Banda paraibana lançou 5º disco em projeto com o citarista/filósofo Alberto Marsicano e o fotógrafo Augusto Pessoa; conheça e ouça

Gravadora: Nikita Music
Data de Lançamento: 1º semestre de 2012

Cabruêra é uma banda da Paraíba mas, antes de mais nada, já aviso que não tem muito a ver com manguebit, brega, forró, carimbó, maracatu ou outros gêneros regionais que no decorrer dos anos têm conquistado do cult ao mainstream.

Formada por Arthur Pessoa (voz, violão, escaleta), Pablo Ramires (bateria), Edy Gonzaga (baixo) e Leo Marinho (guitarra), estudantes da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em Campina Grande, a banda já tem 13 anos de estrada e lançou no primeiro semestre deste ano o 5º disco: Nordeste Oculto, com produção de Haley Guimarães (tecladista da banda Burro Morto).

O álbum é uma experiência que vai além das sonoridades nordestinas que fazem sucesso em outras regiões brasileiras.

Vórtex nordestino

Nordeste Oculto é mistério puro, filosofia, “vórtex magnético, chakra terrestre onde várias tradições magísticas se entrelaçam”, como enfatiza o citarista e filósofo Alberto Marsicano, que assina a direção artística do álbum e tornou-se a grande influência para os novos rumos musicais do Cabruêra.

A poesia do disco é jogada para várias frentes: a banda celebra o mar em “Beira Mar”, com uma introdução que refaz a sonoridade das ondas, enquanto cítara, guitarra e sanfona formam uma flutuação que dão à voz de Arthur Pessoa tamanha densidade, a ponto de acharmos que vem debaixo do mar.

Marsicano foi ao Haiti com dezenas de microfones para captar o barulho das ondas, gerando uma mistura de Luiz Gonzaga, Ravi Shankar (‘guru’ de George Harrison, de quem Marsicano foi discípulo), Paêbirú (disco raro de Zé Ramalho e Lula Cortês) e literatura de cordel: ‘Além de poeta sou marujo antigo/conheço galope na beira do mar‘.

Como a cítara – instrumento que foi trazido ao Brasil por Marsicano – se faz bastante presente no disco, é possível perceber como a música latino-americana se entrelaça bem com a música oriental. Tal entrelaçamento é intencional: Marsicano afirmou que tinha o objetivo de misturar o sotaque nordestino às influências célticas e orientais.

As múltiplas conexões do Cabruêra

E o Cabruêra faz essa espécie de ‘debut estético’ com a faixa-título do álbum, uma experiência sensorial que cria um ponto em comum entre Nordeste, Irlanda, Índia.

Em relação à música indiana, a banda aventura-se em “Aboio Indiano”, faixa em que Chico César se apropria da técnica vocal de lá, cujo crescendo acompanha a entrada dos instrumentos. Também participa desta faixa o músico paraibano Chico Correa.

Formando uma espécie de forró psicodélico, “Druidas do Agreste” te obriga a remeter a um curta-metragem onde um cavaleiro nordestino segue suas aventuras por sertão afora.

Já “Filhos do Vento” simula interferências no ar que respiramos com a sonoridade de escaletas. É uma faixa cirandeira, daquelas que lembram imagens de dançarinas com longos vestidos gingando com a música.

Por falar em imagens, Nordeste Oculto foi elaborado em conjunto com o trabalho fotográfico de Augusto Pessoa (irmão do vocalista Arthur), intitulado Nordeste Desvelado, que une “umbanda ao Padre Cícero, de Antônio Conselheiro aos ciganos, dos vaqueiros aboiadores aos índios e seus mágicos rituais”.

Complementa a obra o projeto Visagens Nordestinas, de Alberto Marsicano, com um texto que propõe uma nova estética artística que só poderia ser nordestina:

“Nordeste, vórtex magnético, chakra terrestre onde várias tradições magísticas se entrelaçam. O Nordeste oculto, o Nordeste abissal, o nordeste secreto, o Nordeste não mapeado pelo ardil cultural colonizador. Esse trabalho resgata uma tradição iniciática que resistindo séculos de inquisição, colonialismo, intolerância religiosa e demais tentativas de ‘demonizar’ a civilização nordestina, mantém-se solene e incólume geração pós geração”.

Pura filosofia.

Na verdade, o Nordeste por si só é uma metafísica, cuja amplitude nem mesmo os que lá habitam podem mensurar.

O que vale é buscar os muitos espaços não aproveitados nessa profundidade filosófica.

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Para fazer o download de Nordeste Oculto, visite o site Hominis Canidae.

Tracklist:

01 Jurema 02 Nordeste Oculto 03 Marujo Antigo 04 Beira Mar 05 Pena Dourada 06 Padre Cícero 07 Filhos do Vento 08 Druidas do Agreste 09 Chakras Terrestre

10 Aboio Indiano

Créditos da Imagem: Augusto Pessoa