Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 14 de outubro de 2016
Pelo menos desde 2013, quando completou-se 10 anos da morte de sua morte, falava-se de um disco póstumo de Sabotage. Três anos e meio depois, o produtor e parceiro do rapper, Daniel Ganjaman, entrega o que promete.
O álbum homônimo, Sabotage, é um disco vívido: parece que o trovador do Canão está entre nós. Isso foi algo já pensado desde o início do projeto. Ganjaman, que retrabalhou as composições com a ajuda dos membros do Instituto, disse à Rolling Stone que a premissa para chamar os convidados era bem clara: só podia participar quem realmente era colaborador de Sabota em vida, ou quem ele explicitamente admirava.
E aí entram os caras do RZO, que o ajudaram a se livrar do mundo das drogas e trazê-lo ao rap. Só DJ Cia produz três faixas, incluindo “País da Fome: Homens Animais”, a faixa em que o rapper leva sua narrativa para um nível mais dramático, pincelando de cinza a crônica de uma realidade tão dura quanto concreto. (As outras duas são “Míssel” e “Quem Viver Verá.)
Sandrão surge na última faixa, “Míssel”, um thriller que parece musicar uma Blaxploitation futurista com os arredores da antiga avenida Espraiada como epicentro de uma civilização deteriorada, um Distrito 9 adaptado no centro urbano do país. (Quanto a Helião, aparece em samplers nessa música.)
A produção de Sabotage desobedece quaisquer esquemas lógicos de uma obra de rap nacional. É possível abstrair uma linha evolutiva com Violar (2015) – recente disco do Instituto que, inclusive, tem uma inédita de Sabotage: “Alto Zé do Pinho”.
Ao contrário de obras póstumas que imaginam um campo de decisão do artista em questão (tipo Xscape, do Michael Jackson), Sabotage carrega a filosofia de um homem multitarefas que funcionava como uma esponja de alta precisão, que absorvia na mesma ligeireza que devolvia algo novo. (“Vinha de múltiplas fontes a informação para produzir as canções. Ele lia muito, lia de tudo”, revelou o biógrafo de Sabotage, Toni C., ao Na Mira. “Ele produzia com duas TVs ligadas, rádio ligado, conversando com pessoas. E escrevia, andava com papel no bolso, conversava…)
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G. Álbuns: Sabotage | Rap é Compromisso (2000)
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É óbvio para qualquer fã que acompanha a trajetória de Sabota que um trabalho como Rap é Compromisso (2000), por mais influente que fosse, não se repetiria. O elo está nas letras, mas somente porque ele ainda estava em processo de maturação pouco mais de dois anos após estourar com o disco de estreia. “Homens Animais” é o exemplo mais agudo da evolução enquanto compositor, mas é possível encontrar traços de novas diretrizes musicais em “Maloca é Maré”, numa pegada meio samba de boteco entre atabaques e ranhuras eletrônicas. O refrão dela é envolvente, e a colaboração de Rappin’ Hood e Funk Buia ajudam a tornar a fusão com o rap agradável, pras pistas, memorável.
Outra ruptura que os produtores ousaram capitanear diz respeito ao clima predominante. Por mais que as letras falem de personagens e tristes histórias da favela do Canão (em São Paulo), as bases e construções estéticas miram uma mensagem, ou um fim otimista. Isso é algo do próprio Sabotage também, como fica claro em “O Gatilho”, com saudosa ode de BNegão e backing vocals de Céu: ‘Com paciência você consegue vencer/Com consequência, você só vai se submeter‘.
É com a certeza de nos garantir um sorriso no rosto que Sabota entrecorta, polemiza e é adornado por instrumentais arrebatadores em singles com a potência injetada ao máximo, como é o caso de “Sai da Frente” (com Instituto) e “Quem Viver Verá”, onde divide com Dexter o som pesado de salão.
As duas faixas iniciais formam o extremo estético das andanças musicais de Sabota. Primeiro, o dubstep fraturado de Tropkillaz (de Zegon, que já produziu ele) em “Mosquito”. Logo em seguida, o trap se rende aos riffs em “Superar”, onde o rapper cita “Superstar”, do RZO, e faz o chicote estalar num som talvez impensável para o rap nacional lá pros idos de 2003. Se ele encurtaria esse caminho, é mais uma das muitas conjecturas que fazemos sobre a definitiva partida de Sabotage. Sobre esse ponto, o álbum póstumo nos traz uma abordagem surpreendente do quanto perdemos desde o fatídico 24 de janeiro de 2003.
