Gravadora: A&M Records/Polygram
Data de Lançamento: 1976
Não fazia nem uma década que Milton Nascimento tinha lançado o primeiro disco, quando foi convidado pelo saxofonista Wayne Shorter – que fez sucesso na banda de fusion Weather Report depois de integrar o segundo grande quinteto de Miles Davis – para gravar Native Dancer (1975).
O disco foi materializado depois que Shorter excursionou pelo Brasil e foi importante para que o mineiro ganhasse, pela primeira vez, reconhecimento internacional.
Disse Wayne Shorter sobre o disco ao Estadão:
“Gravamos o disco em uma semana, e tudo demorou 10 dias, entre produção e mixagem. Eu me lembro que foi pouco antes do Natal de 1974. Minha mulher me falava muito de Milton, e eu o tinha encontrado no Rio. Eu o chamei e ele não hesitou, veio com sua banda. (…) O disco é importante porque mostra como aproximar duas visões da música sem que nenhuma delas seja submissa à outra. Nós não queríamos que Milton imitasse o jazz, e eu não conseguiria imitar o Milton. Conseguimos fazer algo muito complementar”
O disco Milton (Raça) seria o compositor ‘devolvendo’ essa parceria, mas num grau bem menor. O crítico Robert Palmer observou: “Milton absorve seus colaboradores musicais de forma muito fácil, como fez com Wayne Shorter [em Native Dancer]”.
Isso não foi algo exclusivo ao jazzista – e não é algo feito por maldade. Seu “alto tenor líquido” (Palmer) desperta mistério e esconde influências espirituosas que vão de Dorival Caymmi a John Coltrane.
Em Milton (Raça), Shorter contribui com notas pontuais do sax-tenor e que fluem como correntes marítimas num intenso lago musical. Permanece a sonoridade do Clube da Esquina, erigida pelos companheiros Toninho Horta (guitarra), Robertinho Silva (bateria) e Novelli (baixo). O virtuoso Wagner Tiso não colabora aqui mas, em seu lugar, entra um certo Herbie Hancock, ao lado do uruguaio Hugo Fattoruso que, além de piano, toca órgão. O trombonista Raul de Souza, internacionalmente reconhecido, também dá mais corpo às canções.
[pullquote]Apenas duas faixas de Milton (Raça) eram então inéditas: a instrumental “Francisco”, espécie de mantra que conecta Minas e Amazonas; e “Raça”, composta ao lado do poeta Fernando Brant, do Clube da Esquina[/pullquote]
Milton Nascimento adapta algumas faixas de seu repertório para o inglês. “Cadê” vira “Fairy Tale Song”, ganhando arranjos mais intensos de cordas e delineações pausadas de Shorter.
A espiritual e instrumental “A Chamada” torna-se “The Call” e é tomada pelas notas de Toninho e os vocais místicos de Milton, em colaboração com Maria de Fátima. Não era necessário que os demais interferissem, vide o tom meditativo do tema.
“One Coin”, tema do documentário de Tostão, não tem aquela dinâmica fluente de Tiso, mas parece flertar com outros ritmos a partir da bateria de Robertinho.
Mas, das canções em inglês, Milton surpreende mesmo é em “Nothing Will Be As It Was”, uma das grandes joias do clássico Clube da Esquina (1972). Aqui ela ganha mais dinâmica, pois é a faixa em que os músicos estão mais desenvoltos: a entrada de Shorter, que vai pelo blues, é fenomenal, principalmente quando dialoga com Hancock (que já trabalhou com o saxofonista no grupo de Miles). E Milton, claro, Milton… canta como se o inglês fosse sua língua nativa.
O compositor quis que as duas últimas faixas do disco fossem de Clube da Esquina. “Saídas e Bandeiras (Exits and Flags)” forma uma cozinha que parece vir de uma banda avant-garde, enquanto “Os Povos (The People)”, que encerra o disco, enfatiza a tonalidade quase divina da voz de Bituca. Cristalina e serena, a voz de Milton parece nos levar aos lugares mais misteriosos, de um Brasil que não conhecemos, mas sentimos.
Apenas duas faixas de Milton (Raça) eram então inéditas: a instrumental “Francisco”, espécie de mantra que conecta Minas e Amazonas com densa carga lírica; e “Raça”, a primeira faixa, composta ao lado do poeta Fernando Brant (que morreu recentemente).
“Raça” é terreiro e jongo, regional e transcontinental. Ele cita Clementina de Jesus, uma de suas influências, e passa como um vendaval anunciando boas notícias: ‘É um lamento, um canto mais puro/Que me ilumina a casa escura/É minha força, é nossa energia/Que vem de longe prá nos fazer companhia‘.
Milton (Raça) não é o melhor, nem o álbum mais essencial do cantor, mas permanece como justificativa de sua adoração e espécie de servilismo musical por parte de alguns dos mais importantes jazzistas daquele momento. Shorter, Hancock e Souza só dão início a uma lista que incluiu, posteriormente, Pat Metheny, Ron Carter, Peter Gabriel, Esperanza Spalding…
