Gravadora: Columbia
Data de Lançamento: 30 de setembro de 2016

Comprar vinil pela Amazon

A música de Solange Knowles difere bastante da de sua irmã famosa, Beyoncé.

Solange é adepta a um R&B mais elástico, com melodias que parecem extraídas de um sonho que não distingue utopia de distopia, uma alucinação da vida real em timbres e texturas, enquanto Beyoncé, em seu eterno compromisso com a música pop, é mais adepta ao papo reto, embora as simbologias tenham cada vez mais feito parte dessa interlocução direta com a audiência.

Isso não quer dizer que elas não dialoguem uma com a outra. De fato, o 3º disco de Solange, A Seat at the Table, está correlacionado à Lemonade, mas não de um jeito óbvio. Pesa a árvore genealógica (‘my daddy Alabama mama Louisianna’, lembram?), mas o grande debate é centralizado na raça e em um tipo de feminismo mais empírico que combativo – ainda que o debate sobre feminismo seja mais agudo na obra de Beyoncé, devido ao largo alcance de sua obra.

Expandindo fronteiras

A atmosfera mais leve de A Seat at the Table figura facilmente na classificação indie, e se Solange não curte muito esse rótulo, bom, não deixa de ser um desperdício. Pois ela, assim como Blood Orange e Kelela, tem expandido as fronteiras e a audiência do R&B de uma maneira pouco convencional, captando parcela do mesmo público que ouve Arcade Fire e Wilco em seus serviços de streaming.

Não que ela seja superior aos muitos de seus antecessores; é que Solange põe em meio-termo muitas das melhores descobertas do gênero nas últimas década, tais como D’Angelo, Erykah Badu e Janelle Monáe.

A Seat at the Table tem um teor agudo de manifesto como o ‘irmão’ Lemonade. Solange permite-se quebras durante as músicas, impondo diversos interlúdios que ajudam a complexificar seus objetivos.

É bem valiosa a contribuição da mãe Tina Knowles, em “Interlude: Tina Taught Me”: ‘Porque você celebra a cultura negra não quer dizer que você não goste da cultura branca, ou que está diminuindo-a. Apenas tenha orgulho disso (…) Oras, tudo aquilo que aprendemos é história branca. Então, por que ficar irritado com isso?’, questiona.

O interlúdio antecede “Don’t Touch My Hair”, em que todos os sentimentos e a alma são carregados a partir do que outros veem como estigma. 

Os cabelos naturalmente encaracolados de Solange também lhe dão apoio poético para que “Cranes in the Sky” exemplifique seus esforços de tentar fugir de ‘nuvens metálicas’ – ou seja, construções de edifícios gigantes, como se aquilo fosse parte de algo maior que comprime e danifica os menores. ‘Viajei por 70 estados/Achei que vagar por aí fosse me deixar melhor’. (Dado o contexto, podemos imaginar que vai muito além dos motivos que a fizeram dar uns pontapés em Jay Z num elevador.)

*Inscreva-se no nosso canal do YouTube e acompanhe mais vídeos sobre música

Storytelling

Das 21 faixas, 8 são interlúdios de menos de 1 minuto de duração. Não é uma estrutura mercadologicamente apreciada, mas, segundo Solange, a percepção de que a história era mais valiosa que o formato convencional de álbum foi o que a motivou a compor A Seat dessa maneira.

Ela credita isso a duas influências: o músico e manager Master P; e a influência do livro Citizen: An American Lyric, de Claudia Rankine (de 2014). “Claudia deixa algumas coisas para a sua própria interpretação, embora seja muito direta”, explicou Solange à revista The Fader. “Me identifiquei muito com essa característica. Quero que as pessoas tenham uma experiência personalizada, mas quero que meu papel seja bem claro nisso”.

Participações notáveis não faltam no disco: um Lil’ Wayne sentimental soa valoroso em “Mad”. The-Dream, famoso por escrever muitos hits de Beyoncé, é apenas um dos muitos elementos que fazem de “F.U.B.U.” uma canção incrível. Nela, a contenção de beats e os efeitos cristalinizados abrilhantam ainda mais o canto de Solange, cativante por nos levar a um sentimento de proximidade conosco mesmo.

A contemporânea Kelela é valorizada no dueto “Scales”: batidas lentamente desconstruídas se mantêm numa cadência quebrada e, ao mesmo tempo, sexy. A força que as duas têm de fazer com que o ouvinte abstraia é potencializada: ‘Então, se os sonhos vão assim tão longe/Chegarão aonde você está’. Difícil é não sair convencido disso.

Outros lançamentos relevantes:

Danny Brown: Atrocity Exhibition (Warp)
Van Morrison: Keep Me Singing (Caroline)
Marianne Faithfull: No Exit (Ear Music)
Luísa Maita: Fio da Memória (Tratore)
Pixies: Head Carrier (Pixies Music)