Quando eu tinha 15 anos de idade, ouvia falar bastante de Planet Hemp, do início do Charlie Brown Jr., d’O Rappa. Nessa época, já tinha uma educação musical que vinha de Raimundos, Racionais e Martinho da Vila (eclético, não?). Portanto, nada mais natural do que estranhar quando vi perdido no meio da casa uma capa de CD preta com contornos alaranjados e o desenho de um caranguejo. Por acaso, um ente querido deixara esse CD lá em casa porque tinha feito um rolo com outro colega e meio que não gostou muito do disco.
Ouvi. Aqueles bumbos pulsantes em meio a uma trilha cinematográfica causou uma entropia enorme: jamais tinha escutado algo daquele tipo. Quando ouvi Chico Science pela primeira vez evocar os heróis “Zapatta, Sandino, Zumbi e Antônio Conselheiro”, fiquei meio atordoado e acabei desligando o player. “Não gostei”, devo ter dito.
O tempo foi passando e o disco ficou lá. Até que conheci um camarada que me abriu os olhos em relação à música, pouco menos de um ano depois do acontecido. Ele ovacionava Chico como o “último dos grandes músicos brasileiros”. Dei risada na hora, mas depois fiquei confuso. É que respeitava muito a opinião dele porque ele ser refinado, já formado, mais velho, cheio de argúcia.
E ouvi de novo. Passou a introdução e entrou “Banditismo Por Uma Questão de Classe”. Como a minha família é de origem nordestina, entendi a maioria dos jargões. É como se fosse uma mistura da tradição musical dos meus pais (que eu não gostava muito quando adolescente) junto com aquilo que eu mais curtia no rock: as guitarras sujas, aquele baixo de presença, a vociferação. E aí minha opinião foi mudando sobre o disco Da Lama ao Caos.
No colégio, tentava passar para todos os meus colegas o quão foda achava Chico Science. Sério, já ouvi argumentos de que era ruim, uma merda. Ficava puto, mas a audição do disco me elevava a um patamar superior – pelo menos, era o que eu achava.
Pouco tempo depois, um vizinho meu, percebendo que ouvia a todo momento em um volume considerável o primeiro disco de Chico Science, me chamou:
– Cara, sabia não que tu curtia o Chico. – Piro, gosto demais! – respondi – Então você vai gostar ainda mais do presente que vou te dar.
– Sério, o que é?
Foi um presente inesperado: o disco Afrociberdelia. Nem quis perder muito tempo agradecendo e já fui pro som ouvir. Achei diferente. “Ainda prefiro o Da Lama ao Caos“, lembro de ter dito.
Bom, essa estranheza se esvaiu bem mais rápido. Quando entrou “Etnia”, fiquei alvoroçado. Aí percebi a embolada, hip hop, capoeira, história do Brasil, arte, povo, guitarradas, ciranda: tudo isso estava intrínseco ao som de Chico Science & Nação Zumbi.
Tempos depois, achei a definição perfeita para o disco no livro Hibridismos Musicais de Chico Science & Nação Zumbi, do teórico Herom Vargas:
“A ficção científica dialoga com a realidade das músicas do grupo exatamente pela fusão criativa dos ritmos afro-americanos (brasileiros, latinos e norte-americanos) com os elementos contemporâneos da tecnologia e a fruição extática como sintoma de diversão”.
Fala se não é coisa de gênio?
No início de 2009, eu e o produtor de vídeos Gil Silva (que já produziu pro Na Mira do Groove vídeos com Kamau e MarginalS) fomos ao Recife, e não podíamos deixar de mergulhar e aprofundar ainda mais nessa imersão musical de Chico Science. Ouvimos a discografia inteira do Nação Zumbi a rodo e fomos até o Centro Antigo do Recife, em um dia de chuva, para tirar fotos com uma estátua branca de Chico Science (que você pode ver na imagem acima).
É sempre emocionante, pelo menos para mim, falar de Chico Science. Quando Da Lama ao Caos completou 15 anos em 2009, escrevi um texto imenso que contextualiza o disco e conta um pouco da história de como ele formou a Nação Zumbi e gravou um dos discos mais emblemáticos de toda a música brasileira (inclusive, republiquei aqui para a seção #Grandes Álbuns).
Acredito que foi um dos passos mais importantes que dei para, agora, me tornar um jornalista independente da área musical. Naquele momento, descobri como a música é importante para o ser humano, para a história do seu país, para a sociedade.
Portanto, hoje, dia em que se completa 15 anos da infeliz morte de Chico Science, só tenho a agradecer pela impulsão intelectual que seu som me proporcionou. É muito por conta de sua contribuição musical que percebi a importância da música.
Valeu por tudo, Chico. Mesmo. E descanse em paz!
