01 4 Skies 02 Simply Are 03 Illuminated 04 The Prize 05 Personagem 06 Child Prodigy 07 Ridiculously Deep 08 Complicity 09 Invoke 10 Reentry 11 Combustivel 12 Ondina 13 The Prize 14 Privacy 15 Pony 16 Erotic City 17 Invoke 18 Maneiras 19 O Mais Belo dos Belos 20 Garden Wall Of Guitar 21 Illuminated 22 Simply Beautiful 23 Estação Derradeira

24 Wall Of Guitar

Gravadora: Northern Spy Records
Data de Lançamento: 20 de maio de 2014

Zeca Pagodinho eternizou um hino da boemia logo no seu segundo disco, Patota de Cosme (1987), com um timbre que lembra a resignação de um bêbado que passou por poucas e boas na vida. Diversos cantores de botequim agraciaram bebedores de plantão com seus covers de “Maneiras” – inclusive a banda O Rappa mandou uma versão, ao lado de Zeca.

No entanto, uma coisa é certa: ninguém, ninguém mesmo cravou uma versão como Arto Lindsay.

O formato é minimalista, quase sem instrumentação, como bem idealizou o compositor Sylvio da Silva. Mas os poucos acordes de guitarra que jorram são espinhosos, como se o cantor antecipasse uma posterior cirrose.

Ainda mais trôpego do que Zeca jamais simulara, Arto firma uma conexão que somente ele poderia firmar. Na canção há traço da no-wave, que o músico ajudou a formatar com o importante grupo DNA, e parte do toque abrasileirado que deixou fluir em sua carreira.

Essa mescla é mais acachapante na seguinte “O Mais Belo dos Belos”, com sua idônea guitarra Danelectro, de 12 cordas. A faixa do bloco Ilê Ayê ficou bem conhecida na voz de Daniela Mercury, mas no pente fino de Arto passou por uma transfiguração que deixaria qualquer ouvinte de axé horrorizado. ‘Como é que é? Deixa eu curtir o Ilê/O charme da liberdade’. Nessa liberdade há de se encaixar os solos barulhentos de sua Danelectro, sim senhor.

A diferença nas empreitadas sonoras de Arto é bem extrema, por isso o músico optou por dividir em 2 CDs o retrospecto Encyclopedia of Arto, oficialmente lançado dia 20 de maio pela gravadora nova-iorquina Northern Spy Records.

Quando se ouve a voz baixinha toda bossa nova de “4 Skies”, um neófito jamais a identificaria com o mesmo músico que produz o noise industrial de “Garden Wall of Guitar”.

Ao iniciar os trabalhos com faixas aparentemente tranquilas como “Simply Are” e a citada “4 Skies”, o músico puxa uma vertente mais abrasileirada, algo que se tornou fac-símile de sua produção musical entre 1996 e 2004.

Não foi por acaso que ele se aventurou por nossos trópicos.

Antes de estudar na Eckerd College, na Flórida (EUA), cresceu no Recife (PE) e ouviu de Miles Davis a Nelson Cavaquinho. Mudou-se para Nova York, onde testemunhou o embrião da música punk, frequentando shows do Television no lendário CBGB. Em 1978, já tinha sua própria banda, o DNA. Criou um estilo dodecafônico de atingir as notas de guitarra, como se jogasse uma válvula beefheartiana num terreno que o Suicide havia alargado com o importante First Album (1977).

Ao lado de bandas como Mars, James Chance & The Contortions e Teenage Jesus & The Jerks integrou a cena no-wave (não confunda com new wave), muito bem captada na compilação No New York (1978), organizada por Brian Eno.

Sua excelência musical foi aprimorada com as bandas Lounge Lizards e Golden Palominos e alcançaria outros patamares após tocar com John Zorn, até que a colaboração com Peter Scherer o guiou a uma trajetória mais pop – ou, se preferir, menos torta. Com o Ambitious Lovers, a ideia era contrapor Al Green e samba, como o próprio Arto revelou.

Essa foi a ponte para que tocasse com Caetano Veloso no disco Estrangeiro (1989), que reuniu músicos do calibre de Marc Ribot e Naná Vasconcelos. Junto com Scherer, Arto produziu o disco de Caê e até ajudou a compor uma música: “Jasper”.

Todas as canções do primeiro disco foram escolhidas a dedo por Arto Lindsay. No segundo disco, temos o Arto estranho que pavimentou a no-wave.

A partir de O Corpo Sutil/The Subtle Body (1996), o músico deu início à carreira solo. No tempero, Tropicália, pós-punk, no-wave e, claro, pop. De lá vem “4 Skies”, que abre Encyclopedia.

No entanto, se haveria de sugerir um rumo estético, Arto quebrou todas as expectativas com “Complicity”, que inicia Mundo Civilizado (1996). Melancólico, dialoga brevemente com drum’n bass em estranha sintonia com acordes soltos de violão e piano.

Noon Chill (1997), o disco mais elogiado de sua carreira solo, surge em três takes desta compilação: em “Simply Are”, que carrega um refrescor meio Minas Gerais; “Ridiculously Deep”, muito semelhante ao que Caetano explorava na época; e “Reentry”, de pegada bossa nova.

Mas o que impressiona mesmo é a dicção de Arto quando canta em português. “Personagem” tem guitarras funkeadas, mas entra facilmente em um baile dançante de música popular brasileira. “Combustível” é o forró de Lindsay, talvez a faixa que mais o aproxima à cultura pernambucana, lugar onde cresceu.

Todas as canções do primeiro disco foram escolhidas a dedo por Arto Lindsay. No segundo disco, temos o Arto estranho que pavimentou a no-wave.

A versão de “The Prize” apresentada no segundo disco é quase irreconhecível, se comparada à mesma canção que aparece na quarta faixa do primeiro CD. Os acordes crus de sua guitarra a tornam amedrontadora, praticamente sem ritmo. Espécie de niilismo à capela.

“Privacy” é mais explosiva. Exibe uma técnica ímpar de tocar as notas como se estivesse lascando-as, dando a impressão de intuito antimusical.

Uma das principais características do DNA era o curto tempo de duração das músicas. Impactantes o suficiente para impressionar com pouco, faixas como “Size” e Lionel” diferenciavam do trabalho de qualquer outra banda pelo contraponto musical dos próprios músicos envolvidos. Ao lado do tecladista Robin Crutchfield reuniu experimentadores de diferentes escolas musicais: Ikue Mori marcou pela forma assimétrica que tocava bateria, enquanto Tim Wright tinha uma maneira menos errática de comandar o baixo, apesar de ter integrado o doidivanas Pere Ubu.

Mais de 30 anos após dar nova cara à música feita em Nova York, Arto preserva sua técnica, como pode ser visto nos registros ao vivo de “Erotic City” ou mesmo na sincopada versão de “Estação Derradeira”, de Chico Buarque.

Esses caminhos tão díspares seguidos por Arto revelam um músico dominante em dois aspectos: na arte de dar novos rumos à música brasileira e na arte de criar versões tortas de tudo quanto é tipo de cover. Injeta feiura no que é considerado belo demais e traz o improvável ao que, em primeira instância, parece ser certinho e ordenado.