Pode-se dizer que 2018 foi um ano bom para vários gêneros: o rock tomou de assalto sua força política, o rap tem se mostrado cada vez mais diverso (embora o Brasil esteja bastante influenciado pela ‘cultura da lacração’, com Baco Exu do Blues como exemplo) e o pop tem saído da superficialidade em busca de representar discussões importantes, consideradas tabu há não muito tempo.

Diferente da lista dos melhores discos de 2018, com detalhes de cada posição, resolvemos ser mais enxutos na descrição das melhores músicas, destacando as 10 primeiras posições – como você pode conferir abaixo.

E, claro, como não poderia deixar de ser, temos playlist especial em nosso perfil no Spotify, para você conhecer e incluir algumas delas na sua seleção. Confira:

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30. Gilberto Gil: “OK OK OK”

Opinião, concordância, discurso… detalhes que pautaram a abordagem (e as tretas) em um ano de eleições conturbadas.

29. Migos: “Stir Fry”

28. Sudan Archives: “Nont For Sale”

27. Clara Anastácia: “Anastácia”

26. Elvis Costello: “Someone Else’s Heart”

25. Pangaea: “Proxy”

24. The Carters: “BLACK EFFECT”

O amor, a negritude, a riqueza… Tudo lindo!

23. Ronei Jorge: “O Inferno é Você”

22. Goat: “Let It Burn”

21. Peggy Gou: “It Makes You Forget (Itgehane)”

Eletrônica nostálgica delicinha… Cor e alegria para as pistas.

20. Jorja Smith: “I Am”

Jorja Smith lançou um disco incrível, mas esta música da trilha de Pantera Negra é outro nível.

19. Tropical Fuck Storm: “You Let My Tyres Down”

18. Cardi B: “I Like It”

Pensei em colocar “Money”, que saiu como single avulso… Mas “I Like It” é melhor, mais viciante e tá lá no badalado disco de estreia de Cardi B.

17. João Ferreira: “Multiser”

16. Toinho Melodia: “Filosofia do Morro”

Candeia do século XXI.

15. Meek Mill ft. Rick Ross & JAY-Z: “What’s Free”

Que retorno hein, Meek!

14. U.S. Girls: “Velvet 4 Sale”

13. Kassin: “Relax”

12. Devasto ft. Rincon Sapiência, BK, Rael, Emicida, Djonga & Mano Brown: “O Céu é o Limite”

Com uma banca dessas, difícil dar errado…

11. Travis Scott ft. Drake: “SICKO MODE”

A pancada rap do ano – ou a música que ensinou como é possível criar diferentes viradas a partir de uma ideia só.

10. “King’s Dead”

Kendrick Lamar ft. Future, Jay Rock & James Blake

Gravadora: Interscope/Aftermath/Top Dawg Entertainment
Data de Lançamento: 11 de janeiro de 2018

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Três rappers de diferentes escolas: Jay Rock tem um esquema de repetição de versos que se assemelha a J Cole, mas picos que o aproxima a Busta Rhymes no quesito velocidade; Future é uma das figuras mais marcantes do trap, num misto de sensual e psicodélico; e, por fim, Kendrick Lamar, que vai da suavidade do gancho musical à agressividade dos minutos finais.

A produção de James Blake é o eixo que conecta os três músicos  – embora ele mesmo seja improvável em todo esse esquema. Em um ano em que muitos se confundiram com as transições de “SICKO MODE”, “King’s Dead” já tinha dado uma baita aula de como fazer transições melódicas e alterar completamente estruturas de rimas.

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9. “Modern Music”

Dick Stusso

Gravadora: Hardly Art
Data de Lançamento: 2 de março de 2018

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Temos que estar de bem com a vida porque para tudo existe uma alternativa, uma cura, uma forma de lidar. Viver em tempos modernos é saber que a informação está a um palmo de distância, portanto, só nos resta aproveitar a vida. Em “Modern Music”, essa já é uma verdade aceita, porque tudo o que queremos é ‘bons momentos – comigo incluso‘, como canta Dick Stusso no single mais memorável de In Heaven.

Dick não esconde que sua noção de moderno tem a ver com o lado obscuro da vida, e faz questão que a produção fantasmagórica e cada dedilhado nas cordas de guitarra tenham o peso da solidão. “Modern Music” cita palácios, sentimentos e ‘sonhos que são prisões’, mais com a intenção de sair desse ciclo social vicioso do que confrontá-lo.

Leia também: Crítica do disco In Heaven, de Dick Stusso

8. “Make Me Feel”

Janelle Monáe

Gravadora: Wondaland/Bad Boy Entertainment/Atlantic
Data de Lançamento: 22 de fevereiro de 2018

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A primeira impressão ao ouvir “Make Me Feel” é que Janelle Monáe copiou descaradamente Prince. E, pelo que a cantora revelou, ela chegou a ter aprovação do Púrpura. Mas é na repetição que a música melhora: Janelle trabalha diversos formatos vocais, bagunça guitarras e chama para dançar como poucas músicas atuais têm conseguido.

Autenticidade é palavra-chave de Janelle desde que ela surgiu com o clipe de “Tightrope”, e “Make Me Feel” consegue o brilhante efeito de comunicar isso em uma linguagem pop. ‘Sou poderosa‘, regozija a cantora antes de entoar o refrão. E, o melhor de tudo, é que ela faz com que o ouvinte também se sinta poderoso, após uma boa injeção de autoestima e inspirados passinhos na pista.

Leia também: Janelle Monáe e a sinceridade andrógina de Dirty Computer

7. “Boca de Lobo”

Criolo

Gravadora: Oloko Records
Data de Lançamento: 30 de setembro de 2018

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Os músicos brasileiros têm pegado gosto por flautas, mas o background por trás de “Boca de Lobo” é mais sério e triste do que ‘bum bum tam tans’. Após o namoro com a MPB e o comprometimento com o samba, Criolo retoma a abordagem crítica que lhe garantiu o sucesso em Nó na Orelha (2011), com um single que enumera as muitas misérias do nosso país.

É importante focar em um assunto quando se trata de um música com menos de 4 minutos, mas Criolo versa melhor quando cria uma roleta em movimento ininterrupto mencionando pobreza, corrupção, Carnaval, divergência de opiniões e descaso do Estado, junto e misturado. É tudo por dinheiro – com um pouco de ódio e desespero, como enfatiza.

6. “Catch It”

Iceage

Gravadora: Escho
Data de Lançamento: 12 de fevereiro de 2018

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Uma das músicas mais viciantes do ano tem riffs carregados. Começa preguiçosa e vai se esticando aos poucos, até se tornar um single gigante. Antes mesmo da virada, quando “Catch It” se torna um tipo de expressão paranoica, o ouvinte já está hipnotizado por sua melodia e algo que parece sons de tamborins ao fundo.

Nesta música, o Iceage tenta confortar um amigo que passa por uma situação desesperadora. O modus operandi da canção é tão impactante, que não demora para que ela adquira ares de hino sobre diálogo e empatia. As guitarras acompanham o nível de intensidade do interlocutor e, por fim, catalisa as chamas de quem passa por momentos difíceis – exemplo de que o rock não perdeu sua força identitária, mesmo quando interliga polos distintos.

Leia também: Crítica do disco Beyondless, do Iceage

5. “Cuidando de Longe”

Gal Costa part. Marília Mendonça

Gravadora: Biscoito Fino
Data de Lançamento: 28 de setembro de 2018

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“Cuidando de Longe” é a perspectiva de Gal Costa para a ‘sofrência’ que dominou o forró e o sertanejo nos últimos anos. Ela fala sobre amor e admiração de forma mais madura do que costumamos ouvir nos rádios: valoriza os ‘olhos negros‘, a ‘vida confusa‘ e muitos outros pontos tidos como defeitos no senso comum.

Os arranjos trazem a consistência da black music dos anos 1970, com pianos sobressalentes e um backing vocal nada fraco, com Céu, Maria Gadú e Filipe Catto. Na canção, Marília Mendonça ameniza seu tom de voz, como a banda pede, e forma um dueto improvável que eleva a tão querida ‘sofrência’ a um novo patamar artístico.

Leia também: Crítica do disco A Pele do Futuro, de Gal Costa

4. “Dentro de Cada Um”

Elza Soares

Gravadora: Deckdisc
Data de Lançamento: 18 de maio de 2018

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Se Deus é mulher, então todos somos mulheres, à sua imagem e semelhança. Essa nova construção simbológica de Elza Soares se baseia na filosofia de que a dor e a repreensão sofridos por milênios são o combustível para se tornar mais forte, para lidar com as adversidades da vida. Vai sair de dentro de cada um a sabedoria para propor um futuro mais igualitário e menos doloroso para as pessoas.

“Dentro de Cada Um”, na verdade, é uma canção de esperança vinda da ‘mulher dentro de mim‘ que ‘já cansou desse tempo‘. E é, também, um exercício para estimular a ‘saída‘ da mulher de cada um: Elza enumera mazelas, ‘saúde a troco de nada‘, batalhas desesperançadas e faz um pequeno recorte da violência generalizada contra a mulher em nosso país. Depois de toda a empatia criada em A Mulher do Fim do Mundo (2015), a simbologia antecede o passo da ação: é preciso internalizar o que é ser mulher para ter uma breve noção de sua complexidade. Está aí a chave para a salvação.

Leia também: Detalhes sobre o disco Deus é Mulher, de Elza Soares

3. “God is a Woman”

Ariana Grande

Gravadora: Republic
Data de Lançamento: 13 de julho de 2018

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A simbologia criada por Elza Soares é pautada pela triste realidade de violência contra a mulher. Ariana Grande, por outro lado, permitiu ser mais utópica: embora o clipe de “God is a Woman” mostre homens vociferando contra a sua gigante personalidade, que representa a força feminina, Ariana foca na sensibilidade, no afeto e na paciência que caracterizam a mulher em todos os estratos sociais e profissionais.

“God is a Woman” tem a força de um hino que conecta gerações. Sexo, força e maternidade são valorizados com arranjos soberbos e vocais entoados como um gospel pra lá de inspirado. Se alguém tinha dúvidas da potência de Ariana Grande na música pop, não há exemplo melhor que esta bela música.

2. “Spells”

Jenny Hval

Gravadora: Sacred Bones
Data de Lançamento: 11 de abril de 2018

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Nenhuma canção abstraiu tão bem sobre como se perder em um mundo tão cheio de informações, e como isso nos deixa tão solitários, quanto “Spells”, de Jenny Hval. Ela começa falando sobre como estar preso em uma bolha nos relembra ‘que nem você pertence a você‘, num tipo de smooth-jazz nebuloso, em que cada instrumento parece surgir de uma nuvem distante.

Na canção, Jenny parece narrar a desconexão do ser com o seu sonho, mas os paralelos com a realidade estão lá na construção dos versos. Quando repete docemente que ‘você não irá esperar por muito tempo‘, de certa forma se refere à nossa longevidade: afinal, é impossível desfrutar de tudo o que nos cerca. E, se na canção ela diz que quer te segurar, é para oferecer conforto, mostrar que a beleza está nos gestos, e não na infinidade de coisas que nos confundem.

1. “I Woke Up in a Fucked-Up America”

Lonnie Holley

Gravadora: Jagjaguwar
Data de Lançamento: 11 de julho de 2018

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Artisticamente, Lonnie Holley personifica a sórdida poesia urbana de Gil Scott-Heron e o canto doloroso do soulman Bobby Womack. É uma apresentação importante antes de dar o play em “I Woke Up in a Fucked-Up America”, porque cada elemento carrega toneladas de densidade. A letra põe todos os absurdos da era de Donald Trump como parte de um pesadelo terrível, com muros, violência, estupros e trabalhos subumanos.

O trombone carregadíssimo de Dave Nelson e a sonoridade apocalíptica da bateria de Marlon Patton dão uma gravidade incendiária ao discurso de Lonnie Holley, que recebeu uma produção híbrida, um tipo de soul-free-jazz que evoca imagens destrutivas, desespero e muita, muita dor.

A soma de todos esses elementos resulta em uma canção urgente, que contextualiza as centenas de absurdos que fizeram da América atual o terror dos imigrantes e das minorias. O efeito é pesado e, ciente disso, o produtor Richard Swift ajudou Lonnie a dar a impressão de que vai explodir do primeiro ao último segundo de “I Woke Up in a Fucked-Up America”, um single não convencional para uma era não convencional.

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