
A Sony anunciou hoje que vai parar de comercializar walkmans. Pode não ser uma notícia tão arrebatadora, já que outras empresas apropriaram-se da tecnologia para lançar gadgets mais modernos e atrativos, como é o caso do iPod. No Japão, a empresa ainda mantinha uma linha de produção do aparelho, talvez para angariar vendas dos mais saudosistas, que aos poucos vêm se rendendo aos novos aparatos.
Uma coisa não podemos negar: o aparelho mudou drasticamente a forma de como se ouve música. Se antes os ouvintes tinham costume de ouvir em casa ou em festas com amigos o novo som daquele grupo favorito, o walkman trouxe um novo paradigma: por que escutar música junto com um monte de gente sendo que posso muito bem escutar sozinho? Noutras palavras, criou-se uma cultura do isolamento. Ouvir música virou uma fugacidade, a alternativa de se desligar por alguns minutos do cotidiano que queremos evitar.
Outro fator também deve ser levado em consideração com a popularidade do walkman: a música em si deixou de ser centralizada em poucos artistas. Com o estímulo à individualidade, as pessoas se arriscaram a ouvir canções mais próximas ao seu gosto, sem deixarem-se influenciar tanto pelo fanatismo coletivo. Claro que isso é uma faca de dois gumes: pode ter dado mais amplitude ao mercado fonográfico, como pode muito bem não ter influenciado em nada.
Quando a Sony desenvolveu o primeiro walkman em 1979 a pedido do dono da empresa (que queria escutar ópera enquanto trabalhava), aproveitou um ótimo momento do ‘boom’ fonográfico. Com o lançamento da fita cassete em 1969 pela Philips, esse novo mercado representava cerca de 1/3 das vendas de música gravada. E a portabilidade só fez esse número aumentar ainda mais.
Porém, enquanto o LP promovia o trabalho do artista em si, as fitas cassete fragmentavam a produção musical em faixas separadas. Muitos artistas caíam no esquecimento com essa nova estratégia e só eram lembrados mais pelos hits, pelas músicas isoladas. Afinal, ao fazer a nossa ‘playlist’, damos prioridade às canções que gostamos, não à obra artística de determinado músico – pelo menos na grande maioria dos casos.
Em um artigo científico, o professor do Curso Superior do Audiovisual da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), Eduardo Vicente, afirma que a fita cassete impulsionou o mercado de forma estrondosa, tornando a música mais acessível em regiões periféricas. “O cassete abriu possibilidades inéditas para a produção musical em regiões periféricas. (…) Caracterizou-se, assim, uma situação na qual o aparato tecnológico foi decisivo na criação das condições necessárias para o desenvolvimento da indústria. E, mesmo em grandes centros urbanos, um efeito desse tipo pôde ser sentido, já que a fita cassete possibilitou também a produção e distribuição musical independente de segmentos marginais desses mercados como, por exemplo, o do rock alternativo”.
Os LPs caíram bruscamente em vendas a partir dos anos 1980, e parte dessa queda pode ser atribuída ao walkman. No Brasil, foi um pouco diferente. Somente com o Plano Real, em 1994, a comercialização de walkmans teve um aumento significativo, graças à estabilidade econômica que deu impulso ao consumo.
Com a popularidade cada vez maior das fitas cassetes, a prática de ouvir LPs virou algo saudosista; só quem gostava mesmo ouvia. Alguns grupos investiram em criar álbuns conceituais, para não caírem na desgraça da superficialidade que o mercado vivia estimulando para ganhar mais e mais dinheiro.
E ainda hoje a música depende dos frutos mercadológicos colhidos pelo walkman. Por mais que a fita cassete tenha ficado presa ao passado – devido aos avanços tecnológicos que permitiram ouvir música através de arquivos mp3 – os singles ainda são a melhor porta de entrada para alavancar a carreira de um músico em particular.
Agora, se eles vão ou não resistir ao tempo, só a História pode definir.
