A demagogia está tomando conta do mundo, e os músicos estão atentos a isso. No Brasil, tivemos eleições conturbadas, com uma enxurrada de notícias falsas e distorção da realidade – algo previsível, dado os efeitos da eleição de Donald Trump, em 2016.
O embate não é direto. Em linhas gerais, podemos dizer que os melhores discos de 2018 vieram com o propósito de repensar o indivíduo em um momento tão conturbado.
Seja enfatizando conquistas pessoais (Karol Conka) e afirmando sem receios a vida sexual de pessoas que não estão enquadradas em padrões de beleza (cupcaKke); seja o enfrentamento direto com a cultura machista (Mitski) ou a criação de um universo de autossuficiência pessoal para LGBTQ (Lotic), 2018 foi o ano em que ficou muito claro que viver é um ato político.
Assim como fizemos em 2017, mesclamos discos nacionais e internacionais em nossa lista de melhores do ano. Entendemos que o mesmo tempo dedicado a um álbum brasileiro dedica-se a um álbum estrangeiro. O tempo é universal. É preciso usá-lo com sabedoria.
Por isso mesmo, entenda essa lista como um bom investimento de suas horas. Os discos aqui presentes realmente valem a pena.
Leia também:
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30. Ambulante
Karol Conka
Gravadora: Sony
Data de Lançamento: 9 de novembro de 2018
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Não há problema algum em usar a 1ª pessoa como forma de ilustrar uma jornada bem-sucedida. Vivemos em um dos países mais racistas e preconceituosos do mundo, e se a indústria musical não se preocupa com igualdade de raça e gênero, é preciso chutar a porta mesmo, e com muita força. Ambulante, de Karol Conka, é praticamente uma voadora nesse sentido, porque se coloca como exemplo de uma artista que precisou confrontar muita gente para chegar ao sucesso.
Mas, não é à indústria que a curitibana direciona suas rimas e, sim, à grande parte do público que consome arte e cultura no Brasil. Desde que lançou Batuk Freak (2013), seu alcance aumentou exponencialmente, dando maior projeção ao que ela tem pra dizer. Podem tentar classificá-la, podem fazer cara de espanto e questionar o quanto ela ganha, mas não podem tomar o espaço que ela ocupa e, torcemos, que muitas outras artistas talentosas também ocupem.
Leia também: Karol Conka representa a força do discurso em primeira pessoa no disco Ambulante

29. Black Panther: The Album
Kendrick Lamar
Gravadora: Interscope/Aftermath/Top Dawg Entertainment
Data de Lançamento: 9 de fevereiro de 2018
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O filme Pantera Negra foi um fenômeno incontestável deste ano – tanto que foi o primeiro longa de herói a concorrer na categoria Melhor Drama no Globo de Ouro. Quase um ano depois de causar com DAMN. (2017), Kendrick Lamar soube como criar uma atmosfera utópica à lá Wakanda para a trilha sonora do filme. Trata-se de um álbum que cria a sua própria noção de épico: pianos flutuantes e vozes que ecoam ao fundo, como se viessem de uma natureza conectada aos corpos de uma sociedade perfeita em seu microcosmo, são alguns dos elementos perceptíveis.
Para transpor a linda paisagem do filme em som, Kendrick soube como escolher bem os parceiros: o dueto em “All the Stars”, com SZA, tem uma força pop que só melhora a cada audição. Os featurings de Future, Jay Rock e James Blake, em “King’s Dead”, formam uma das melhores junções do rap contemporâneo. Destaque também para faixas em que outros músicos brilham, especialmente “I Am”, de Jorja Smith, e “Opps”, de Vince Staples e Yugen Blakrok.
Leia também: Crítica da trilha sonora de Pantera Negra, produzida por Kendrick Lamar

28. Knock Knock
DJ Koze
Gravadora: Pampa
Data de Lançamento: 4 de maio de 2018
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Para chegar a Knock Knock, DJ Koze precisou fazer uma limpeza sonora. Por isso, o disco soa impreciso, cheio de ideias fragmentárias e experimentações com melodias, recortes, samplers e intersecções vocais. E, quer saber? Que bom que seja assim. Techno, acid, ambient e hip hop estão amalgamados nas muitas ideias apresentadas aqui.
As estruturas de cada tema também variam bastante: “Bonfire”, por exemplo, vai do minimal ao trance, apresentando diversas costuras psicodélicas. Knock Knock traz várias participações, como Róísin Murphy (que chega com vários ecos em “Illumination” e deixa-se levar pelo downtempo, em “Scratch That”) e Sophia Kennedy (em diferentes exemplos de soul encontrando a eletrônica, em “This is My Rock” e “Drone Me Up, Flashy”). Mas o take mais comercial do disco é “Pick Up”, prova de que o produtor alemão mantém a energia das pistas como poucos.
Leia também: Como DJ Koze fez seu melhor disco com improbabilidades da eletrônica

27. Be the Cowboy
Mitski
Gravadora: Dead Oceans
Data de Lançamento: 17 de agosto de 2018
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Mitski propõe um enfrentamento à condição de ser mulher. Ela passa como um trator por cima da fragilidade e de diversos estigmas sentimentais. Seu tipo de rock híbrido, com o flerte da eletrônica e avant-garde à lá St. Vincent, serve como pano de fundo para crônicas ácidas sobre solidão, desejos e aventuras. Seu tom de voz é um misto de serenidade e indiferença, sugerindo um afastamento de sua própria biografia – mesmo que ela contenha um tiquinho de ficção.
Be the Cowboy apresenta vários perfis em 1ª pessoa: em “Old Friend”, ela só precisa de uma companhia para ‘falar sobre nada’. Se em “Nobody” a personagem não consegue evitar as convenções ao se ver sozinha, “Lonesome Love” é um dos grandes hinos de 2018 ao amor-próprio, com o célebre verso: ‘Ninguém me fode como eu‘. Tanto na vida pessoal, como na vida sexual – momento em que percebemos que problemas e desvios são comuns, só é preciso ir pra cima.
Leia também: Mitski: mistério, clamor ou pura indiferença no disco Be the Cowboy

26. Iridescence
BROCKHAMPTON
Gravadora: Qeustion Everything/RCA/Sony
Data de Lançamento: 21 de setembro de 2018
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O BROCKHAMPTON é, hoje, o que o Odd Future foi há alguns anos, com a diferença de que, sem o senso coletivo, seria impensável. Não é a técnica de cada um que faz de Iridescence – ou fez da trilogia Saturation no ano passado – algo único no rap. A estreia por uma grande gravadora de certa forma impactou a justaposição sonora. Temos mais melodia, mais flerte com soul e R&B e o peso mais controlado dos beats.
Para um grupo com membros tão jovens, Iridescence é um passo importante porque amplia o universo de referências do grupo. Sim, Kanye West ainda pulsa, mas temos mais eletrônica, mais psicodelia vocal (“SAN MARCOS”) e um tipo de gangsta rap mais original (“J’OUVERT”). O BROCKHAMPTON ainda tem muito a trilhar, e Iridescence abre os caminhos para novos experimentos – e rebeldia, claro!

25. Oxnard
Anderson .Paak
Gravadora: 12 Tone Music/Aftermath
Data de Lançamento: 16 de novembro de 2018
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Espécie de dinamizador entre soul, hip hop, jazz e R&B, Anderson .Paak tem um senso rítmico que se distingue dos muitos nomes da música negra atual. Oxnard é de um esquema muito semelhante aos discos de rap: as faixas têm versatilidade estética, há diversas participações e um misto de canções biográficas com percepções do que acontece nas ruas.
Dr. Dre ajudou o cantor a encontrar a flexibilidade, mas o grande destaque em Oxnard é o desempenho do Free Nationals, que dá importante ganho orgânico às muitas investidas de .Paak, seja no envolvente groove de “Tints” (com Kendrick Lamar) ou no soul psicodélico de “6 Summers”.
Leia também: Oxnard, de Anderson .Paak, tem conexões que vão além de sua cidade-natal

24. Madrugada
Desgraça
Gravadora: Transtorninho Records
Data de Lançamento: 28 de fevereiro de 2018
Ouvir via BandCamp
Funk, noise e o peso de riffs que têm lá seu meio-termo entre industrial e metal são a essência do som do Desgraça, power-trio formado por membros do Amandinho e Lupe de Lupe. Conceitualmente, o resultado deixa bem claro a semelhança de atos que parecem tão distintos. Na prática, o grupo resolveu fazer a crônica de uma madrugada bem intensa.
O legal é perceber como o funk consegue injetar balanço na fuzarca sonora do noise e do industrial – da mesma forma que esses gêneros dão maior gravidade e intensidade ao ritmo que vem dos morros cariocas. Isso porque Madrugada veio com a proposta de dar outro panorama ao som do ‘submundo’, falando sobre festas despirocadas, o que as pessoas são capazes de fazer quando estão chapadas e o caótico resultado do fim de noite.
Leia também: Desgraça: o meio-termo entre funk e noise ao som da meia-noite

23. Ephorize
cupcaKke
Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 5 de janeiro de 2018
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Um pouco de trap, um pouco de inovação e muito, mas muito embate quando o assunto é confrontar as convenções que determinam o sucesso no hip hop. Homem, machismo, inferiorização das mulheres e preconceito contra quem foge dos padrões de beleza são os principais alvos das rimas de cupcaKke, que enaltece prazeres individuais que estão longe de saciar a ganância do establishment.
São desafios que parecem divertidos, como em “Crayons”, um tipo de reinterpretação gringa da estética do funk carioca que estimula lésbicas, drags e homossexuais a amarem da forma que desejam, ou a crueza de “Duck Duck Goose”, em que diz ‘levantar seu pau‘ num background totalmente R&B sexual, para momentos de pura zoeira. Um raro exemplo de como combater e, ao mesmo tempo, soar envolvente e divertida contra preconceitos de diferentes naturezas.
Leia também: Trap, pop, rap… Chame a música sincerona de cupcaKke do que quiser

22. Negro Swan
Blood Orange
Gravadora: Domino
Data de Lançamento: 24 de agosto de 2018
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Os últimos discos de Blood Orange têm mostrado uma preocupação com solidão e relacionamento de diversos tipos (amizade, família, romance), mas nenhum foi tão denso quanto Negro Swan. Na maioria das faixas, Dev Hynes estabelece uma comunicação com uma garota do outro lado da linha, como se ela fosse o suporte de canções filosóficas sobre os malefícios de uma sociedade extremamente individualista – sendo que Hynes, aqui, é um caso prático.
O som R&B psicodélico, com timbragens que evocam uma utopia de felicidade ininterrupta, ganha diferentes conotações neste disco. Em “Nappy Wonder”, ele repete que os ‘sentimentos não têm nenhuma ética‘, como se ele se dilacerasse por sentir o que não gostaria de sentir. Em “Charcoal Baby”, ele retoma a incorporação de uma antropologia particular de Freetown Sound (2016) na era de Donald Trump, integrando-se como parte da classe trabalhadora norte-americana – com o importante adendo de que é preciso fugir dos estereótipos propagados em sua campanha.
Leia também: Crítica do álbum Negro Swan, de Blood Orange

21. Broken Politics
Neneh Cherry
Gravadora: Smalltown Supersound
Data de Lançamento: 19 de outubro de 2018
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Apesar de repetir a parceria com Four Tet na produção, Broken Politics foge da eletrônica e busca um novo tipo de organicidade. Há sons de bandolins, violinos e diferentes rumos percussivos – embora todos digitalizados. Neneh Cherry vive na pele o pertencimento a nacionalidades diferentes: filha da artista plástica sueca Moki Cherry e do baterista Ahmadu Jah, da Serra Leoa, ela conviveu desde pequena com a multiculturalidade – algo que permeou toda sua obra em quase 30 anos de carreira.
Mas, nenhum de seus discos foram tão sentidos quanto Broken Politics, em que incorpora o receio e a força para lutar diante dos inúmeros exemplos de xenofobia pelo mundo: das declarações de Donald Trump às candidaturas com forte discurso anti-imigratório em países como França e a própria Suécia. Sua melancolia cumpre o papel de buscar autoestima e forças para manter a cultura local viva, não importa onde esteja. Por isso há maior preocupação com melodias orientais e permanente senso de empatia para confortar inúmeras situações conflituosas, que vão da diferença salarial entre homens e mulheres (“Black Monday”) à coragem de enfrentar a depressão (“Poem For Daddy”).
Leia também: Neneh Cherry personifica as tretas políticas em Broken Politics

20. Sink
Sudan Archives
Gravadora: Stones Throw
Data de Lançamento: 25 de maio de 2018
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Acredite: 6 músicas é muita coisa para a difusão de elementos, ideia e inovação que a jovem violinista Sudan Archives, de apenas 23 anos, nos apresenta. Música indiana, psicodelia, ritmos arabescos, soul, R&B, África, miscigenação, imigração… As composições de Brittney Parks são aventuras sentimentais diante do diferente – sempre carregando um rico passado de belezas, convivências e experiências.
As cordas e percussões criam diferentes tipos de linearidades para as diversas facetas vocais que apresenta. Em “Pay Attention”, ela põe o ouvinte em imersão a uma natureza particular, enquanto apresenta uma nova proposta de música pop na ondulante “Nont For Sale”, que teria força radiofônica, não fosse a indústria musical preconceituosa com as raízes africanas em seus charts.
Leia também: Sudan Archives: voz, violino, África, Índia e pop ao mesmo tempo

19. +AR
Almir Sater & Renato Teixeira
Gravadora: Universal
Data de Lançamento: 9 de março de 2018
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Ouvir os seresteiros Almir Sater e Renato Teixeira é passear por lindas paisagens dos muitos interiores dos estados brasileiros. As melodias da dupla criam uma imersão em histórias que parecem ter saído de um conto de fadas tupiniquim: festas com pessoas alegres em torno da fogueira, a contemplação dos dias passando deitado numa rede e o dia a dia na roça, tirando leite de vaca. ‘Vai o dia inteiro/Nessa ralação/O trabalho é duro, mas também tem diversão‘, canta a dupla em “Touro Mocho”, mostrando que o ritmo fora das cidades grandes também é cansativo.
+AR é sequência do disco AR, lançado em 2015. Almir e Renato são parceiros há mais de 30 anos como compositores e intérpretes, algo que, assim como uma boa cachaça mineira, melhora quando envelhecida. É um disco que gera uma paz, uma vontade de conhecer as muitas belezas do Brasil afora… Um acalanto para quem está enfadado com a correria e as multidões da metrópole.

18. Eutu Ubuntu
Cromossomo Africano
Gravadora: Quae
Data de Lançamento: 6 de agosto de 2018
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Cromossomo Africano é música pop que torna acessível a religião, a cultura e a estética da África, com uma boa pitada do regionalismo mineiro. Eutu Ubuntu tem um significado de coletividade, por isso o octeto tem a preocupação de formar um efetivo canal de comunicação, com elementos do rap, MPB, soul-music e até rock’n roll.
A vocalista Michelle Oliveira tem um timbre forte e enérgico, que impõe credibilidade em temas como renovação política (“Renovar”), identidade cultural de mulheres negras (“Xampu”) e convívio social (“Ubuntu”, com participação do Tambor Mineiro). O afro-beat também é uma influência, como evidencia “Mãe África, Pai Tambor”, mas a riqueza de Eutu Ubuntu está na força do resultado de um intrincado amálgama estético e cultural.
Leia também: Cromossomo Africano: música negra pop em busca do diálogo

17. Some Rap Songs
Earl Sweatshirt
Gravadora: Tan Cressida/Columbia/Sony
Data de Lançamento: 30 de novembro de 2018
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Não é de hoje que Earl Sweatshirt vem lutando contra a depressão, e a recente morte do pai fez com que partisse para a ação, três anos depois de anunciar que I Don’t Like Shit I Don’t Go Outside (2015) seria seu último disco. A ação, aqui, é representada por uma sonoridade mais tortuosa, como se Earl encontrasse J Dilla nas profundezas, compartilhasse suas visões obscuras e pedisse ajuda para fazer da música a materialização dessas imagens.
As músicas de Some Rap Songs se destilam entre perdições vocais e atmosferas nebulosas. Há muitos rascunhos, mas Earl não sente a necessidade de dedicar tempo demais do ouvinte para bagunçar nossa mente com temas como morte, niilismo e convivência. No melhor estilo Madvillainy (2004), seu tom de voz entra em distintas escalas radiofônicas, sintetizando mais com a dodecafonia e o avant-garde que com qualquer outra proposta mais retilínea do hip hop.
Leia também: Crítica do disco Some Rap Songs, de Earl Sweatshirt

16. A Pele do Futuro
Gal Costa
Gravadora: Biscoito Fino
Data de Lançamento: 28 de setembro de 2018
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O novo álbum de Gal Costa é uma ode ao amor-próprio. Em mais de 50 anos de carreira, pode parecer óbvio, mas A Pele do Futuro não tem nada a ver com idade. Isso porque a cantora foge de tudo que estaria associado ao individualismo. É que, para uma relação dar certo com outro, ‘não pode ser menos que sublime‘. Em “Vida que Segue”, uma das mais bonitas do disco, Gal diz que ‘vai deixando pedaços de mim a cada caminho/Transformando em flores os espinhos‘ – ciente de que ela é o agente transformador, assim como qualquer um possa vir a ser.
A parceria com Marília Mendonça, em “Cuidando de Longe”, instiga a autoanálise pessoal. Em tempos em que depressão, estresse e ansiedade ditam o ritmo do dia a dia, A Pele do Futuro soa como a musicoterapia perfeita para injeção de ânimo e autoestima. Te ensina a viver melhor consigo mesmo.
Leia também: Crítica do álbum A Pele do Futuro, de Gal Costa

15. Power
Lotic
Gravadora: Tri Angle
Data de Lançamento: 13 de julho de 2018
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Não duvide: este disco faz muito jus ao título. A transgênero Lotic demorou dois anos para concluir Power, com o objetivo de externar raiva, frustração, vontade de viver e muita resistência para enfrentar o establishment. Para isso, ela não só eleva a saturação da eletrônica IDM ao máximo; suas trilhas industriais têm o propósito de incomodar e provocar um tipo de caos incontrolável, embora os temas sejam dotados de ajustes rítmicos, mesmo em altos batimentos por minuto.
Power é um disco em que a pulsação fala mais alto, mas também está imbuído de uma dialética refletida na própria imagem de Lotic. A música eletrônica talvez seja o gênero mais proposto ao diálogo sobre sexualidade, mas a ideia é quebrar todas essas barreiras. Esqueça som dançante ou um noise totalmente desestruturado; Power emoldura força e sentimentalidade como um furacão pronto para destruir o preconceito instituído em nossa sociedade, mesmo que se diga globalizada.
Leia também: O empoderamento estético e dialético de Lotic em seu disco de estreia

14. A Dança dos Não Famosos
Mundo Livre S/A
Gravadora: Monstro Discos
Data de Lançamento: 27 de julho de 2018
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Mais um disco sobre liberdade e dinheiro, como disse o líder Fred Zero Quatro – com o agravante de que vivemos um dos momentos politicamente mais tensos das últimas décadas. A revolta contra a imprensa, a classe política e as minorias ganha contornos de ironia nas músicas do Mundo Livre S/A, que percebe uma relação entre as ‘neurocassetadas’ do programa do Faustão com a imagem de um cassetete batendo em Matheus Ferreira da Silva, que foi agredido por policiais durante uma manifestação (e estampa a capa do disco).
Desenvolvendo um tipo de samba escatológico, a banda pernambucana incorpora e critica o cinismo do ‘cidadão de bem’ que não conduz, mas é conduzido a fazer as perguntas erradas em torno de tudo que acontece. Entre críticas ao governo de Temer, conflitos nas ruas e referências à ‘planilha’ da Lava Jato, Zero Quatro ainda encontrou espaço para homenagear o filho caçula em “Special Manguechild”, escrita pouco tempo depois da morte de David Bowie.
Leia também: Crítica do disco A Dança dos Não Famosos, de Mundo Livre S/A

13. Lost & Found
Jorja Smith
Gravadora: FAMM
Data de Lançamento: 8 de junho de 2018
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Para Jorja Smith, é simples fazer uma canção impactante. Basta ter um piano de acompanhamento, um bom arranjo de cordas e uma composição – que, no caso dela, significa falar sobre fantasias de adolescente, entregas romanescas e saídas à noite. Quanto ao resto, sua voz arrasa-quarteirões cumpre a função de extasiar o ouvinte, com a hesitação e a paixão da juventude.
Com apenas 21 anos, esta britânica de West Midlands canta sobre bases de jazz, soul, grime e hip hop com o benefício de ser uma espécie de ‘nativa musical’ de todos esses gêneros. Todas as 12 canções de Lost & Found impactam de alguma maneira: “Teenage Fantasy” tem a força de um bom single pop, enquanto “The One” conforta corações desolados com a proximidade criada por seu canto intimista – e um pouco da ajuda da produção de Joel Compass. Todas as atmosferas criadas favorecem o canto de Jorja Smith e o deleite de ouvintes que perigam ficar apaixonados por sua música.
Leia também: Jorja Smith encanta e faz o ouvinte se perder em Lost & Found

12. In a Poem Unlimited
U.S. Girls
Gravadora: 4AD
Data de Lançamento: 18 de fevereiro de 2018
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O rock tem dezenas de vertentes, e muitas bandas têm dificuldades tremendas de enriquecer seu vocabulário estético com as inúmeras possibilidades de trabalhar voz, guitarra, baixo e bateria. Para o U.S. Girls, décadas de descobertas são uma vantagem.
A sórdida poesia de In a Poem Unlimited abraça punk, pós-punk, indie e avant-garde. As transições não são delimitadas. Elas fluem como deveriam ser: parte de uma linha do tempo que vai assimilando as características de movimentos anteriores. Só por isso, o projeto solo de Meg Remy funciona como um divertido passeio pelas muitas agruras do rock. Mas trata-se de um som politizado, seja contra o conservadorismo que toma conta da América, o lugar de fala da mulher na sociedade ou a favor da criação de mitologias contemporâneas que questionam a dominância do homem, aqui ou no céu.

11. Safe in the Hands of Love
Yves Tumor
Gravadora: Warp
Data de Lançamento: 5 de setembro de 2018
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Criatividade na dinâmica das batidas com agressividade punk e um tanto de R&B futurista, com gritos de desespero e vontade de seguir novas aventuras. A música do Yves Tumor é abrasiva e arrasta o ouvinte para um longínquo universo em que a vontade de voltar pra casa (lembrada em “Licking an Orchid”) é tão passageira quanto os diversos níveis de intensidade que, embora efêmeros, formam, em conjunto, uma experiência semelhante a uma viagem lisérgica da qual não dá mais vontade de sair.
Não é preciso se chapar para deixar-se levar por Safe in the Hands of Love. Da serena narrativa de “Noid” à catarse sonora de “Lifetime”, Sean Bowie (o cara por trás do projeto) alterna as estruturas do rock e da eletrônica em um avant-garde que, diferente de seus projetos anteriores, vai do horror para o misterioso, numa transposição da estética de trilhas sonoras para uma trilha que, por mais improvável que seja, encontra guarida em sentimentos e vontades indizíveis.

10. Cavala
Maria Beraldo
Gravadora: Risco
Data de Lançamento: 30 de maio de 2018
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“O grito de liberdade de uma mulher lésbica”: é a própria Maria Beraldo que resume seu primeiro álbum solo, e não poderia haver descrição mais assertiva. Ela fala sobre tesão (“Tenso”), justifica como a mulher lhe garante mais prazer que o homem, numa carta destinada ao pai (“Amor Verdade”), e divaga sobre amor em uma melodia elegíaca de guitarra (“Eu Te Amo”).
Com a experiência de ter tocado no grupo de Arrigo Barnabé (e participado de muitos outros), Maria trocou o clarinete pela guitarra e por composições que criam um senso de identidade sobre amor, família e comportamento. Muito além da percepção do que é ser lésbica, Cavala expõe como a sociedade reage e se comunica com o indivíduo LGBTQ. Para isso, ela fez questão de ser breve em cada uma das 10 músicas, para focar no impacto e provocar autorreflexão.

9. In Heaven
Dick Stusso
Gravadora: Hardly Art
Data de Lançamento: 2 de março de 2018
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A primeira impressão que se tem ao ouvir Dick Stusso é testemunhar uma espécie de Electric Warrior (1971) do século XXI. Mas, os assuntos são mais sérios quando prestamos atenção no que esse carinha de 30 e poucos anos de Oakland têm pra dizer. Dick diz fazer “velho blues de cão de caça”; autoindulgência à parte, In Heaven tem conversas sobre crise existencial com Deus (“Terror Management”) e o diabo (“The Big Car Commercial Payout”), além de reflexões sobre solidão e comprometimento.
Apesar de ser um álbum acústico, In Heaven mostra a guitarra ora folk, ora blueseira desempenhando diferentes funções. Ela é o confessionário de Dick Stusso, e pode soar tão amena, em “Phasing Out”, como adquirir aquele formato de glam-rock clássico tão associado a Marc Bolan, em “Getting Loose”. Em comum, todas as faixas (curtinhas, por sinal) versam sobre a condição humana de maneira filosófica, em tempos em que reina a superficialidade.
Leia também: Crítica do álbum In Heaven, de Dick Stusso

8. DAYTONA
Pusha T
Gravadora: G.O.O.D. Music/Def Jam
Data de Lançamento: 25 de maio de 2018
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Dos muitos acertos de Kanye West como produtor em 2018, destaque para a atmosfera futurista e acinzentada para DAYTONA que, como acréscimo, traz um Pusha T afiado criando um conceito próprio de rimas que se comunica, a cada verso, por diferente entonação vocal. Vide a primeira faixa, “If You Know You Know”: os versos sempre terminam com o termo ‘boy’, mas em estruturas alternadas, criando uma nova dinâmica para a música.
DAYTONA é o pleno exercício de Pusha T para lidar com o sucesso e com as brigas em paralelo a tempos em que traficava cocaína. O aprendizado de dias difíceis permanece, como canta em “Hard Piano” (ao lado de Rick Ross). E, embora ele direcione “Infrared” a Drake com seus supostos ghostwriters – numa tirada de mestre, diga-se: ‘It was written like Nas, but it came from Quentin‘ – Pusha T crava um estilo próprio: moderado, mas nevrálgico, com ricas simbologias, sem negar um passado melancólico.
Leia também: 21 minutos foi tudo o que Pusha T precisou para lançar um de seus melhores discos

7. Dirty Computer
Janelle Monáe
Gravadora: Wondaland/Bad Boy Entertainment/Atlantic
Data de Lançamento: 27 de abril de 2018
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Dirty Computer traz o conceito afrofuturista de The ArchAndroid (2010) e uma nova proposta de R&B pop de Electric Lady (2013) de forma sedimentada. Janelle Monáe sabe fazer rap, psicodelia, rock’n roll e até como ser uma crooner moderna, mas se esforçou para que seu multitalento fosse percebido em cada investida de seu terceiro álbum. “Screwed” é tão cheia de energia quanto uma música de Janet Jackson. Mal acaba o refrão, Janelle cria um gancho para uma abordagem que músicos pop tinham do hip hop nos anos 1990 (tudo bem chamar de abordagem old-fashion).
Orgulho negro e igualdade de gêneros são temas onipresentes nas jornadas de Janelle, que aos poucos deixa a 1ª pessoa tomar conta da outrora androide Cindi Mayweather, persona criada na narrativa dos álbuns anteriores. Na real, Dirty Computer parece a criação de um próprio universo Matrix de Janelle: a serenidade de “Django Jane” e o groove de “Make Me Feel” parecem diametralmente opostos à vibe de “Pynk” e “Don’t Judge Me”, pequenas provas de uma versatilidade que aumenta a cada lançamento.
Leia também: Janelle Monáe: uma andrógina em tempos de intolerância

6. Beyondless
Iceage
Gravadora: Escho
Data de Lançamento: 4 de maio de 2018
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Como seria o encontro sonoro de Mastodon e Lana Del Rey? Ou se o Swans decidisse ter uma abordagem mais pop? Parte dessas respostas está contida em Beyondless, avant-metal pesado que encontra meio-termo entre o stoner e as varias ramificações do rock para falar sobre miséria humana, dores e emoções à flor da pele – e, no caso de “Catch It”, carregando um empolgante espírito punk.
Em seu 4º disco, o Iceage quebra as fronteiras estéticas do rock e permite-se diferentes encontros com a música pop com arranjos edificantes, que tornam cada fragmento do álbum pequenas epopeias que, por fim, revelam a heróica jornada do homem contra ele mesmo.
Leia também: Crítica do álbum Beyondless, do Iceage

5. Paulibucano
Toinho Melodia
Gravadora: Independente
Data de Lançamento: 3 de agosto de 2018
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Assim como Cartola, Toinho Melodia lançou seu primeiro álbum com mais de 60 anos. E, assim como o mestre da Mangueira, temos a experiência de anos de estrada, em composições que falam sobre solidão, pobreza, decisões erradas, viagens em tempos de dúvidas e reflexões sobre o mundo sertanejo – mais especificamente da região de Pernambuco (que divide a naturalidade com São Paulo no título do disco) e Ceará.
Paulibucano valoriza as ricas construções de arranjos de clássicos como Força Bruta (1970) e Nervos de Aço (1973), expandindo seu campo imaginário para a música rural (“Siri de Lá”), forró e flerte com a música ibérica (“Aboio”). Tem partido-alto (“Filosofia no Morro”, ao lado de Seu Carlão do Peruche), samba-canção (“Sem Eira Nem Beira”) e uma enxurrada de emoções em um álbum que se isola do que o samba tem produzido nos últimos anos, justamente por sua riqueza narrativa e por retomar a força expressiva do gênero tal qual gigantes como Candeia e Nelson Cavaquinho.
Leia também: Toinho Melodia, a estreia de um bamba aos 68 anos

4. Omindá
André Abujamra
Gravadora: Tratore
Data de Lançamento: 22 de março de 2018
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A imensidade do mar é a maior inspiração de Omindá, que propõe a “união das almas do mundo pelas águas”. André Abujamra viajou por 13 países e testou diversas sonoridades, linguagens e formas de se comunicar, com o objetivo de quebrar as fronteiras nacionais e mostrar que o diálogo não tem barreiras quando se tem boa vontade. Claro que essa empreitada musical é beneficiada pela experiência de André, que já tocou rock, afro-beat e MPB, extrapolando o ‘básico’ em todas essas frentes.
Para Omindá, estamos diante de um músico mais tranquilo, que usou o dom da paciência para aprender e realmente se conectar com músicos do Bali, Japão, Rússia, Índia, entre outras nações, que encaram a música de formas diferentes. André compreende, medita, se comunica e aprende com dezenas de outros cantores e instrumentistas como transmitir uma mensagem de tolerância e amor ao próximo, fluida como o mar.
Leia também: Crítica do disco Omindá, de André Abujamra

3. Everything’s Fine
Jean Grae & Quelle Chris
Gravadora: Mello Music Group
Data de Lançamento: 30 de março de 2018
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Nenhum disco bagunçou tanto a minha cabeça em 2018 quanto Everything’s Fine, talvez o disco político mais improvável que você vai ouvir. Sarcástico do começo ao fim, trata-se de um rap galopante que funciona como um live que poderia muito bem ter sido roteirizada por Spike Lee, inspirado pelas teorias de comunicação de Harold Lasswell (de que a indústria de massa utiliza de doses psicossomáticas de repetição para prevalecer a ideologia favorável a ela).
Jean Grae e Quelle Chris são os atores de seu próprio show, propondo um jogo de imagens diferente, em que a violência nas ruas é banal, a morte de negros é lugar-comum e as estranhezas sonoras são parte do cotidiano. É um groove estranho, do qual deixar-se dançar pode parecer a decisão mais errada a se tomar. Ficar, então, parado? Está posto o desafio, porque se tem uma coisa que Everything’s Fine reforça é que as coisas não estão ok – por mais que repita insistentemente o contrário.
Leia também: Crítica do álbum Everything’s Fine, de Jean Grae e Quelle Chris

2. Deus é Mulher
Elza Soares
Gravadora: Deckdisc
Data de Lançamento: 18 de maio de 2018
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Elza Soares é a artista brasileira mais importante em atividade hoje. No álbum que sucede o excelente A Mulher do Fim do Mundo (2015), o feminino passou a ser a mitologia do século XXI. Elza fala sobre ‘a mulher dentro de cada um‘ e enumera situações comuns passadas por elas, como o silêncio, a forma de lidar com pretextos e a improbabilidade. Deus, aqui, não é só amor; é força e resistência, que se aplica em nosso dia a dia (como canta em “Eu Quero Comer Você”) e que deve ajudar a formar pessoas melhores para o futuro (“Exú nas Escolas”).
Não há dor para Elza ao citar a violência e inferiorização contra as mulheres. Nessa construção simbológica, Elza evoca essas imagens para refletir sobre o estágio que transcende da dor para a sabedoria. A produção de Guilherme Kastrup traduz essas agruras de forma eletrificada, como se as distorções captassem a evolução pessoal e sentimental das pequenas deusas que andam sobre nós. Por fim, contemplamos um ser que, como mãe, garante conforto após as incessantes pancadas da vida. Realmente, Elza está certa.
Leia também: Deusa em chamas: o segundo capítulo da nova jornada de Elza Soares

1. What a Time to Be Alive
Superchunk
Gravadora: Merge
Data de Lançamento: 16 de fevereiro de 2018
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Enquanto você lê este post, em algum lugar por aí está sendo escrita uma letra política sobre o conservadorismo em nossos tempos. Passamos por uma ameaça generalizada à democracia: no Brasil, na Turquia, nos países desenvolvidos da Europa e nos Estados Unidos com Donald Trump, que compactua com regimes autoritários, passa pano para racistas de Charlotesville, tenta repreender a imprensa e não esconde a xenofobia contra latinos ou, em suas palavras, “pessoas de países de merda que vêm pra cá”.
Essa gigante nuvem negra tem inspirado artistas a cantar sobre direitos humanos, paciência e amor ao próximo mas, como diria Billy Bragg, vivemos tempos em que a música é apenas mais uma forma de comunicação que compete com textões no Facebook e amplo acesso a jornais e livros. É necessário entrar na mente do ouvinte, e é aí que entra o Superchunk com seu primeiro disco considerado ‘político’.
2018 foi o ano em que o rock retomou sua força combativa, mas nenhum disco catalisou tão bem suas ideias, suas repetições e sua visceralidade quanto What a Time to Be Alive. Mac McCaughan teve que confrontar a barreira que tinha com ‘música política’ para compor o material deste trabalho. Em quase 30 anos fazendo hard-core com refrões viciantes, foi preciso afiar a caneta para que petardos como “Bad Choices”, “I Got Cut” e “Cloud of Hate” captassem a revolta ante o retrocesso sociopolítico que toma conta do globo. O alvo, claro, é Trump, mas a energia, os muitos simbolismos e o poder de identificação das músicas do 11º álbum do Superchunk são exemplos de que as guitarras ainda têm poder de ‘matar’ fascistas (como diria Woody Guthrie) e estimular o exercício de perceber o que realmente acontece ao nosso redor.
O melhor é que você pode ouvir, ouvir e ouvir What a Time to Be Alive, e ainda não terá saciado a rebeldia e a vontade de repetir este discaço do Superchunk.
Leia também: Crítica do álbum What a Time to Be Alive, do Superchunk
