CD 1 01 Broken English 02 Witches’ Song 03 Brain Drain 04 Guilt 05 The Ballad Of Lucy Jordan 06 What’s The Hurry 07 Working Class Hero 08 Why’d Ya Do It CD 2 01 Broken English (Original Mix) 02 Witches’ Song (Original Mix) 03 Brain Drain (Original Mix) 04 Guilt (Original Mix) 05 The Ballad Of Lucy Jordan (Original Mix) 06 What’s The Hurry (Original Mix) 07 Working Class Hero (Original Mix) 08 Why’d Ya Do It (Original Mix) 09 Sister Morphine (12′ Version) 10 Broken English (7′ Single) 11 Broken English (7′ Remix) 12 Broken English (Long Version)

13 Why’d Ya Do It (12′ Remix)

Gravadora: Island
Data de Lançamento: Versão original: 1979/Versão deluxe: 25 de janeiro de 2013

Rostos bonitos como o de Marianne Faithfull não costumam conter histórias trágicas que envolvem contradições como aristocracia e moradia nas ruas; viagens alucinantes com os Rolling Stones e respeito na cena punk; consumo excessivo de drogas caras e pesadas e a dureza de não ter um puto no bolso. E muito mais coisas que fazem valer a pena a leitura da autobiografia Faithfull: An Autobiography (1994).

De sua estreia como cantora em 1964 até o ponto nevrálgico que a levou a gravar Broken English (1979), vale contar resumidamente o que se passou com a cantora: o empresário dos Rolling Stones Andrew Oldham ficou embasbacado com a beleza da jovem de 17 anos filha de um barão militar britânico e, por impulso, a convenceu a gravar “As Tears Go By”, a primeira composição conjunta de Keith Richards e Mick Jagger.

Aproximando-se do vocalista dos Stones, ela participou ativamente de todas as aventuras junkie do grupo e também aprofundou seus conhecimentos em clássicos dos blues. Mick Jagger diz até hoje que Faithfull era uma ótima companheira para trocar ideias.

A abertura junkie dos anos 1960 a levou a exagerar nas doses de alucinógenos – tanto que ela chegou a ser internada na Austrália por tomar mais de uma centena de Tuinals num hotel. Mick Jagger a visitou no hospital e, ao acordar, sua primeira frase foi exatamente a mesma do refrão de “Wild Horses”, que o vocalista aproveitaria para formar a genial balada de country-rock em Sticky Fingers (1971). (Sticky Fingers também contém uma versão de “Sister Morphine”, que Faithfull também coescreveu. Ela só teria direito aos royalties depois de brigar na Justiça alguns anos mais tarde.)

Depois de se declarar humilhada e negligenciada por Jagger, Marianne foi morar em Dublin para gravar Dreamin’ My Dreams (1977). Até aí ela havia perdido a custódia do filho para o ex-marido John Dunbar em 1970, rompeu com Jagger, tentou se suicidar tomando doses exageradas de heroína e morou por dois anos nas ruas do SoHo, em Nova York.

Veio o disco Dreamin’ My Dreams, todo inspirado na música country com a The Grease Band, mas o grande retorno foi selado com Broken English.

“Eu queria me expressar e despir minhas emoções de uma maneira que nunca havia feito”, disse a cantora em entrevista à UNCUT. “O punk deixou essas opções em aberto pela primeira vez”.

Legal mesmo é perceber os inúmeros entrecruzamentos musicais que ocorreram na época: de alguma forma, fragmentos de cada um deles ressoam em Broken English. Além do cansaço da letargia dos anos 1960 e a agressividade do punk, Marianne trouxe uma atmosfera reggae ao disco (sintomático: ele foi gravado na Island Records, de Chris Blackwell; o mesmo que levou Bob Marley ao mundo), uma melancolia blueseira e uma agressividade lírica que, por mais que fosse autobiográfica por conta das dificuldades que a cantora passou, dialogam (como bem disse o crítico musical Alex Petridis) com a era pré-hip hop. Ouça “Why’d Ya Do It”: ela fala de ‘segurar’ e ‘chupar um pinto’, ‘cuspir no meu ato’. E termina: ‘me sinto melhor agora’. Ouvir Fiona Apple e Cat Power fará maior sentido depois disso.

A faixa-título, que abre o disco, foi claramente inspirada pelo grupo comunista alemão Baader-Meinhof. Não há nenhuma menção a Ulrike Meinhof ou luta armada, mas a menção linguística a Alemanha e Rússia e o questionamento latente e repetitivo ‘O que você está lutando?’ justificam a referência. O baixo meio Joy Division e as repetições de frase colocam a canção num alicerce de influência para a posterior música eletrônica.

“Brain Drain” (letra de Ben Brierley e Tim Hardin) é uma canção toda Faithfull: uma releitura meio reggae de uma outrora aristocrata que não se desvencilhou totalmente do charme britânico. E tem, claro, a vivência cravada explicitamente no primeiro verso: ‘Bom, sei que você está cansado de viver dessa maneira/Nós tentamos nos chapar sem ter que pagar/As paredes estão todas vazias, não é um estado permanente/Apenas me deixe dizer que ainda não é tarde’.

Durante essa época, Faithfull se prestou a fazer alguns covers clássicos, incluindo músicas de James Brown e Cat Stevens. No disco oficial, a única que entrou mesmo foi “Working Class Hero”, de John Lennon (que a considerou a melhor versão de sua música). A guitarra de notas estáticas de Barry Reynolds criam momentos de tensão que são quebrados com notas abertas, que soam como marteladas em sentido de alerta para o ouvinte.

Na versão deluxe de Broken English, oficialmente lançado em janeiro deste ano, a única faixa inédita foi um cover – mas um cover que ela ajudou a escrever. A canção é “Sister Morphine” que, ao contrário da versão acústica dos Stones (que só é salva pela guitarra lamuriosa de Keith), ganha um contorno que distorce o ritmo do reggae. Você acha que ela vai embalar em um ritmo, e magistralmente Reynolds e Joe Mavety a deixam reticente com suas guitarras. Para dar linearidade musical à canção, o baixo de Steve York e a bateria de Terry Stannard dão o tom rítmico.

Se por um lado não há tantas faixas inéditas nessa versão deluxe, por outro o álbum revela que Broken English está longe de ser um disco que se salva pela produção.

Revelando todos os takes originais das canções, o disco mostra que o vocal doído e meio arrastado de Faithfull é o verdadeiro sustento do trabalho. Há um caminhar por outros gêneros, como uma versão mais crua de “Witches’ Song”, o funk que permeia o mix original da faixa “Broken English” e o belo soul dançante que se ouve na versão alternativa de “The Ballad of Lucy Jordan”. De alguma forma, Marianne está emocionalmente despida. E, quando parece que isso não acontece, o que se sobressai é a beleza indistinguível de sua voz. Ou seja: bonita, agraciada, digna de uma boa cantora. O que surgiu (empírica e musicalmente) no meandro de tudo isso é mero complemento que lhe trouxe ganho artístico.

Ainda hoje, aos 66 anos, Marianne Faithfull continua na ativa. Seu último disco de estúdio foi gravado em 2011, com o título Horses and High Heels. Antes disso, gravou com Nick Cave, PJ Harvey, Tom Waits, Metallica, entre outros.

Muito se diz que Broken English ainda é o seu melhor disco, o que até pode ser verdade. Mas a impressão que tenho é que muitos não deram a devida seriedade aos demais trabalhos.

Portanto, sugiro o seguinte: deixe Broken English na cabeceira, mas veja esta versão deluxe como uma boa oportunidade de se aprofundar sem receios na rica e complexa obra musical de Marianne Faithfull.