No final do ano passado, tive a oportunidade de entrevistar o jornalista Toni C. acerca da biografia do rapper Sabotage, assassinado em janeiro de 2003 sob circunstâncias misteriosas até hoje. Para se ter uma ideia, até a lápide continha um erro crasso: constava que ele havia nascido em 13 de abril de 1973, quando o certo era 3 de abril.
Tal equívoco aconteceu, segundo Toni, por conta de uma entrevista que o rapper cedeu por telefone a um jornalista. A prova cabal está na Carteira de Identidade, que a família parece não ter entregado no momento do óbito. Ou seja, se não fosse o trabalho investigativo do biógrafo para vasculhar os documentos pessoais de Sabotage, até hoje estaríamos dando parabéns ao falecido no dia errado.
Como forma de lançamento, o biógrafo optou por destinar parte da verba para ajudar a família. Este foi um ato voluntário, porque ele não precisaria fazer isso. Afinal, foi labor do jornalista o interesse de ir atrás, desvendar documentos, conversar com centenas de pessoas, compilar todo o material, separar, reunir e escrever o produto final – no caso, o livro.
Ao biógrafo cabe o papel de investigar, vasculhar, ir mais a fundo sobre tal assunto. A informação não é um bem privado – é, antes, um direito público. E, por mais que Sabotage tenha um legado curto, ainda assim emociona legiões por sua contribuição cultural.
Nessas duas últimas semanas houve uma ameaça preocupante por conta de possíveis biografados. Roberto Carlos, que já havia censurado o jornalista Paulo César de Araújo por conta da biografia Roberto Carlos em Detalhes (2006), inédita ao público até hoje, juntou um time considerado de peso da tal ‘nata da MPB’ para a criação do grupo Procure Saber.
Estão com o ‘Rei’: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Milton Nascimento, Djavan e Erasmo Carlos. Eles defendem que a publicação de biografias necessita de autorização prévia do biografado, em um ato que se categoriza como censura prévia. Mais músicos aderiram à causa.
No Brasil, o biógrafo precisa encarar uma enxurrada de bur(r)ocracias para entregar um material relevante ao público
O argumento é defasado. Eles querem evitar que se publiquem informações sobre as quais eles discordem, o que viria a comprometer suas respectivas imagens.
Paula Lavigne, que me parece ser a tutora-marqueteira dessa aberração, expôs o que pensa para a Folha de S. Paulo: “Corremos o risco de estimular o aparecimento de biografias sensacionalistas, em um país em que a reparação pelo dano moral é ridícula”.
Como bem disse Fernando Lopes, do Floga-se, a justificativa da produtora resume-se a um imbróglio: “já que a Lei é ‘ruim’ pra punir abusos e oferecer indenizações, melhor cortar logo o problema pela raiz: antes da possibilidade de informar o que se considera errado ou injusto, proíbe-se a informação”.
Imagine se cada repórter tivesse que pedir autorização para o entrevistado para publicar uma informação, que é de interesse para toda a nação? Não se institucionaliza o que é de direito do povo na Constituição.
O advogado da Associação Nacional dos Editores de Livros, Gustavo Binenbojm, disse tudo: “É uma censura privada. O biografado vira o senhor da história, com monopólio da informação”.
Como tal problema já não fosse grande o suficiente, há outro entrave: a falta de estímulo para a pesquisa cultural. Lavigne citou algo elementar. Disse que o problema é a lucratividade (“Se alguém quiser escrever uma biografia e publicá-la na internet sem cobrar, tudo bem. O problema é lucrar com isso.”), citando que biógrafos ficam ‘milionários’. Só esqueceu-se de apontar exemplos disso. Creio que eles inexistem.
Para se ter uma ideia, o pesquisador, além de trabalhar com todo o material intelectual, ainda tem dificuldades de obter patrocínio. O caso de Omar Jubran chega a ser triste. Jubran, que reuniu praticamente toda a obra de Noel Rosa no espetacular box set de 14 CDs Noel Pela Primeira Vez (2000), lutou por mais de sete anos para conseguir lançar a obra que permeia 99% da produção musical de Ary Barroso. Conseguiu agora com o Museu da Imagem e do Som (MIS), mas ainda assim em um acordo tímido: serão comercializados apenas 2 mil unidades da caixa Ary Barroso – Brasil Brasileiro, que reúne 20 CDs com mais de 300 composições.
Tendo em vista que o pesquisador é o que menos lucra com o material que lança, seria profano achar que Jubran, um biólogo aposentado, vá ficar rico vendendo a obra de Ary Barroso – assim como não ficou ao dar luz à obra de Noel Rosa.
Pois é isso que pretende o grupo Procure Saber: institucionalizar os acontecimentos para ter controle histórico provocado por suas obras.
Mas, quando se fala em biografias, o assunto é mais espinhoso. Porque existe uma pessoa que estará conduzindo a obra do biografado. O que os artistas querem é tirar essa liberdade e, para evitar que sofram com possíveis ‘injustiças’ e má interpretação, preferem controlar para não ter o problema de reparações posteriores na Justiça.
Agora, me pergunto: o que seria da biografia de Timothy White sobre a vida de Bob Marley se dependesse puramente da aprovação de Rita Marley? Provavelmente ela pediria para incluir tal coisa, tirar aquilo. Em um caso ainda mais delicado: como Mike Barnes publicaria uma biografia de Captain Beefheart expondo sua obsessão por controle criativo e sua personalidade irascível em relação a outros membros da banda? Barnes não obteve autorização de Don Van Vliet, porque ele não queria nem saber. Estava recluso em um deserto, pintando, ignorando o espectro musical que, para ele, havia se dissipado desde a década de 1980. Não fosse o trabalho de Barnes, pouco se saberia da intensidade artística de um músico mais relevante do que muitos imaginam.
No Brasil, o biógrafo precisa encarar uma enxurrada de bur(r)ocracias para entregar um material relevante ao público. O escritor norte-americano Benjamin Moser, responsável pela biografia de Clarice Lispector, identificou tal barreira em carta aberta a Caetano: “Você sabe quão onerosos são os obstáculos à difusão da cultura brasileira dentro do próprio Brasil, sem falar do exterior (…) Aprendi o quanto ganham escritores, jornalistas e editores no Brasil, e quanto os seus empregos são inseguros, e como são amedrontados por ações jurídicas, como essas com que a Paula, tão bregamente, anda ameaçando”.
Quando Chico, Caetano, Roberto Carlos e companhia tentam impor controle sobre a informação que divulgam sobre sua arte e, consequentemente, sobre suas vidas, estão tirando do público o direito de saber sobre o artista que esteve presente na trajetória de suas vidas.
Eles podem encarar como bisbilhotice, mas a biografia tem um valor cultural importantíssimo: de registrar a História e o momento artístico de uma nação.
O que eles querem é categorizar a comercialização de biografias como um negócio.
A informação não pode ser controlada pelo artista, assim como ele controla (ou tenta controlar) seus direitos autorais. Eis um exemplo: no livro Verdade Tropical, Caetano Veloso faz questão de enfatizar que foi o criador do movimento Tropicália ao lado de Gilberto Gil, salientando que a contribuição das artes plásticas de Hélio Oiticica foi uma influência mais passiva que ativa. Noutras palavras, o pintor não calculou que haveria uma efusão artística no campo musical por conta de uma obra sua.
Não que Caetano Veloso possa estar mentindo, mas como atestar a veracidade de tal declaração se não temos um profissional para apurar, pesquisar, contestar e esclarecer tal informação? Como encarar como documento histórico um livro infectado pela arrogância e autoconsagração de um artista que tem o ego do tamanho do Brasil?
O artista cria, mas não pode ter o controle sobre o que se desdobra a partir de sua criação. Pois é isso que pretende o grupo Procure Saber: institucionalizar os acontecimentos para ter controle histórico provocado por suas obras. Isso é cercear não só a liberdade de expressão. Isso vai contra o direito público de ter acesso à informação irrestrita.
Pouco importa se eles estão se contradizendo artisticamente. Se a lógica tem a ver com lucro, eles estão colocando o bolso acima do interesse e do direito público de ter acesso à informação, sejam elas comprometedoras, polêmicas ou vergonhosas. Ou você quer que biografias chapa-branca (como a de Dorival Caymmi, por exemplo) se tornem ‘padrão de mercado biográfico’?
Essa lógica, vale frisar, não acomete todos os cantores brasileiros de grande consagração. Alceu Valença, por exemplo, mostrou ser contra essa iniciativa: “É uma equivocada tentativa de tapar, calar, esconder e camuflar a história no nosso tempo e espaço. Isso me parece imoral. Falem mal, mas me paguem… é essa a premissa? Nem tudo pode se resumir ao vil metal.”
A liberdade de expressão é vital para que o jornalista realize o seu trabalho com o devido desdobramento crítico, crucial para o pleno entendimento da contribuição artística do biografado.
O julgamento cabe apenas ao leitor, que vai decidir se identifica ou não com a trajetória do artista. Esse é o medo maior dos artistas envolvidos. Faz sentido Lavigne, que trabalha com imagem artística, estar à frente de tudo isso.
