Lirinha dissolveu o Cordel do Fogo Encantado e seguiu outros rumos (foto de Caroline Bittencourt)

Ah, se não fosse o amor pela música. Essa é a justificativa crucial e implacável para entender por que o vocalista Lirinha, ex-Cordel do Fogo Encantado, decidiu dissolver o grupo que expandiu o regionalismo da literatura de cordel pelos cantos mais cults das metrópoles para abraçar o underground de vez.

Seja passeando pelo punk rock, revisitando o manguebit, revirando a literatura de cordel e dando sentidos extremos a personagens improváveis, Lirinha se encontrou nos eixos na desafiadora caminhada de se autoreciclar.

Claro que para fazer isso direito ele contou com uma seleção excepcional de músicos: Pupillo (baterista do Nação Zumbi) assina a produção e toca no primeiro trabalho solo de Lirinha, intitulado Lira. Bactéria, do Mundo Livre S/A, toca teclados e o guitarrista Neilton, da banda de punk-rock recifense Devotos, também participa do disco.

O primeiro grande espanto – no sentido positivo da coisa – é se deparar com a segunda faixa, “Sistema Lacrimal”. Neilton se inspira nos riffs de Lou Reed e teletransporta o grupo lá para o início da década de 1970, nos belos tempos dos discos Loaded e The Velvet Underground. “Pupillo também tocou uma bateria em pé, claramente inspirado em Velvet Underground”, contou Lirinha à revista Rolling Stone.

“Sistema Lacrimal”

“Ela Vai Dançar” é tão obscura como qualquer balada no CBGB deveria ser, com o diferencial de colocar personagens mais carismáticos que querem se ‘desfazer da dor de quarta-feira’. O solo da guitarra microfônica de Neilton faz paralelo com as inspirações mais retalhadas de um Thurston Moore irascível – verve que renasce com brandura em “Electronica”.

O pernambucano Lula Cortês, que faleceu neste ano, toca tricórdio (espécie de cítara marroquina) e cria um clima agreste psicodélico no instrumento que ele mesmo inventou em “Adebayor”, que cria imagens inusitadas como uma ‘casa no ar sem levar nada do chão’. Naturalmente, vem à cabeça a animação Up – Altas Aventuras. Só que Lirinha vai ainda mais além e soa como um jovem que está descobrindo o amor aos poucos, ainda que lampejos maduros sejam extraídos dos devaneios do personagem: ‘Sei que a felicidade é conselheira da sorte’, chega a cantar.

Jorge Du Peixe, também do Nação Zumbi, contribui com os vocais em “Sidarta”, faixa que celebra a vida mesmo em situações adversas como a fome e a miséria, citando o primeiro nome de Buda. “Se é pra viver/É pra morrer/Se é pra morrer/Viveremos”. Nesta faixa, Fernando Catatau (Cidadão Instigado) toca violão com cordas de aço, que dão sobreposição à faixa.

Ângela Rorô e Otto contribuem com seus vocais imperativos na faixa “Valete”, que usa a carta de baralho como simbologia de uma paixão que se esvoaçou.

Seja passeando pelo punk rock, revisitando o manguebit, revirando a literatura de cordel e dando sentidos extremos a personagens improváveis, Lirinha se encontrou nos eixos na desafiadora caminhada de se autoreciclar. Deve ser o amor mesmo.

Para fazer o download do disco homônimo de Lirinha, visite seu site oficial.