Gravadora: Concord
Data de Lançamento: 19 de janeiro de 2018

Disco da Semana: Chick Corea & Steve Gadd Band, Chinese Butterfly

Já tem mais de 40 anos que o pianista Chick Corea conhece o baterista Steve Gadd. Eles chegaram a tocar juntos no disco My Spanish Heart (1976), e desde então, cada um seguiu seus projetos.

Corea, muito conhecido por atuar na fase elétrica de Miles Davis e tomar a dianteira do fusion com o supergrupo Return to Forever nos anos 1970, gravou diversos projetos solo em piano, explorando novos caminhos líricos.

Gadd, por outro lado, chegou a tocar em grupos pop, como Steely Dan, Eric Clapton, Paul Simon, Paul McCartney e muitos outros. Ele também tem projetos em que é bandleader: Steve Gadd & Friends, Gadd Gang e a Steve Gadd Band, neste álbum complementada por feras como o guitarrista Lionel Loueke, o saxofonista Steve Wilson, o baixista Carlitos del Puerto e o percussionista Luisito Quintero.

O retorno dessa parceria não é bem uma surpresa. Antes de lançar o disco, Chick Corea e Steve Gadd reuniram a banda completa para uma turnê em várias partes do mundo – inclusive no Brasil, onde se apresentaram em outubro de 2017 em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Chinese Butterfly: álbum

Em comum, tanto Corea quanto Gadd têm amplos conhecimentos em vertentes que englobam jazz, pop e música clássica.

Em Chinese Butterfly, porém, o ponto em comum de técnicas tão sublimes é o groove. Antes de Gadd nos brindar com uma vibração avassaladora nas baquetas em “Like I Was Sayin’”, por exemplo, há uma rígida construção de um balanço pendente, ora reflexivo, ora dançante. Esse pêndulo sonoro é marca da integração entre Loueke e Corea, dois mestres em fazer da eletricidade musical um aglomerado de expressões que variam da melancolia à euforia.

Mesmo após mais de 40 anos sem colaborações, Corea e Gadd mostram-se afiadíssimos no diálogo, e isso já é logo percebido na primeira faixa, “Chick’s Chums”, onde o funk à lá Herbie Hancock vai diretamente de encontro com a música latina.

Ah, e por falar em latinidades, Chinese Butterfly bebe bastante da música de nossos trópicos. “Serenity”, por exemplo, lembra os trabalhos instrumentais de Milton (Raça) (1976), da época em que o mineiro conquistou o mundo (e Wayne Shorter) com sua voz.

É esse clima pacifista que também reina em “Wake-Up Call”, com a flauta de Wilson e a guitarra oca de Loueke contornando as percussões de Quintero, que ora abraça o silêncio. De certa forma, o tema lembra as elucubrações dos discos de Airto Moreira, com quem Corea formou o Return to Forever – que, aqui, é homenageado na faixa de mesmo nome, com vocais de Philip Bailey.

Chick Corea e Steve Gadd: Parceiros em sintonia

Chinese Butterfly é um disco duplo que, apesar das referências bem demarcadas, também se abre para referências da música africana e ibérica.

“A Spanish Song”, por exemplo, é imbuído daquele poder da chacona espanhola de fazer as pessoas mexerem os quadris. É ela que fecha o disco 1 com um mistério escondido pelo groove – afinal, ela desperta uma resposta imediata, mas uma análise mais distanciada mostra que ela tem uma magia secreta.

Já na última faixa do disco 2, “Gadd-zooks”, o mistério se expande a ponto de criar uma fricção entre as influências do Ocidente e do Oriente. Esse estágio musical remete ao final da época fusion, quando muitos críticos e parte do público ficaram sem entender esse rumo mais distanciado de guitarras e baixo elétricos. Aqui, Corea exerce muito bem o papel de instigador, enquanto Gadd expande os horizontes com seu espaçamento musical que poucos reconheceriam como o trabalho de um virtuose.

De fato, a maior contribuição de Chinese Butterfly é deixar as melodias flutuarem, enquanto diversas cenas estéticas se entrecruzam no imenso repertório de Chick Corea e Steve Gadd, dois parceiros que continuam em sintonia mesmo após ficarem sem tocar juntos por um bom tempo.

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