No início dos anos 1960, gravadoras como Atlantic e Stax davam os primeiros passos para que o soul se distinguisse do rock’n roll. A Stax só veio a ganhar grande reconhecimento em 1962, com o hit “Green Onions”, de Booker T. & the MGs.

Entretanto, para se chegar a esse som, os irmãos Estelle Axton e Jim Stewart, proprietários da futura Stax, contavam com um mix de músicos que escondiam a segregação racial que tomava conta da cidade de Memphis: gente branca como Steve Cropper, os próprios Estelle e Jim, Duck Dunn e Wayne Jackson compartilhavam conhecimentos musicais com Booker T. Jones, Hank Ballard, Otis Redding futuramente… exemplos de como a integração racial era possível, até mesmo na música.

Neste contexto, surgiu o The Royal Spades, um grupo só de caras brancos que tinha um balanço negro. Com Charles ‘Packy’ Axton tomando a liderança como sax tenor (muito por influência de sua mãe Estelle, dona da Stax), Terry Johnson, Smoochy Smith, Don Nix, Cropper, Dunn e Jackson gravaram uma jam em 1960 que mostraria os primeiros passos para que a Stax se consolidasse no mercado fonográfico. A canção é “Last Night”, um rhytm’n blues instrumental carregado por intercalações nos instrumentos de sopro, meio boogie-woogie, meio doo-bop, repleto de gingado.

Só que, quando ela foi lançada, Estelle aconselhou o grupo a mudar de nome para Mar-Keys, na busca de algo mercadologicamente mais adequado.

Quando “Last Night” foi gravada, ninguém sabia ao certo quem estava nos estúdios. Cropper participou dessa jam, mas não como guitarrista – e, sim, tocando órgão. A guitarra contínua que dá um ótimo suporte ao órgão só seria aceita com o estrondo de Booker T. and the MGs dois anos depois.

No clássico livro Sweet Soul Music, o jornalista Peter Guralnick destacou a importância da canção: “Com ‘Last Night’, os integrantes do antigo Royal Spades realizaram uma ambição que qualquer banda de garagem no mundo, inclusive os Rolling Stones, sempre sonharam: um hit R&B autêntico”.