Gravadora: Now-Again
Data de Lançamento: fevereiro de 2018
A Etiópia é um país que se diferencia dos vizinhos do chifre africano: embora tenha sido liderada por imperadores, resistiu duas vezes às tentativas de invasão de Mussolini, pouco antes da II Guerra Mundial. De certa forma, era visto como um país soberano em suas atitudes pela comunidade internacional – embora, lá dentro, as coisas tenham sido um pouco diferentes.
O músico etíope mais conhecido na atualidade, Mulatu Astatke, levou mais de 30 anos para voltar à terra natal com o prestígio que conquistou nos Estados Unidos e na Europa. Mas, ele não foi o único a se expressar musicalmente nos anos 1970 como se fosse um subversivo – subversivo por utilizar instrumentos ocidentais e, de certa forma, provocar questionamento nos ouvintes com sua obra.
A série de Francis Falcetto, Ethiopiques, apresentou alguns nomes importantes, como Alemayehu Eshete, Asnaketch Worku, Mahmoud Ahmed.
Outro nome importante dessa seara é Ayalew Mesfin, embora apenas 4 músicas tenham dele tenham sido relançadas.
O selo Now Again, em parceria com a Vinyl Me Please, fez uma seleção do que Ayalew produziu entre 1975 e 77, período mais fértil de sua carreira.
Nessa época, a Etiópia vivia uma transformação cultural, assimilando instrumentos ocidentais com a cultura popular de seu país – que lembra a expressão indígena, com choirs, palmas, percussões e riffs que intercalam algo semelhante a procissões num esquema call-and-response.
Ayalew Mesfin: Hasabe (My Worries)
Ayalew foi favorecido por trabalhar ao lado da Black Lion Band que, além de ajudar a encontrar um tipo de sonoridade única, colaborou no ‘rateio’ para comprar equipamentos, como sound systems e guitarras.
Muitas das composições, diz Ayalew, são versões do que eles escutavam na Rádio Nacional Etíope, só que com uma roupagem moderna, que depois ficou conhecida como ethio-groove. Por isso, tem um pouco de James Brown, Wilson Pickett e Jimi Hendrix em canções como “Hasabe” e “Rehab”, colocando funk e psicodelia nessa proposta de renovação.
“Muito dos meus trabalhos falam de problemas sociais, assim como comentários políticos. Mesmo que minhas canções falem sobre amor, ou abordem tópicos mundanos, elas estão abertas a interpretações”, disse Ayalew, que consentiu com o relançamento de 11 canções dessa fase, que resultaram em Hasabe (My Worries).
Segundo o músico, todas as canções são frutos de one-take e foram, em sua maioria, produzidas por ele mesmo. “Geralmente começo com a introdução para instrumentos de sopro e teclado. Meu próximo foco é no baixo e na seção rítmica. Normalmente, trabalho bem próximo ao tecladista”, disse o músico sobre seu modus operandi em estúdio.
Com o passar dos anos, o regime Derg, que tirou Selassie I do poder, passou a ser mais repressor. Por conta disso, Ayalew compôs detratando alguns desses casos de opressão e acabou entrando para a lista negra do partido. Chegou a ser apanhado algumas vezes, até que teve todos seus instrumentos e bens confiscados. “Um oficial me pôs na condicional por 13 anos, e fiquei proibido de compor e apresentar minha música, além de ter que avisar sempre que saísse da cidade e quando chegasse no local de destino”, contou.
Por isso, Ayalew teve que compor escondido em pizzarias. Deixou as fitas em locais seguros até que, em 1991, o regime Derg chegou ao fim.
Muito material dele foi lançado, mas esta fase com a Black Lion Band ganhou um tratamento especial, por colocar Ayalew como uma das linhas de frente da renovação musical do que consideram a ‘era de ouro’ da música da Etiópia.
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