A programação da Virada Cultural 2013 teve grandes nomes como George Clinton (já vi show) e Black Star (queria ter ido), mas a grande vontade mesmo era ver a performance do Pharoah Sanders às 12h, no Palco do Colégio. Para quem não sabe, o saxofonista tocou na fase em que John Coltrane transitou do hard-bop para o free-jazz (coisa de discos como Ascension (1965) e Expression (1967)), além de colaborar com Kenny Garrett, Sun Ra e Ornette Coleman – que o chamou de ‘melhor tenor do mundo’.

Aos 72 anos, os sopros já não são mais tão vigorosos. Mas o que ele proporcionou naquele palco foi um feito quase místico. Apoiado pela banda São Paulo Underground (que lançou o excelente Três Cabeças Loucuras, em 2011), Pharoah tocou notas rápidas e longas em temas solapados pela atonalidade. Nada era previsível daqueles instrumentos (sax, violino, teclados, trompete e bateria): a ideia era colocar os espectadores numa atmosfera virulenta, repleta de pancadas. Boa parte do público que estava nas primeiras fileiras fazia careta e demonstrava não entender bulhufas. Até cheguei a ver gente colocando dedos nos ouvidos (e o público não era pouco).

Preciso dizer que foi uma apresentação fulminante? A partir dali, o dia mostrava claros sinais de que seria bom.

Partindo para a São Bento, flertei com a sonoridade funky da Banda Nhocuné Soul. Poucos estavam prestigiando – mas eram aqueles poucos que sabiam, gostavam e dançavam aquilo que ouviam. Bela energia de palco e um carisma sem precedentes de todos os integrantes do grupo. Eles cantaram algumas canções antigas e apresentaram Banzo, o terceiro e novo disco que será oficialmente lançado dia 25 de maio. Ah, e também teve uma versão de “Jhony”, clássico de Tim Maia Disco Club (1978).

Hora de dar um passeio pelos arredores da Avenida Cásper Líbero, onde flertei com o palco Alfredo Issa, de funk carioca. O MC Menor do Chapa estava colocando as ‘novinhas’ pra dançar (e os ‘novinhos’ pra babar) com o pancadão em alto volume. Uma breve olhada e logo voltei a caminhar sentido Palco Cásper Líbero, para ver uma brechinha do show de Fábio Góes.

O pouco público formado por hipsters, roqueiros e uma ou outra titia interessada em ouvir boas melodias estava curtindo legal as canções de O Destino Vestido de Noiva (2011). Um ou outro acompanhava os vocais, mas o coro maior veio com a versão de “O Trem Azul” (de Clube da Esquina). Interessante reparar que o público mais novo não conhecia a música. Já as titias… Elas, assim como eu, adoraram!

Findado o show de Góes, começou do outro lado o show da banda paraense Strobo, já mencionado na coluna Na Mira. Como um duo, o guitarrista Leo Chermont e o baterista Arthur Kunz começaram como virtuoses, traçando linhas de rock com o vigor de um The Black Keys mais raivoso.

Segundo Chermont, essa opção foi intencional, para soar mais convidativo ao público. Com o aglomero já formado, eles começaram a inserir as programações eletrônicas que permeiam discos como STROBO e o recém-lançado Delírio Cromático. Foram pancadas ácidas que formaram o segundo melhor show da Virada Cultural de domingo.

Ressoou o último acorde do Strobo, milimetricamente teve início o show de Bárbara Eugênia do outro lado. A cantora carioca já tem um público bem mais consolidado, logo o palco estava mais cheio. Sem os músicos que participaram na feitura de seu álbum mais recente, É o Que Temos, os instrumentistas se saíram muito bem principalmente por criarem uma atmosfera própria ao recriar aquelas canções.

Ela abriu com “Coração”, a primeira música do novo disco. Mas a grande intenção era fazer um passeio por toda obra, incluindo “Ficar Assim” e “A Chave”, do disco de estreia Journal de BAD (2010).

Não esperava muito desse show, mas foi surpreendente contemplar a versão de “Porque Brigamos” e “Ugabuga Feelings”, que deu espaço para a performance frenética da ótima banda que a acompanhava. (Sempre achei que o forte de Bárbara Eugênia está na instrumentação de sua música. Comprovei isso com o show, mas me surpreendi positivamente com a forma que ela encara o palco. Não é tão tímida quanto eu imaginava.)

Depois da curtição dos shows, hora de andar. Passamos por banheiros químicos nauseabundos e pegamos a Avenida Ipiranga em direção ao Palco Copan Cabaret, onde acontecia um show de Marisa Orth (este é o momento de encontrar amigos, obviamente não estava nos planos ver a atriz de Sai de Baixo cantar).

Em frente à casa noturna Love Story, um público bem considerável aplaudia e ria com o bom-humor de Marisa. Cheguei a achar as falas de uma canção para outra mais agradáveis do que suas versões musicais.

Tudo com um vinho do lado fica mais divertido, e o público parecia embeber-se daquele cálice com seus pares: foram muitos beijos, abraços e passadas de mão em parceiros do sexo oposto ou não.

Eram 16h, e estávamos à procura de um bar para assistira partida final do Campeonato Paulista entre Santos e Corinthians. Depois de algumas passadas, chegamos à conclusão que devíamos mesmo era comer algum lanche ali na República. Só quando o Corinthians empatou o jogo é que ouvimos barulho de uma TV numa viela um tanto quanto obscura.

Então, decidimos partir para o Palco 25 de Março, local em que Otto encerraria a programação. O músico pernambucano atrasou a ponto de parecer que todo o público da Virada estaria ali só para ver mais uma atração antes de pegar o metrô mais próximo.

Quarenta minutos depois, ele surge dizendo que o tempo de seu show seria reduzido. Começou com “Exu Parade”, uma das poucas canções que se salvam de seu último álbum: The Moon 1111.

No entanto, o grande sustentáculo de sua apresentação ainda é o disco Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos (2009). Foram canções como “Crua” e “Saudade” que causaram frisson no público majoritariamente feminino (pelo menos, do local onde estava). Ainda rolou “Ciranda de Maluco”, de Samba Pra Burro (1998) – mas eles queriam mesmo era “Naquela Mesa” e “6 Minutos”.

Não fiquei até o fim da apresentação. A ideia era pegar o metrô ainda transitável, para retornar com o devido conforto após horas batendo perna.

Depois de saber de tanta conturbação em relação ao primeiro dia (nem mesmo o senador Eduardo Suplicy se safou de ter a carteira roubada), o domingo foi bem mais tranquilo. As pessoas estavam mais dispostas a curtirem o desconhecido sem a preocupação de arrastões ou de trôpegos arredios.

A organização, a meu ver, não estava ruim. Havia banheiros químicos em diversos lugares (apesar de bares cobrarem R$2, que eram inevitáveis para mulheres). Claro que eles não estavam tão limpos como gostaríamos, mas pelo menos aliviou o sofrimento de muitas bexigas.

Aos fãs de comidinhas, diversas barraquinhas vendendo pastéis, caldo de cana, coxinhas e outros salgados ficavam em distâncias não muito longas entre uma e outra. Já na hora de comprar cerveja, era necessário pegar longas filas em pequenos bares ou dar a sorte de flertar com ambulantes ‘ilegais’, que vendiam três latas por R$10 com a cautela de não encontrar com nenhum policial no meio do caminho.

A programação estava realmente muito boa, principalmente naqueles dois palcos da Cásper Líbero. Não quis encarar o show dos Racionais MCs às 15h por conta da grande concentração de público, mas soube que eles decidiram antecipar em 20 minutos o horário justamente por conta da partida final do Paulistão (eles são santistas roxos!). Dizem que foi épico.

Mas épico mesmo foi fazer um passeio tranquilo em um evento que coleciona conturbações desde sua primeira edição, em 2005. Neste ano, a Virada Cultural de domingo foi sintomática para um belo passeio no Centro de São Paulo, com atrações dignas.

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Para se ter uma ideia da amplitude da Virada Cultural 2013, leia este post do Floga-se.