Não perca tempo, ganhe espaço: quebre todos os seus CDs de música.
Parece propaganda agressiva de plataforma digital para adquirir novos ouvintes, mas também pode ser entendido como conselho para evitar que se junte o que, se há 25 anos era visto como revolução na indústria musical, hoje é tido como ultrapassado.
Atualmente, o CD é o formato mais prejudicado quando se fala em ouvir música. Nos últimos 5 anos sua queda foi significativa: de 136,4 milhões de unidades vendidas de janeiro a julho de 2009, despencou para 62,9 milhões no mesmo período de 2014.
No auge da era Pirate Bay e MegaUpload, a justificativa era que os usuários preferiam baixar música de graça do que pagar para ouví-la.
Enquanto uns viam com ceticismo e outros permaneciam crédulos de que seria a forma mais palpável para manter a indústria, o iTunes Store comercializou durante a década de 2000 mais de 6 bilhões de músicas, segundo levantamento da Nielsen SoundScan, consultoria especializada no mercado musical.
A partir de 2009 a Apple decidiu afrouxar as amarras. Permitiu cópias irrestritas de seus arquivos musicais comprados, com a premissa de que “beneficiaria a indústria musical em geral”. Balela: nada mais foi que uma ação oportuna após a Recording Industry Association of America (RIAA) interromper longos processos de internautas que compartilhavam ilegalmente.
Não que esse tipo de download fosse permitido. Por meio de uma parceria com sites de busca, robôs passaram a bloquear nas pesquisas orgânicas alguns blogs e sites com conteúdo de download ilegal. Baixar disco de maneira não autorizada, hoje em dia, é mais difícil que há 5 anos atrás.
Paralelamente a esse cenário cresceu o streaming. Com toda a informação descentralizada da internet, o YouTube possibilitou aos fãs de música (que esperavam horas por um programa televisivo para ver clipes) assistir ao que quiser, quando quiser e quantas vezes quiser. Assim, a MTV morreu aos poucos no País, enquanto ascendia o formato de streaming pago com a chegada das plataformas Deezer, Rdio e, recentemente, o todo falado Spotify.
Com o intuito de salvar um mercado em decadência, o discurso é que a proposta seria viabilizar música para pessoas que “não têm tempo, nem paciência para pesquisar novas tendências e criar suas próprias seleções musicais”, de acordo com Gustavo Goldschmidt, do site de streaming SuperPlayer, que também entrou nessa leva.
Automação de gostos musicais
A dinâmica de interagir com a música mudou, mas não o propósito. É a velha história: a música gera lucro a quem controla os meios de propagação, deixando à revelia quem faz a música.
No meio do caminho, atropelou-se um formato que perdurou durante meio século na indústria: o álbum. Quando se coloca uma música à venda por volta de R$ 0,99, ao invés de vender apenas o disco como um todo (inevitável ao comprar CDs e vinis), você facilita para que o ouvinte adquira a música que deseja.
Comprando uma canção daqui, outra acolá, o usuário forma a playlist que pode ser considerada como ‘álbum particular’, a ser escutada no PC, celular ou qualquer outro dispositivo móvel.
A facilidade de ‘escutar o que quer’ era desejada antes mesmo que a internet tornasse parte de nossos cotidianos. Além de incentivar um acervo físico de CDs e discos, que garantia diversidade para tocar a música que mais tivesse a ver em determinado momento, no seu lugar de preferência, o que chamamos de playlist já fora testado em fitas-cassete, tendo em vista as canções tocadas nos programas de rádio e os sets de DJs.
A tendência é que a seleção musical se torne cada vez automatizada, o que justifica ganhos crescentes dos serviços de streaming, que estimulam a criação e audição dessas playlists.
É uma jogada: a empresa cria um formato de usabilidade através da comercialização de música e rentabiliza com essa iniciativa, através de informações privadas e compartilhadas nas redes sociais.
As vendas de single no iTunes comprovam o aumento da demanda de compras digitais; os sites de streaming criaram estratégias de diferentes experiências de audição, indiretamente revertidas em lucro – isso não apenas em plataformas pagas, como Deezer e Spotify, mas gratuitas, como YouTube.
Fernando Lopes, em artigo do Floga-se, constatou que a experiência de uso estimula o marketing:
“Você vira assinante baseado na facilidade de acesso a esse catálogo, mas assina principalmente pelo catálogo, mesmo que jamais vá ouvir tudo. Ou seja, quanto mais músicas disponíveis, melhor pro ouvinte e melhor como argumento de venda do serviço”.
Quem sai ganhando?
Antes do disco se consolidar no final dos anos 1950, os 7” eram determinantes para que um artista assinasse com uma emissora de rádio. Eles dependiam do single, assim como nos dias de hoje.
A contrapartida é que o rádio é um meio de comunicação de interação passiva, ou seja, necessita da atenção do ouvinte de acordo com a programação manipulada por um profissional.
Por mais que o usuário tenha opção de colocar a música que quiser na hora que quiser, a inserção do single em dados robóticos nessas plataformas facilita a automação. Em poucos cliques a plataforma ‘adivinha’ o que você quer ouvir. (Ganha a maior fatia do bolo o serviço mais assertivo.)
O débito tem sido caro aos artistas. O guitarrista e fundador da icônica banda punk Dead Kennedys, East Bay Ray, apresentou alguns dados:
“O YouTube ganhou US$ 1,2 bilhão de lucro ano passado e pagou aos artistas US$ 577 milhões. Significa que eles ficaram com 66% e dividiram 35% com os criadores. Então, o lucro excedente do YouTube é de US$ 610 milhões, que é o equivalente (tomando como base US$ 50 mil ao ano) ao ganha-pão de talvez 12 mil músicos independentes de classe média que agora se foram”.
O Spotify é um serviço de streaming que repassa cerca de 70% de sua verba às gravadoras, artistas e publishers, por conta de direitos autorais. Pode-se imaginar o quanto de dinheiro deve ter perdido para obter um catálogo de mais de 30 milhões de músicas.
Em contrapartida, por institucionalizar um serviço de crescente aceitação (afinal, quem não gosta de música?), a empresa sueca atingiu valor de mercado de US$ 4 bilhões, mesmo que os royalties por streaming tenham aumentado 33% de custo do ano passado para este ano.
Uma reportagem da Business Week provou que, mesmo com 10 milhões de assinantes, nem Spotify nem qualquer outro serviço de streaming tem condições de se tornar um negócio rentável por longo prazo [tradução livre]:
“Se o Spotify compra os direitos de músicas por uma taxa fixa, em seguida, cada assinante a mais acrescentaria dinheiro livre para a empresa. Mas isso não é o que acontece. Em vez disso, ele gasta uma proporção fixa de sua receita total em royalties. Então, se o Spotify dobra sua base de assinantes, dobra a quantidade de dinheiro que paga. Pode ser que o Spotify ganhe algum poder sobre os royalties que paga, uma vez que possui uma massa crítica de clientes mas, agora, muitas pessoas pensam que nunca poderá chegar à frente de seus custos”.
Modelo insustentável ao artista
Se o novo modelo mercadológico não se sustenta por si só, quem dirá dos artistas que dependem desse modelo para sobreviver?
A resposta é: não existe possibilidade de sobrevivência baseado neste modelo.
Quem se encanta com a possibilidade de ver o seu trabalho chegar a mais ouvintes pode se frustrar com um dado atemorizante: o cantor de folk-rock Damon Krukowski constatou que sua música teria que ser reproduzida 47.680 vezes no Spotify para equivaler a venda de um único disco. Usando o Spotify como base, 1 play rende 0,007 centavos de dólares ao músico.
Ciente de que uma playlist contém faixas de artistas diferentes e que um álbum nem sempre é tocado até o fim, o ganho é irrisório. Lucra o serviço de streaming, pela experiência, qualidade e acervo digital.
E quanto ao ouvinte?
Na teoria, e somente na teoria, os serviços de streaming quitam um débito há décadas mantido pela indústria. A média de R$ 15 mensais por um serviço que lhe coloca à disposição milhões de músicas é bem atrativa, principalmente quando se testa as múltiplas formas de usabilidade (playlists, listas inteligentes, discos de variados estilos).
Só que nossa realidade ainda torna os ouvintes dependentes do ‘wi-fi’ alheio. A capenga tecnologia 4G limita a completa navegação por essas atrativas bibliotecas digitais e o usuário tem que se virar como pode para desfrutar do serviço como um todo.
Tendo em vista o alto valor de CDs e demais formatos físicos, aderir à dinâmica de plataformas de streaming também resulta em um bom negócio para o ouvinte. O cálculo marqueteiro convence: milhões de músicas pelo preço de um CD.
Pelo visto, o único prejuízo acaba sendo do artista. A facilidade das demais partes envolvidas implica em maior dificuldade a quem produz. A independência deixa de ser relegada a uma minoria desfavorecida pelas grandes managers; passa a ser um modelo repensado de encontrar novas formas de faturamento para o artista diante de um modelo que só lhe relega migalhas.
Deve-se tomar cuidado com a afirmação ‘streaming é o futuro’. Essas empresas corporativizaram uma função que há poucos anos atrás não era visto de outra forma, senão gratuita.
Cataram os cacos de uma indústria em derrocada, usando como prerrogativa pagamentos em centavos de direitos autorais.
Se diversos lados saem ganhando, o volume de perda cai no colo do artista. Justo dizer que a eles devem restar os shows, enquanto se precariza em escala industrial o valor de sua obra?
