
Banda de Pernambuco é jovem. O integrante mais velho tem apenas 22 anos
Existe uma particularidade que fica evidente cada vez que grupos pernambucanos participam de uma nova cena musical. É como se fosse algo simétrico, que os distinguisse de alguma maneira de tudo o que vem acontecendo mas que, ainda assim, tem alguma ligação com outra banda da mesma região. Ouça A Banda de Joseph Tourton e você saberá o que estou dizendo.
No som instrumental do grupo jovem – em que o integrante mais velho tem apenas 22 anos – vemos borbulhar influências do manguebit antenado de Chico Science à surf music particular do Mombojó, numa cena onde dominam grupos como Macaco Bong (Cuiabá, MS), Pata de Elefante (Porto Alegre, RS) e Retrofoguetes (Salvador, BA).
A brasilidade que une todos esses grupos está lá, mas ainda assim vemos que o tom pernambucano prevalece em certas composições do grupo.
Por mais que aquele riff certeiro do rock permeie no som d’A Banda de Joseph Tourton, as colagens de rockabilly, ska e música ambiente formam uma particularidade que poderia muito bem isolar a banda dessa cena emergente. Os membros – Diogo Guedes (Guitarra e efeitos), Gabriel Izidoro (Guitarra, escaleta e flauta transversal), Rafael Gadelha (Baixo),
Pedro Bandeira (Bateria) – buscam a descontração no momento de compor os temas, mas dá pra sentir umas pitadas de rock progressivo com o clima surf music.
A Banda de Joseph Tourton tem repertório variado, que vai de trilhas de cinema fictício a músicas do cangaço nordestino
Uma certa mistura de Dick Dale em tons orquestrais com os acordes mais pungentes do Pink Floyd. Ou, como disse Alex Antunes no release do disco de estreia da banda: “o encontro de um King Crimson que gostasse de usar escaleta com algum arranjador maroto de samba rock”.
Recentemente, o grupo lançou e disponibilizou na rede o disco homônimo, com claras influências de bandas modernas como o Tortoise (algo bem lembrado por Victor Caputo, do Move That Jukebox). A pegada jazz é intensa, remetendo ao fusion moderno de artistas que fazem valer o movimento, tal qual Cindy Blackman e os noruegueses do Jaga Jazzist.
Ainda que canções como “A Festa de Isaac” e “Aquaplanagem” transbordem complexidade pelas sensacionais viradas de ritmo, passando por rock experimental ao soft jazz com o compasso da bateria de Pedro, A Banda de Joseph Tourton exibe repertório o suficiente para remeter, em uma só faixa, gêneros desconexos como trilhas de cinema fictício e músicas do cangaço nordestino. Misture Cidadão Instigado, Milestones (Miles Davis), Robert Fripp e um pouquinho da psicodelia do Quicksilver Messenger Service; é algo parecido com isso.
A flauta transversal oferece um contraponto interessante no som da banda, por forçar um suposto relaxamento em meio a uma jorrada de instrumentos que investem no peso, reflexo da testosterona vigente na sonoridade do grupo – vide a enigmática “Lembra o Quê”. Com patrocínio da Petrobras, o disco foi produzido por membros do Mombojó, grupo que decididamente mesclou a doçura da flauta com o vigor regionalista de Pernambuco.
Das despretensiosas incursões sonoras aos títulos esfuziantes e estranhos das canções do disco homônimo, A Banda de Joseph Tourton une sons de vanguarda e colagens musicais, tudo impulsionado pela simples vontade de tocar.
Ouça abaixo o álbum homônimo na íntegra:
