Gravadora: Parkwood/Columbia
Data de Lançamento: 21 de abril de 2016
Jay Z tem culpa no cartório: sim ou não?
Traição é um tema que desperta muita comoção popular. Cria-se uma identificação com quem possivelmente possa ter sido alvo desse verbo que ganha conotações violentas. Afinal, é uma apunhalada sentimental.
A dor é interna: ao contrário dos danos físicos, ela é abstrata, ou seja, é imaginada.
A dimensão dessa ‘imaginação’ só pode ser quantificada pela própria Beyoncé. A música, nesse caso, é o resultado final dessa equação.
Nesse caso, Lemonade aponta variáveis bastante extremadas. Em “Hold Up” ela titubeia, mas valoriza o sentimento que tem, como se marcasse uma posição de certeza do que sente.
Já a seguinte, “Don’t Hurt Yourself” (com Jack White), é raivosa: ela exclama ‘que porra você pensa que sou?!?‘, como se estivesse recriando o momento exato em que se deparou com um flagrante de traição.
Ela rememora as dores (“Sorry”), enfatiza as características pessoais de uma 3ª pessoa, que na verdade é ela, no R&B espiritualmente torto de “6 Inch” (com The Weeknd) e busca forças para se levantar dos frangalhos emocionais usando a seu favor a musicalidade paralisante de James Blake, em “Forward”.
Seguidamente, a narrativa musical é desconstrutivista. O vídeo do álbum, lançado pelo canal a cabo HBO e disponibilizado com exclusividade na plataforma Tidal, ajuda o ouvinte a se situar nessa epopeia sentimental.
O início é lento, mas sua riqueza de cores revela preocupação em enfatizar cada detalhe. Transferindo para a esfera de representatividade da obra, o espectador testemunha visões ora aterrorizantes, ora intimidadoras, ora referenciais – há traços de “Bad”, de Michael Jackson (com direção de Martin Scorsese), e de um misto de Fela Kuti com os figurinos tribais à lá Animal Collective.
Beyoncé em busca do equilíbrio
A duração de 1h05min é extensa, mas por si só já exemplifica a densidade desse momento. O vídeo, codirigido por ela (com Kahlil Joseph e diversos outros), delineia as sombras que conectam as canções do disco: começa com uma oração e expõe sua ira, dor, angústia e autocomiseração.
Na conversa com o pai, no country-jazz “Daddy Lessons”, há o reforço dos valores pessoais a partir das raízes familiares: a localidade, Texas, é o palco de uma viagem nostálgica que a ajuda a se fortalecer.
Diante de uma experiência pessoal tão ruim como a que Beyoncé canta em Lemonade, é normal buscar o equilíbrio de um lado que parece oposto, mas é complementar, dela mesmo. A traição enquanto objeto motivacional do disco, seja ou não consumada, seria um dano à sua unidade. Para manter um equilíbrio de si mesma, Beyoncé recorreria a um outro aspecto pessoal, conhecido na psicanálise como totalidade.

Em outras palavras, a fraqueza de Beyoncé como indivíduo seria equalizada com um de seus maiores pontos altos enquanto artista pop: conscientização feminina.
Carl Jung chama isso de lei de compensação do destino, em que “consciente e inconsciente não se acham necessariamente em oposição, mas se complementam mutuamente, para formar uma totalidade”, conforme escreveu. De acordo com o Dicionário Crítico de Análise Jungiana, “conteúdos inconscientes reprimidos reúnem uma carga de energia suficiente para irromper na forma de sonhos, imagens espontâneas ou sintomas”.
Em “Love Drought”, esse conteúdo é imaginado ‘movendo montanhas’ e ‘acalmando a guerra’. Inconscientemente ela já está endossando a teoria jungiana quando diz que ela e ele (Jay Z?) ‘poderiam parar essa seca amorosa’.
O vídeo de Lemonade e a própria acepção do termo “Sandcastles” (‘castelos de areia’) são colocados numa contraposição: no longa, vemos Beyoncé ao piano num momento de reflexão, até que o próprio Jay Z, visto como a personificação da traição, lhe dá um abraço. Não está nada bem, isso é visível, e isso mostra uma tentativa de defrontar esse monstro invisível sentimental, que apenas a Beyoncé sente naquele momento. O abatimento, nesse caso, é inevitável – tanto que “Forward” parece ser o máximo de declínio que ela suportaria, a ponto de deixar que apenas James Blake narre.
O ressurgimento deve ser imediato, antes que se desabe por completo. Como sintetiza o dicionário jungiano: “O objetivo do processo compensatório parece ser o de ligar, como uma ponte, dois mundos psicológicos. Essa ponte é o símbolo, embora os símbolos, para serem eficazes, devam ser reconhecidos e compreendidos pela mente consciente, isto é, assimilados e integrados”.
É aí que entra “Freedom”, com órgão e baixo sampleados da diletante “Let Me Try”, da banda porto-riquenha de rock psicodélico Kaleidoscope. A música fala de ‘quebrar todas as correntes de mim mesma’, fortalecendo essa ‘ponte’ de Jung. Se a traição significava uma espécie de prisão, a libertação é o clamor. Um clamor coletivo – como forma de contrapor a experiência individual.
O contexto, nesse caso, se expande. Lembre-se que tudo começou no lar, foi ao local de infância, no Texas, e depois toma uma proporção nacional. Faz todo sentido.
Lemonade contra o sistema
No ano passado, muitos músicos manifestaram sua indignação contra as mortes de rapazes negros por policiais. O argumento principal é que eles não representavam nenhum tipo de ameaça: Michael Brown, Freddie Gray e Eric Garner foram baleados e os policiais foram absolvidos pela Justiça. Isso não só causou comoção popular, como inspirou diversos artistas a redefinirem suas obras: músicos como J Cole e Killer Mike proferiram discursos emocionantes sobre orgulho negro, mas o disco que artisticamente encapsulou essa reflexão sobre o papel do homem negro norte-americano na sociedade foi To Pimp a Butterfly (2015), de Kendrick Lamar.
Kendrick é o artista dentro do universo pop que melhor representa, na atualidade, o arquétipo de líder musical contra o preconceito racial.
Sua participação em “Freedom”, portanto, reforça a expressão identitária de Beyoncé diante de duas lutas: da mulher e do negro.
Uma vez ‘integrado e assimilado’, o discurso social de Beyoncé atinge a máxima em “Formation”. A canção cita o movimento Panteras Negras, preconceito racial e, principalmente, superação individual diante de adversidades que vão além do preceito de ‘minoria’. Ela é rica, bem-sucedida e mundialmente admirada, mas o que este single mostra é uma Beyoncé periférica, no melhor significado artístico.
“Formation” é mais uma etapa de um mostruário transcendental Beyoncé: roupas e figurinos fazem parte disso tudo, mas são meros artifícios de uma simbologia marcada por superações. Neste caso, o mais marcante é sua demarcação racial. Se em “Pretty Hurts” e “***Flawless” o fato de ser mulher, que já nasce dentro de um sistema opressor e machista, são enfatizados, “Formation” assimila esse empoderamento e contextualiza dentro de um ambiente segregacionista. Noutras palavras: se ser mulher já é difícil, imagina ser mulher e negra.
Neste caso, “Formation” é Beyoncé chegando ao grau máximo do outro lado da balança, seguindo a lei de compensação do destino.
Mesmo que nenhuma das situações propostas em Lemonade tenham a ver com a vida dela, Beyoncé conseguiu despir uma mulher completamente e explorar o ínterim que fez da personagem (não importa se ela ou não), antes uma mulher, uma Mulher com M maiúsculo. O comprometimento com o feminismo talvez não seja a tônica de Lemonade; o álbum anterior, Beyoncé (2013), tem mais hinos identificáveis com isso.
A cantora Azealia Banks chegou a afirmar que Beyoncé fez exatamente o contrário de feminismo neste álbum. Analisando sob outra perspectiva, Lemonade é a reconstrução de identidade, em que um adjetivo como ‘heroína’ vai ao extremo da subversão antes de sua verdadeira acepção. A resposta que o escritor Gustave Flaubert deu pouco depois de lançar o clássico Madame Bovary pode ajudar a entender esse raciocínio: “Meu herói é uma heroína. Desde que seja suficientemente atraente, seja nervos, ambição, uma aspiração irreprimível de um mundo superior, será interessante”.
Emma Bovary causou polêmica justamente por ir na contramão na via de regra que reduzia a felicidade à mera situação pacata de ter um marido e uma boa casa pra cuidar. Beyoncé, neste caso, é diametralmente oposta. A constituição e manutenção de uma família, embora vista com ‘bons olhos’ por setores sociais conservadores, pode relegar a mulher a um status de ‘submissa’.
Colocando a persona de Lemonade no limiar da ficção, é até possível colocá-la ao lado de Emma: as duas passaram pelas miras oculares de uma sociedade que sempre cobrou bastante das mulheres, não importa de que lado estejam ou por que causa lutem.
Jay Z, neste caso, não tem nada a ver com isso.
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