida. Segue a fórmula da expressão significativa e explora nossa disposição para fabricar a sensação de significado. Como uma espécie de kitsch contemporâneo, o sarcasmo se aproveita de nossa prontidão para responder à sagacidade real. Também é mecânico e responde a uma fórmula. E o sarcasmo online agora é produzido industrialmente, graças às grandes quantidades de conteúdo que a mídia digital deve produzir a cada dia”.
Childish Gambino é kitsch?
O que diferencia “This is America” de uma exposição de Banksy é justamente a presença do autor. Não que o autor deva estar necessariamente presente num aspecto físico. Digamos que ele é a personificação do seu discurso, já que estamos falando de uma obra audiovisual em que Glover – ou Childish Gambino, se preferir – opta pela primeira pessoa.
Isso porque a expressão artística de Glover vai além da produção musical – ou seja, além de Childish Gambino. A premiada série Atlanta, da qual é criador e protagonista, não economiza tons sarcásticos ao abordar a dicotomia brancos e negros norte-americanos.
Esse choque não acontece de forma simplória. Em um episódio, por exemplo, um branco ricaço se glorifica de suas viagens por países de origem africana, enaltecendo suas riquezas culturais. Ele é casado com uma mulher negra, socialite, que pode garantir um bom emprego à namorada do protagonista.
Num desenrolar ainda mais complexo, a série Cara Gente Branca propõe um desafio: como conscientizar sobre a luta de um povo oprimido em uma sociedade – ali, fechada no microcosmo de uma universidade que, aparentemente, valoriza a mistura de raças – que não compreendeu a violência, usurpação e imposição à escravidão dos negros na América já na escola?
O principal ponto de atrito acontece quando dois garotos – um branco e um negro – brigam em uma festa e chega um policial. Adivinha quem foi enquadrado?
Todas essas narrativas reforçam o quão complicado é falar sobre racismo e violência na América. O grande problema é que estamos propensos a encarar “This is America”, “Alright”, A Hora do Show, Cara Gente Branca como se viessem apenas de um ‘grande funil’: negros falando de racismo.
Pela inevitável narrativa em primeira pessoa, é comum o fator emocional se confundir com o discurso crítico. E, muitas vezes, esse olhar se reduz àquilo que, você já aprendeu, se define como kitsch.
Não são as referências a Jim Crow e ao caso de Stephon Clark, mais um jovem negro assassinado por um policial, que fazem de “This is America” uma obra inferior ou superior. Mesmo porque as referências são bem extensas e, por mais que seja um ótimo exercício entender todas elas, vale lembrar que existe o risco da mensagem principal se perder nesses diversos fragmentos.
São inúmeros os elementos que legitimam a estética e a tonalidade crítica da nova música de Childish Gambino, uma canção tão forte quanto “Formation”. Vai muito além de preconceito, conservadorismo e descaso, temas já complexos demais para estarem associados a um ‘grande funil’.
A principal tônica de “This is America” é a genealogia da violência, que implica conhecer a história de forma crítica, para, então, interpretá-la de forma crítica.
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