Se não houvesse tantas tragédias e tantas partidas desnecessárias (RIP Bowie, Dawg, Cohen, Prince…), 2016 seria um ano à parte nesta década.
Para o pop foi um estouro. Beyoncé e Rihanna disputaram um reinado difícil com canções ultramodernizadas, reflexo de que estão atentas às novas estéticas de produção e linguagem do soul e do R&B.
O rap teve muito a comemorar, com o retorno de Aesop Rock à sua boa e velha forma (mais carismático até), o De La Soul entrecruzando com ritmos que vão do midtempo ao pós-punk e o A Tribe Called Quest redefinindo e expandindo a influência soul-jazz dos anos 1990 para uma atualidade mais híbrida – e, no caso deles, inevitavelmente melancólica por conta da morte de Phife Dawg, que chegou a gravar todas as canções do álbum.
PJ Harvey e Radiohead retornaram, mostrando que o rock não precisa apenas de guitarras para expressar vazio, melancolia e revolta. A cantora foi entender a situação do pós-guerra em três cidades devastadas, enquanto a cultuada banda perfurou a barreira de nossas individualidades, despertando suspiros inesperados e ataques de pânico social.
Essa preocupação indivíduo-sociedade é bem latente nas melhores musicas feitas pelos britânicos em 2016. Peguemos Michael Kiwanuka como exemplo: ele seguiu essa mesma corrente quando questionou sua representatividade e como ela é interpretada pela sociedade em que vive em várias canções de Love & Hate.
Também ficamos de olho no pop que segue uma linha criativa e que geralmente passa incólume pelos que se dizem atentos à nova música: é o caso de nomes como Xenia Rubinos e Dawn Richard. E tem, também, os medalhões, como David Bowie, Van Morrison e Hugh Masekela.
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Confira a lista das 30 melhores músicas internacionais de 2016:
30. “No More Parties in L.A.”
Kanye West ft. Kendrick Lamar
Gravadora: G.O.O.D. Music
Álbum: The Life of Pablo
Foi Kim Kardashian quem deu a notícia: finalmente Kanye West e Kendrick Lamar estariam juntos em uma faixa. Não se trata do melhor rap que você vai escutar nessa década, mas a simbiose entre a alta expertise de Kanye na produção e de Kendrick na afiação da letra, com um toque de Midas de Madlib, fizeram de “No More Parties in L.A.” um som que valoriza aquela pegada soul que Kanye explorou de forma tão arrojada em The College Dropout (2004). Ao contrário das demais faixas de The Life of Pablo – um disco mais mal ajambrado do que polêmico, especialidade que tem comprometido a carreira do talentoso músico – “No More Parties in L.A.” é cáustica, direta ao ponto. Órgãos numa atmosfera setentista costumam salvar letras fracas de rap. Pelo menos aqui, ele não ficou dependente das batidas.
29. “When Will I Return?”
Swans
Gravadora: Young God
Álbum: The Glowing Man
The Glowing Man tem duas características intransponíveis para entrar em quaisquer listas: canções longas demais e um pano de fundo que colocou o líder do Swans, Michael Gira, no epicentro de uma polêmica de assédio sexual e machismo contra Larkin Grimm. A esposa de Gira, Jennifer, posicionou-se ao lado do marido, e endossa isso nesta simbólica faixa. ‘Ooooh, eu estou viva!’, repete Jennifer, sob o som auspicioso de uma banda que diminuiu o volume de suas percussões apocalípticas para dar uma perspectiva artística à defesa de Gira perante seus fãs e detratores. A música não ajuda a advogar a favor de Gira, mas mostra que o trabalho do Swans ainda tem muito de discos como Love of Life (1992) e Soundtracks for the Blind (1996).
28. “1st Day Out Tha Feds”
Gucci Mane
Gravadora: Atlantic
Álbum: Everybody Looking
Não é segredo pra ninguém que Gucci Mane ficou dois anos e meio preso e, nesse período, lançou dezenas de álbuns a cada ano, contando com participações de alguns dos caras mais talentosos de Atlanta, como Young Thug e o inseparável Metro Boomin’ – hoje, parceiro de Drake. “1st Day Out Tha Feds” é a comemoração para a vida em liberdade, mas, antes disso, um alívio às canções hedonistas, gangsta, divertidas até de um rapper considerado controverso para alguns, mas sempre muito íntegro. Prepare-se para canções mais bem produzidas, parcerias mais improváveis e sons mais pungentes. Gucci is back!
27. “Kirby”
Aesop Rock
Gravadora: Rhymesayers Entertainment
Álbum: The Impossible Kid
Mais de 15 anos depois de um de seus álbuns mais clássicos, foi uma música com clipe com gatinhos, de menos de 2 minutos, e um ar meio flunfo que encaixou-se como uma das melhores portas de entrada para conhecer Aesop Rock. O verborrágico rapper de Long Island (NY) usa o imaginário para uma situação corriqueira: tentar entender o universo misterioso dos gatos, com versos que mostram como eles estão há anos-luz de distância de nossa sensibilidade. Kirby é o nome do gato de Aesop Rock, e toda essa viagem da canção justifica bem o motivo para o rapper tê-lo em casa: conselho psiquiátrico.
26. “Better Than Me”
Blood Orange ft. Carly Rae Jepsen
Gravadora: Domino
Álbum: Freetown Sound
Crise de identidade é um tema bem latente em Freetown Sound. A localidade e a genealogia de Dev Hynes pulsam no disco, mas em “Better than Me” é a raça e o gênero que são postos em voga. A escolha da cantora Carly Rae Jepsen no dueto impõe um contraponto estético: ele, negro, homem e homossexual; ela, hétero, branca e mulher. Vai muito além do genótipo. “A música trata daquele momento obscuro, quando você olha em volta”, disse Hynes ao Entertainment Weekly. E quando o cara por trás do Blood Orange se despe totalmente de sua aparência, ele tenta dimensionar sua importância na sociedade. Ao ver o outro como ‘melhor do que eu‘, ele revela uma insegurança latente, algo que pode ser demonstrativo de fraqueza, mas que certamente reflete o superego de cada indivíduo que se põe a examinar sua função na sociedade.
25. “Nosed Up”
De La Soul
Gravadora: AOI Records
Álbum: … And the Anonymous Nobody
Um dos retornos mais esperados do ano foi o do De La Soul. Repleto de participações improváveis, que vão de David Byrne a Little Dragon, o grupo de Long Island fez com que o hip hop cruzasse terrenos mais arenosos e distanciados. Em uma das poucas faixas sem participações, “Nosed Up”, o grupo segue um caminho funky estranhão e escapista. Nenhuma cartilha costuma definir o De La Soul de bate-pronto, e “Nosed Up” é só mais uma prova de que esse caminho tem afastado o grupo dos piores clichês do gênero. É envolvente, mas não dançante. Crítico, mas meio piegas. É o De La Soul oferecendo seu melhor, sem nenhuma intenção de fazê-lo.
24. “Ah Feel”
Årabrot
Gravadora: Fysisk Format
Álbum: The Gospel
O 6º álbum dos noruegueses do Årabrot é sludge, avant-garde, metal e tudo o mais, com peso, conteúdo satírico e uma abordagem interessante dentro de um nicho que costuma ser fechado. “Ah Feel” talvez seja o melhor convite para The Gospel: a voz corrosiva de Kjetil Nernes faz todas as honras a uma herança Mark E. Smith. O aspecto tribal da canção nos faz imaginar que esses caras ouviram e aprenderam com Roots (1996), do Sepultura. As deslizadas do baixo de Milton von Krogh e a bateria tempestiva de Magnus Nymo obedecem e desobedecem padrões metaleiros – enquanto Nernes canta com autoridade malévola, liberando uma carga volumosa de energia.
23. “Modern Soul”
James Blake
Gravadora: Polydor
Álbum: The Colour in Anything
As pinceladas dão cores à música de James Blake com a lentidão de um processo permanente. “Modern Soul” indica que estamos testemunhando essa evolução na vida numa dinâmica intensa, pausada. O piano é monocromático. Ele chega a sussurrar, mas não se entrega ao silêncio: entram aqueles vultos sombrios, fazendo com que Blake atinja um estágio de sensação diferente da melancolia dos primeiros minutos da música. Logo, todos os elementos flutuam em conjunto, como se cada batida, cada justaposição vocal e cada pausada fossem aspectos amadurecidos ao longo de 5 minutos e meio.
22. “Alabaster”
Emma Pollock
Gravadora: Chemikal
Álbum: In Search of Harperfield
Ouvir via SoundCloud
Traição, retribuição, durezas da vida. Em “Alabaster”, a escocesa Emma Pollock lembra com nostalgia de tempos idos, até que tudo ficou tão branco como o material de alabastro. A música fala de um relacionamento, mas a mensagem que persiste é a traição da memória, da sensação, do gosto que se perdeu. ‘Ao me dar desculpas, você acha que eu acredito’, diz Emma. Talvez o resquício de memória ainda renda boas imagens à personagem da canção. Retomar é impossível; por isso mesmo, ela diz: ‘pequenos segredos te traem’.
21. “Borders”
M.I.A.
Gravadora: Interscope
Álbum: AIM
Este ano foi absurdamente conturbado, e enquanto muitos se atentavam aos discursos estapafúrdios de Donald Trump, civis sírios continuaram alvos da megalomania de Bashar al-Assad, gerando a maior crise humanitária desde a II Guerra Mundial. A imigração foi em massa para países como Turquia e Alemanha, e não demorou para que uma onda protecionista assolasse de vez a Europa, que se disse comprometida, mas não mostrou nem um décimo desse comprometimento, em oferecer lares aos refugiados. É aí que entra o hino de M.I.A.: as barreiras protegem os indivíduos, mas e as consequências para o coletivo? Injuriada com toda essa indiferença, “Borders” é o grito de raiva que mais chamou a atenção do mundo pop. As coisas tendem a piorar nesse assunto. Vamos torcer para que a cantora reconsidere abandonar a carreira e siga detratando a ausência de solidariedade dos poderosos, cada vez mais distantes de enfrentar os problemas humanos.
20. “Solid Gold”
Darkhouse Family
Gravadora: First Word
Álbum: Solid Gold (EP)
Darkhouse Family é um projeto de Metabeats e Don Leisure que reprocessa territórios do jungle, soul-music e hip hop numa linha mais melódica, totalmente instrumental. O resultado é um som criativamente nostálgico. Para o EP Solid Gold, a dupla deixou bem claro quais eram as influências: Alice Coltrane, Tangerine Dream e Sun Ra. Como isso é possível? Ouça a faixa-título, e saberá. O piano-jazz é preponderante, e a exuberância é segurada justamente pelas batidas de d’nb, deixando um ar ácido e, ao mesmo tempo, delicioso. Grande joia de som.
19. “Aviation (Disco Weed)”
Remi
Gravadora: House of Beige
Álbum: Raw x Infinity
Remi é um daqueles artistas fora do hype que lançam diversos trabalhos ao longo do ano. De Melbourne (Austrália), o rapper ascendeu bastante e chegou a chamar alguma atenção com seu novo álbum, Divas & Demons. Antes do disco, porém, ele soltou alguns EPs na rede. Vem de um deles, Raw x Infinity, uma das grandes novidades do hip hop deste ano. “Aviation (Disco Weed)” foi uma das belas descobertas da mixtape BandCamp Weekly. Num funk futurista que mistura slaps de baixo, guitarras instigantes e percussões festivas, Remi segue a mesma linha de hip hop híbrido de Blitz The Ambassador e Black Milk. Preste atenção nele.
18. “Bitter Fruit”
The Kills
Gravadora: Domino
Álbum: Ash & Ice
Alisson Mosshart combina muito mais com o The Kills do que qualquer outro projeto. Perceba “Bitter Fruit”, por exemplo. Apesar dos riffs básicos de guitarra e da atmosfera volumosa, que parece se esfumaçar, a música não perde o ar lo-fi característico de uma banda de duas pessoas. ”Bitter Fruit” é a música mais nevrálgica de Ash & Ice, um disco que reafirma o lugar de banda roqueira do século XXI de Mosshart e Jamie Hince. Ela é tão cativante, que você pode colocar no repeat várias vezes, sem saber cantar. Um dos raros exemplos de rock de nossos tempos que funciona.
17. “Identikit”
Radiohead
Gravadora: XL
Álbum: A Moon Shaped Pool
Ao ouvir “Identikit”, a primeira referência que me surge é: a banda de Kid A (2000) e Amnesiac (2001) segue ainda mais niilista, mesmo depois de experimentos sensoriais, de acenos ao universo pop, de criativa incursão a uma selva desconhecida… Os vocais fantasmagóricos trafegam em segundo plano, junto a drones sintéticos e ritmo de guitarra alternando o protagonismo com o baixo. Thom Yorke canta a indiferença em tempos em que a complexidade é cobrada a cada post raivoso no Facebook. O Radiohead sabe como erigir uma canção tal qual uma escultura Renascentista, e “Identikit”, mesmo com seu formato anticanção, antirreflexão, prova que essa habilidade foi burilada a ponto de escapar naturalmente do grupo.
16. “Black Stars”
Xenia Rubinos
Gravadora: Epitaph
Álbum: Black Terry Cat
Xenia Rubinos compreende o R&B como um animal de estimação que precisa conhecer todos os lugares, pessoas e companheiros possíveis. A comparação soa imbecil, mas mesmo cantoras que têm sido ovacionadas por sua versatilidade no gênero, como Solange e Dawn Richard, têm muito a aprender com essa cantora de Connecticut. Em “Black Stars”, ela deixa-se levar por um teclado, que depois parece se transformar num mellotron, adquire uma característica de órgão e termina como piano mesmo. Xenia tem descendência porto-riquenha, por isso o interlúdio em espanhol ‘quiero, quiero, quiero, quiero‘. Essa transição linguística é cativante a ponto de idealizar um novo vocabulário para o R&B, que vai muito além de algumas dezenas de nomes e maneirismos.
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15. “Voodoo in My Blood”
Massive Attack ft. Young Fathers
Gravadora: Virgin EMI Records
Álbum: Ritual Spirit (EP)
Eletrônica universalizada, com percussões aliadas a batidas pré-programadas e caminhos vocais estranhos, obscuros, que parecem buscar informações de seres de outros planetas, adentrando uma profundidade que vai mudar para sempre a experiência do aventureiro. “Voodoo in My Blood” desperta um alarme interno de querer caçar o novo, sair em busca de coisas que fujam completamente daquilo que nos acostumamos a fazer. A experiência do Massive Attack em cruzar horizontes distintos, alimentando o interno/individual com inúmeras informações do externo/paisagístico, tornam a experiência ainda mais peculiar, criando um senso de urgência ainda maior.
14. “Memory Lane”
Van Morrison
Gravadora: Caroline Records
Álbum: Keep Me Singing
O passar dos anos nos leva a ficar presos a boas memórias. É comum pessoas mais velhas enfatizarem eventos passados, como forma de ressaltar a importância de algo que o tornaram o indivíduo de agora, velho, cansado. Na antiguidade, o sentimento de nostalgia era tido como uma doença, em que o passado vivia sendo repetido como presente. Hoje, nostalgia é visto como algo bom. Van Morrison, no alto de seus 71 anos, critica isso em forma de lamento. Em “Memory Lane”, diz que há um lugar em que as memórias insistem em ser reativadas e revividas. É confortante, mas quando ele se entrega demais a esse local, Morrison se diz preso. Será que vale a pena viver dessa forma?
13. “The Sideshow”
DJ Shadow ft. Ernie Fresh
Gravadora: Mass Appeal
Álbum: The Mountain Will Fall
Turntablism em ação. The Mountain Will Fall, novo disco do DJ Shadow, é mais nostálgico que o antecessor (The Less You Know, the Better, 2011), mas fica difícil ficar incólume às colagens e scratches deste grande craque musical quando hip hop, trap, drum’n bass, old-school e eletro entram na jogada, se misturando, convergindo, arrebentando e praticamente exigindo que o ouvinte aumente o volume dos graves. No ano em que o clássico …Endtroducing (1996) completa 20 anos, “The Sideshow” é um complemento mais-que-perfeito da importância da influência de Shadow. Break down!
12. “Love & Hate”
Michael Kiwanuka
Gravadora: Interscope
Álbum: Love & Hate
Entre as guitarras viajantes à lá David Gilmour e novos questionamentos sobre a vida e seu lugar na sociedade, Michael Kiwanuka deu mais importância à complexidade do que considera importante como indivíduo do que como músico. A faixa-título de seu novo álbum é o que poderíamos chamar de soul-progressivo: a construção melódica lembra a produção de Barry White, mas o desespero e a dor são canalizados por uma serenidade que indica que o cantor já passava por um processo de amadurecimento quando passou as apreensões da escrita para o canto. A orquestra é baixa, ouve-se o som da bateria com o ritmo das palmas, tá tudo lá embaixo… É Kiwanuka exorcizando seus demônios, ensaiando um retorno, mas caindo novamente, titubeando, querendo levantar. Um verdadeiro pêndulo de emoções.
11. “Really Doe”
Danny Brown ft. Kendrick Lamar, Ab-Soul & Earl Sweatshirt
Gravadora: Warp
Álbum: Atrocity Exhibition
Atrocity Exhibition tem um punhado de canções instigantes, mas um single que reúne os melhores rappers em atividade é um acontecimento e tanto. Além do próprio Danny Brown (um dos mais originais de seu tempo), o todo-queridinho Kendrick Lamar e seu ídolo, o jovem Earl Sweatshirt, fazem da canção uma reunião de titãs, o pico máximo do Olimpo do hip hop. Kendrick assume o refrão, Ab-Soul dá motivos de sobra para equipar-se aos gigantes e Earl Sweatshirt suga o som cristalino (e a atenção do ouvinte), impondo o seu ritmo e o seu tempo na canção. No fundo, a música é uma chapação que começa frenética e termina suave, recobrando sua serenidade aos poucos.
10. “The Wheel”
PJ Harvey
Gravadora: Vagrant
Álbum: The Hope Six Demolition Project
Nada é mais difícil do que selecionar uma música de The Hope Six Demolition Project, mas se fosse para usar um argumento para angariar novos ouvintes, apostaria em “The Wheel”. A música possui aquela aura sacralizada que mostrou essa nova direção artística de PJ Harvey em Let England Shake (2011) e, ao mesmo tempo, aquela agrura roqueira do início dos anos 1990 (da época em que John Peel ficou fascinado por ela). Ao observar a calamidade humanitária em Kosovo, PJ Harvey enfatiza a morte de 28 mil crianças (‘ei, pequenas crianças, não desapareçam’), sem medo de soar inconveniente ao repetir dezenas de vezes ‘e vê-los desaparecer, e vê-los desaparecer’. Ninguém tá nem aí pras desgraças do mundo, por isso PJ, que testemunhou tudo, sente a urgência de chamar atenção para a crise humanitária.
9. “One of These Days”
Hugh Masekela
Gravadora: Semopa
Álbum: No Borders
Se você classifica world-music como algo distante do pop, reveja seus conceitos. “One of These Days” pode ajudar: na canção, Hugh Masekela fala da dor da espera, usando os efeitos harmon-mute de seu trompete num solo acalantador. Maracas e o som de um piano túrgido em meio a efeitos borbulhantes fornecem elementos flutuantes a uma música que se apega à utopia de união e tolerância. Masekela é bastante preocupado com a propagação cultural da África pelo mundo. Com este single, ele tornou a mensagem acessível: há expressões do Egito, da África do Sul e do Oriente Médio numa canção que, no teor raso de entendimento da world-music, não passaria de uma balada.
8. “Solid Wall of Sound”
A Tribe Called Quest ft. Busta Rhymes, Eric Clapton & Jack White
Gravadora: Epic
Álbum: We Got It From Here… Thank You 4 Your Service
Se We Got It From Here… é um dos melhores discos da carreira do A Tribe Called Quest, “Solid Wall of Sound” ocupa importância semelhante quando o assunto é canção. A melancolia do piano de Elton John – produzida depois da morte de Phife Dawg – dá uma aura angelical. Os efeitos de voz e guitarra de Jack White criam um espectro misterioso: parece que o grupo foi lá no céu (acompanhado do inseparável Busta Rhymes) encontrar Phife Dawg e, de lá, a emoção resultou nessa elegia de arrancar lágrimas. O grupo nunca criou ou pensou numa música com essa estrutura, porque, bom, não haviam perdido um integrante antes. Se pudermos dedicar uma música ao falecido rapper, “Solid Wall od Sound” seria a escolha perfeita. Descanse em paz, Phife.
7. “Don’t Go”
Tricky
Gravadora: NoPaper Records
Álbum: Skilled Mechanics
Tricky passa por uma fase interessante em sua carreira. Comumente deixado de lado – não sei por quê – o cantor de Bristol faz uma mescla de sensualidade e horror na faixa mais marcante de Skilled Mechanics. As pausas pontuadas evidenciam que a estética trip hop, ainda que negada por ele, permanece rendendo bons frutos criativos. O escopo de “Don’t Go” é minimalista: a variação rítmica obedece a um estilo próprio do canto de Tricky – misto de hip hop, trovador, poeta do além. Ele coopta o ouvinte com lentidão, gerando um sentimento de alienação, permissividade. Você se entrega e, sem saber muito o motivo, acaba dando replay.
6. “Formation”
Beyoncé
Gravadora: Parkwood/Columbia
Álbum: Lemonade
Ouvir no YouTube
“Formation” é uma exceção em um álbum como Lemonade, impulsionado pela experiência amorosa individual conectada à consciência negra, feminista e combativa de Beyoncé. Fez todo sentido essa canção ter sido a primeira amostra do disco, principalmente numa apresentação do Super Bowl: ela reavivou a simbologia do poder negro ao vestir-se como membro dos Panteras Negras, clamando por união e enfatizando desejos. Não foi apenas jogada de marketing; Beyoncé fez um reforço de identidade, algo que faz sentido como premonitório de Lemonade, e até a partir de uma abordagem pós-Lemonade. Isso mostra que “Formation” é um single avassalador, talvez até maior do que o próprio disco que garantiu presença na lista de melhores de 2016 em vários sites.
5. “2100”
Run the Jewels ft. BOOTS
Gravadora: Mass Appeal
Álbum: Run the Jewels 3 (ainda não lançado)
“É sobre medo e sobre o amor, e sobre querer mais”, disse Killer Mike sobre a canção, disponibilizada após o mundo ficar chocado com a vitória de Donald Trump para a presidência dos EUA. É um desabafo distópico, triste e raivoso ao mesmo tempo. O primeiro single de Run the Jewels 3 – a ser lançado em janeiro de 2017 – mostra uma linha de produção reflexiva e, ao mesmo tempo, alarmante. Não dá pra esperar algo mediano do Run the Jewels, mas comparado ao que o grupo apresentou nos trabalhos anteriores, “2100” é a mais adequada expressão exaustiva de caras que estão cansados de serem alimentados pela guerra interna. ‘Me recuso a matar algum ser humano/Em nome do governo’, dispara Mike. É preciso manter a calma e a paz diante de tempos conturbados, que certamente estarão por vir.
4. “F.U.B.U.”
Solange ft. The-Dream & BJ the Chicago Kid
Gravadora: Saint Records/Columbia
Álbum: A Seat at the Table
Numa via contrária da irmã Beyoncé, Solange aborda feminismo e racismo de um ponto de vista coletivo. ‘Essas merdas são pra gente‘, repete, canalizando o preconceito distribuído a torto e direito pelo mundo. Existe um misto de dor e revolta no lamento da cantora, e a transposição disso mostra que ela passou por um confronto emocional que só poderia gerar algum tipo de empatia através da música. A produção remete a um Aquemini (1998) indo de encontro a Bon Iver. The-Dream, letrista de várias músicas de Beyoncé, dá eco à mensagem doída, que exemplifica uma dor generalizada a partir do canto de uma pessoa só. Mais um claro exemplo de que o propósito musical de Solange passa longe do legado da irmã.
3. “Black Crimes”
Dawn Richard
Gravadora: Local Action
Álbum: Redemption
O pop de Dawn Richard pertence a um futuro mais longínquo do que Major Lazer, Justin Bieber e Skrillex impuseram ao mercado fonográfico. Pense em uma sociedade próxima à profecia de Blade Runner, (ainda mais) subserviente à tecnologia e repleta de luzes de neón. “Black Crimes” transporta o ouvinte a esse tipo de imaginário, quebrando ritmos superlativos em estilhaços. A voz de Dawn Richard prenuncia a distopia de forma convincente. É como se ela fosse a porta-voz de um futuro hostil (e pode-se até pensar no mencionado filme de Ridley Scott, já que Dawn Richard traz um pouco do industrial sonoro de Vangelis, responsável pela trilha). Este ano, Kelela foi a grande queridinha de artistas do porte de Clams Casino, Solange e Danny Brown, numa linha de interesse pelos grandes inovadores do R&B que teve início, pelo menos nessa década, com o fenômeno Janelle Monáe. Dawn Richard, nesse meandro, é diferente: “Black Crimes” é sua representação-mor de excentricidade e criatividade. Certamente, ela despertou inveja em muita gente. Não me espantarei se vê-la num feature com Rihanna ou Beyoncé nos próximos anos.
2. “Consideration”
Rihanna ft. SZA
Gravadora: Westbury Road Entertainment
Álbum: Anti
A primeira música de Anti instiga totalmente o ouvinte a prestar atenção em Rihanna. Seu dueto com SZA prova que as influências do dub e do midtempo têm muito a enriquecer o pop. Pouco menos de três minutos são necessários: elas divagam sobre elas mesmas, questionando identidades não muito claras como se materializassem a paranoia coletiva que cai nas piores amarras da crise existencial. Nesse sentido, a parceria de SZA foi um achado.
Como escreveu Doreen St. Félix num especial da New York Times Magazine, trata-se de “dois ramos de um mesmo rio, entrando e saindo”. Nós, brasileiros, somos exigentes quanto a um dueto: uma cultura com um cancioneiro que inclui “Águas de Março” e “O que Será/À Flor da Pele” não admite que os cantores se isolem em tempos específicos da faixa. Pois é justamente isso que Rihanna e SZA não fazem. “É um anti-hino, uma canção para o indivíduo em um mundo cheio de chamadas baratas à solidariedade”, cravou Doreen. Um mantra para uma busca cada vez mais difícil do silêncio que existe dentro da gente.
1. “Lazarus”
David Bowie
Gravadora: Columbia
Álbum: Blackstar
2016 não poderia começar pior. David Bowie morreu, apenas dias depois de lançar um álbum com uma direção totalmente diferente do que tinha lançado até então; um jazz obscuro, que colocou em primeiro plano seu último respiro de vida.
Quando o clipe de “Lazarus” foi lançado, quase junto ao disco, muitos se perguntaram o que significava aquela simbologia dele entrando no armário, em convulsão no quarto, cantando de olhos cerrados. A morte dirimiu algumas dúvidas, mas suscitou outros questionamentos: por que Lázaro, o injustiçado, visto como vil pelos mais ricos numa passagem bíblica só porque era pobre, seria usado como elemento comparativo?
Uma coisa é certa: a persona de Bowie não tinha nada a ver com aquilo.
O segundo verso, então, elucidou um pouco as coisas: ele estava no céu, sem nada a perder. Na real, ele estava preparando o ouvinte para sua partida definitiva: ‘É desse jeito/Ou não haverá outro jeito/Você sabe/Estarei livre‘, canta, com inacreditável sobriedade. Olhando para 2016 – que ainda não terminou – como retrospectiva, saber que Bowie está em paz não deixa de ser confortante. Em um ano de tragédias, conturbações políticas e mortes de um músico atrás do outro (Prince, Phife Dawg, Leonard Cohen, pra ficar em alguns), “Lazarus” institui a paz em meio ao caos.
A morte está ali na esquina. Mesmo com toda essa proximidade, encará-la parece ser a única forma de se libertar.
