Cadu Tenório não pára. E, se não é sozinho lançando discos desafiadores como CassetesVozes, é ao lado de parceiros, como Márcio Bulk, que segue experimentando com colagens, inserções, loopings, drones e outros efeitos sônicos.

O lançamento da vez é o EP Banquete, que reúne alguns dos mais relevantes artistas da nova cena musical do Rio de Janeiro: Alice Caymmi, Bruno Cosentino, César Lacerda, Lívia Nestrovski, Michele Leal e Rafael Rocha.

A grande inspiração das quatro faixas do EP é o formato samba-canção. Por se tratar de Tenório, claro, o formato é totalmente transfigurado.

Em “Café Expresso”, o ouvinte fica atônito com o ar misterioso arremessado pelos processamentos ruidosos de Cadu, até que a voz de Michele Leal entra sugerindo algo místico, perdido no tempo: ‘Eu também ficarei para trás‘.

“Estela” é um pouco mais fiel ao formato canção, ainda que o dueto Alice Caymmi e Bruno Cosentino faça mais sentido num dreampop caleidoscópico que qualquer outra associação à música popular brasileira.

“Electric Fish” é um spoken-word dos mais obscuros. A voz de César Lacerda sob violinos, sintetizadores e objetos amplificados, além do violão de Cosentino, lembram bastante a no-wave (ainda mais por conta da letra em inglês).

E, pra fechar, a voz fulgurante de Lívia Nestrovski segue numa via sacra, em uma “melodia que derrete e explode na espessura rugosa e inquieta da canção”, como diz o release.

O release esclarece um pouco a proposta de Banquete:

‘Banquete’ é um disco bastante árduo, com poética e sonoridade forte e dolorosa, expressando as nervuras de um mundo cuja materialidade é feita de opacidades, sombras e lacunas, além de uma miríade de ruídos que soam como ensaios de despersonalização radical. Entretanto, esses “ensaios” não se resumem a apenas acompanhar a temática das canções. Indo além, Tenório utiliza de suas ferramentas para reiterar o seu posto de coautor do álbum, tornando-se figura decisiva para a sua significação estética. Isso se dá por conta da relação intencionalmente conflituosa entre a dimensão sonora de seus arranjos e as estruturas harmônica e melódica das canções, o que gera uma tensão entre a materialidade sonora — feita de atritos, justaposições, cortes abruptos e acelerações repentinas — e as formas relativamente coesas e inteligíveis da palavra cantada. (…)

Com ‘Banquete’, Márcio Bulk se revela um letrista sofisticado, fino e de poética densa que, ao se unir à sonoridade sombria e engenhosa de Cadu Tenório, produziu um pequeno grande disco capaz de dialogar seriamente com a estética musical mais inventiva do nosso tempo, sem abandonar a linguagem da canção e suas singularidades.

A seguir, ouça o EP Banquete, de Cadu Tenório e Márcio Bulk, na íntegra. Para fazer o download, clique aqui: