
M.I.A. – /\/\ /\ Y /\
[rating:3.5]
Ao mesmo tempo que é rodeada de bajuladores, Maya Arulpragasam (M.I.A.) também coleciona desavenças. A cantora jamais ingressou em uma aula de canto ou aperfeiçoou sua habilidade em algum instrumento específico: viu na música o campo ideal para disseminar sua revolta contra o autoritarismo, a pobreza, a exclusão social e outras mazelas das quais vivenciou bem quando passou sua infância e adolescência no Sri Lanka.
Ela é barulhenta, polêmica e não mede as palavras para defender sua causa. Desde o lançamento de Arular, em 2004, suas experimentações sonoras e letras claramente politizadas (tantas que chegavam a ser panfletárias) estremeceram o hype, dividiram opiniões e até hoje permanecem como verdadeiras incógnitas do mainstream.
Munindo sons distintos que vão do hard rock ao funk carioca, M.I.A. se destaca por ter se tornado uma produtora musical arguta, vívida e cheia de energia. Em seu terceiro álbum, /\/\ /\ Y /\, os efeitos eletrônicos simulam o mesmo peso dos trabalhos anteriores, criando uma atmosfera que oscila entre dance music e referências regionais. “Teqkilla” é repleta de vozes obscuras que tornam a canção quase inaudível, como se fosse produzida sob o efeito da bebida alcoólica nas madrugadas mais obscuras das baladas.
O reggae também torna-se alvo de M.I.A.: em “It Takes A Muscle”, a fera parece dar uma amansada após as durezas de ‘cair no amor’, como diz o refrão. Em relação aos outros álbuns, Maya está mais melódica, ainda que resquícios de sua fissura por sonoridade esquisita e bem barulhenta tenha se tornado praticamente onipresente em todas as 16 faixas.
O radicalismo da cantora de origem tâmil é bem explícito, tanto política quanto musicalmente: afinal, se você não gosta de música experimental, alta, soando como se fosse um holofote, não ouça M.I.A. Simples assim. E, por mais que isso tenha lhe garantido prestígio internacional, em um contexto generalizado ela é apenas mais uma artista que mistura música, misturando excentricidade e flashes de genialidade em seu trabalho.
Apesar de tudo, /\/\ /\ Y /\ é o trabalho mais maduro da cantora. As bases estão mais poluídas em faixas como em “It Iz What It Iz” (hip hop andrógino demais) e “Story To Be Told” (videogame, psicodelia e techno), mas estão mais próximas possíveis às idiossincrasias beligerantes da cantora.
“Born Free” é a melhor canção do álbum pelas percussões aceleradíssimas e a voz de M.I.A. surgindo de um walkie-talkie remoto vociferando contra as imposições militares. A canção ganhou um vídeo de mais de 9 minutos, com direção do cineasta francês Romain Gavras, que relata a crônica de uma guerra entre brancos.
“XXXO” tem uma base eletro-funk que critica o imponente desejo masculino de só procurar a sexualidade (literalmente) das mulheres, “Space” deixa a voz de M.I.A. mais audível aos ouvintes e “Believer” é sampleada com uma bateria meio jazzística e efeitos sutis nos versos. (Este álbum não tem quase nenhuma referência ao funk carioca – ainda bem! – ao contrário de Arular e Kala, que chegam até a abusar.)
Em poucas palavras, /\/\ /\ Y /\ é o melhor trabalho de M.I.A. por mostrar que sua agressividade pode ser redefinida com sonoridades menos rígidas e produzidas de forma mais elaborada, sem perder o vigor ou a beligerância ativista de suas letras.
Ouça, abaixo, o álbum na íntegra:
ERRATA:
• Como o comentarista Raphael mencionou, M.I.A. é uma cantora de origem tâmil, e não singalesa, como estava anteriormente.
