Post originalmente escrito em 16 de outubro de 2012

‘Cadê o retorno, porra?!?’

Uma das exigências mais conhecidas de um certo Síndico aí pode ser aplicada aqui: como um site de música com ‘groove’ no nome não fez uma homenagem aos 70 anos de Tim Maia (completados dia 28 de setembro)?

Tá aqui o retorno, chefia!

Apesar de ser um chato de galochas, Tim Maia foi um dos maiores músicos do século XX (e, segundo a Rolling Stone Brasil, a maior voz brasileira de todos os tempos). E não digo por exagero. Ele trouxe uma nova forma de cantar a música popular brasileira. Com seu grave que beirava a rouquidão, foi o maior ícone da música soul em nossas terras.

Claro que para isso foi muito importante sua breve passagem nos Estados Unidos quando ainda era jovem. Apesar de passar uns bons perrengues, lá ele captou o som do que acontecia no Brooklyn e, de volta ao Rio de Janeiro, incorporou à sua formação musical um swing ainda maior do que já tinha quando integrava os Tijucanos do Ritmo e o The Sputniks (com Roberto Carlos). (Mais informações sobre a vida de Tim Maia, confira a resenha da biografia Vale Tudo, escrita por Nelson Motta.)

Como Tim Maia é tudo festa e exageros, as comemorações de seus 70 anos ainda continuam no Na Mira. Para provar, este que vos escreve decidiu comentar toda a discografia do síndico.

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É possível dizer que o Síndico teve, sim, várias fases. Em todas elas ele atingiu tanto o ápice, quanto a decadência. Nos primeiros discos, explorou o soul-funk e registrou alguns dos maiores clássicos de sua história: “Primavera (Vai Chuva)”, “Azul da Cor do Mar”, “Não Quero Dinheiro”, “Gostava Tanto de Você”…

Junto com o bombardeio comercial, Tim Maia celebrava os excessos bebendo whisky, fumando ‘bauretes’, cheirando pó, tomando mescalina. E, de um dia para outro, ele entra na mística fase Racional, renegando os clássicos anteriores e se apresentando de branco para divulgar o livro Universo em Desencanto. Manoel Jacintho, o ‘racional superior’ que escreveu o livro, supervisionou as composições, deixando-as ainda mais panfletárias. No entanto, essa é uma de suas fases mais celebradas, por pelo menos dois motivos óbvios: 1º) a banda estava afiadíssima – que sonoridade boa!; e 2º) Por ter sido distribuído de forma independente pela gravadora de sua propriedade, a Seroma, poucas unidades foram comercializadas. (Também há quem ache essa fase de certa forma espirituosa, mas esse atributo é mais pessoal, vai de quem escuta – afinal, não se pode negar o lado excessivamente panfletário desse período.)

Após achar que estava sendo enganado pela filosofia que tanto defendera, de uma hora para outra ele largou tudo e proibiu as vendas de outras unidades. Os dois LPs dessa fase são raros e, caso consiga encontrar, não é nada barato. De tão mística que é essa fase, no ano passado foi lançado o Racional 3, com faixas até então inéditas (não comentamos esse disco nesta seção, mas há detalhes aqui).

Nos primeiros anos após essa fase, o Síndico tentou emplacar algumas composições em inglês, mas nem de longe chegou a ter a repercussão dos primeiros discos. Nesse tempo, ele percebeu que teria de se reinventar e pegou um gancho oportuno: a disco music. “O rei do soul não considerava a discoteca música de branco, das cocotinhas da zona sul; para ele, ela não era oposta, mas complementar ao soul negro da galera da zona norte. Tim se sentia muito à vontade ao lado de Kool and the Gang e do Chic”, escreveu Nelson Motta na biografia Vale Tudo.

Daí veio o sucesso de Tim Maia Disco Club (1978), fase que prosseguiu até o homônimo de 1980.

Em 1982, ele lançou o excelente Nuvens pela Seroma, que não teve boa distribuição e, consequentemente, não lhe rendeu sucesso – que só viria com o hit “O Descobridor dos Sete Mares”, do álbum de mesmo nome.

Ele colheu bons frutos com o hit, mas estava em pé de guerra com gravadoras, pulando de uma pra outra. Isso prejudicou sua fase artística e lhe rendeu inúmeros processos judiciais. A estabilidade só veio no final dos anos 1980, com o lançamento de Carinhos, que mostrava um Tim Maia mais focado em composições românticas.

Foi nessas buscas interiores que, nos anos 1990, o músico decidiu cantar bossa nova – gênero que, a partir de então, estaria incorporado em sua obra até o fim de sua carreira.

Conforme os anos se passaram, Tim registrou vários e vários hits, além dos já citados: “Do Leme ao Pontal”, “Paixão Antiga”, “Vale Tudo”. E deu outra chance às suas composições em inglês, que também não devem nada aos clássicos no quesito qualidade.

Nessa Discografia Na Mira de Tim Maia, optamos por resenhar somente os trabalhos de estúdio mesmo. Todos sabem que ela é bem extensa: 28 discos de estúdio (mais um póstumo), 2 ao vivo (mais um póstumo) e 17 coletâneas – sem deixar de mencionar as participações nos álbuns de Eduardo Araújo (A Onda é Boogaloo, 1969), Elis Regina (Em Pleno Verão, 1970), Sandra de Sá (compacto Vale Tudo/Quero Ver Você Dançar, 1983) e Gal Costa (Bem Bom, 1985), além do tributo de 1999.

Também não entramos em detalhes de compactos (foram 22). Afinal, de uma forma ou de outra, as canções se encaixaram nos discos.

A intenção deste post especial é analisar a obra do Síndico, apontar os hits, se emocionar com algumas lindezas, sentar o pau nas decepções e redescobrir muitos (e são muitos mesmo) clássicos perdidos. Fizemos uma reavaliação de cada um dos 28 discos, para que você tenha uma noção básica da representatividade de cada obra. As estrelinhas estão aí para serem discutidas, discordadas, criticadas, elogiadas. Dispare nos comentários!

Boa navegação!

Tim Maia (1970)

Ano: 1970
Gravadora: Polydor
Avaliação: 9/10

O primeiro disco do Síndico é uma coleção de hits. Nele, alguns dos maiores de seus clássicos: “Eu Amo Você”, “Primavera (Vai Chuva)” (as duas escritas pela dupla Cassiano e Silvio Rochael) e “Azul da Cor do Mar”, de autoria de Tim Maia. Esta emblemática canção foi escrita quando ele morava numa espécie de república. Enquanto os rapazes que dividiam quarto com ele farreavam com várias garotas, um Tim Maia desolado buscava inspiração em um calendário com tema de praia, já que nenhuma delas queria sair com ele (agradeça a elas; não sabem o favor que fizeram permitir que essa joia nascesse). Também tem a linda “Cristina”, um despertar para a paixão. Inclusive, o Síndico registrou um take mais acelerado e cru, com arranjos menos orquestrais (“Cristina nº 2”). Com este disco, o público aos poucos foi caindo no balanço de um músico que sabia dosar as medidas tanto quando falava de festança e alegria (“Coroné Antônio Bento”, parceria com Cassiano), como quando falava de melancolia (“Você Fingiu”). Na última canção, “Tributo a Booker Pittman”, Tim Maia insere um arranjo meio cool jazz (créditos a Cláudio Roditi) e canta em inglês um tributo ao grandioso clarinetista que tocou com Louis Armstrong, fez amizade com Pixinguinha e morou em Copacabana. Tim Maia (1970) geralmente é citado como a obra-prima do mestre, mas outros registros também merecem destaque.

Ouça: “Azul da Cor do Mar”

Tim Maia (1971)

Ano: 1971
Gravadora: Polydor
Avaliação: 10/10

Ainda melhor que o primeiro, Tim Maia (1971) é mais carregado de balanço – como já mostra a bombástica “A Festa do Santo Reis”, que faz o ouvinte dimensionar a alegria que é se aprofundar em sua obra. Tudo fica ainda melhor com “Não Quero Dinheiro”, com aquele refrão delicioso: ‘Quando a gente ama/Não pensa em dinheiro/Só se quer amar, se quer amar, se quer amar’. Puro contágio. “Salve Nossa Senhora” resgata o clima de festança proporcionado pelo acordeom, triângulos e guitarras de “A Festa do Santo Reis”. Linda também é “Um Dia Eu Chego Lá”, na minha opinião uma das melhores músicas do Síndico. ‘Trabalho, trabalho/No fim do mês não vejo um tostão’: que brasileiro não se identifica com isso – do cidadão que vive pra pagar imposto ao consumidor compulsivo? Em “Não Vou Ficar”, as guitarras de Paulo e Hyldon fritam e os pratos da bateria de Paulinho aceleram as emoções de Tim Maia, que diz não querer se iludir com um amor que está à beira da perdição. Aí, meu camarada, entra aquele arranjo de Pinduca no vibrafone que derrete qualquer machão-alfa. E o síndico nos agracia: ‘Pensando bem/Não vale a pena/Ficar tentando em vão/O nosso amor/Não tem mais condição’. Ainda tem espaço para “Meu País”, onde Tim canta que sua passagem nos Estados Unidos foi importante – ‘Porém no meu país/Senti tudo o que quis’. Se for pra escolher um disco só de Tim Maia para uma viagem, confinação, ilha deserta, o que for – escolha este!

Ouça: “Não Vou Ficar”

Tim Maia (1972)

Ano: 1972
Gravadora: Polydor
Avaliação: 8.5/10

No terceiro disco, Tim Maia deu mais espaço para o seu sentimentalismo, explorando arranjos que levam os ouvintes a dançar coladinho com seu par – caso da sequência “O Que Me Importa” e “Lamento”, uma balada com violão e órgãos em baixo volume. Quando entra a bateria, é o momento perfeito para você deixar suas lágrimas extravasarem. “Sofre” resgata aquele típico som da Stax – lembra demais os primeiros anos do Booker T. & the MGs. O ápice de seu sentimentalismo é estourado em “Pelo Amor de Deus”, momento em que o síndico clama por um tempo, um sossego. De fato, este álbum mostra a tentativa do cantor de explorar outros terrenos dentro da soul music: “O Que Você Quer Apostar” une seu universo à explosão da Jovem Guarda; “Já Era Tempo de Você” é um jazz na medida; e “These Are the Songs” (famosa em dueto com Elis Regina) mostra a capacidade de Tim Maia de ser um crooner – crooner do balanço, bom dizer, algo que a percussão de Chacal não nega. Com exceção de “Canário do Reino”, “Já Era Tempo de Você” e “O Que Me Importa”, todas as canções foram escritas por Tim Maia.

Ouça: “Pelo Amor de Deus”

Tim Maia (1973)

Ano: 1973
Gravadora: Polydor
Avaliação: 8/10

Dessa primeira fase de Tim Maia, talvez este seja o disco menos comentado. Mas a grande verdade é que o Síndico continua inspirado como nos trabalhos anteriores. Como já é de costume, abre com um hit. “Réu Confesso” é uma evolução daquela linha ‘cornoafetiva’ que o cantor sempre fez questão de enaltecer: ‘Longe de você/Já não sou mais nada’. “Compadre” e “Over Again” (instrumentação similar a “Réu Confesso”) dão aquela linha ‘escutável’ ao disco. Quando entra “Até que Enfim Encontrei Você”, percebemos que Tim está mais etéreo. A canção não é swingada como seus principais hits; é um soul na medida. “O Balanço” já é mais funky, mas Tim não está em seus momentos de mais potência. Quando ele canta ‘Todo mundo que eu conheço/Chora’, esperamos uma entrega maior do cantor. O lado A pode não estar à altura dos trabalhos anteriores, mas não se deixe enganar. O lado B compensa – e muito! “Do Your Thing, Behave Yourself” é uma composição em inglês que veio para preceder “Rational Culture” (que veio um ano depois) no quesito ‘good vibrations’. “Gostava Tanto de Você” é hours concours: escrita por Édson Trindade em homenagem à filha que havia falecido, tornou-se uma das grandes vitrines do mestre. Na primeira versão da música, a voz de Tim está um pouco abafada (algo que seria arrumado tempos depois, provavelmente por exigência do próprio músico). “Música no Ar” é pura lindeza e, na dobradinha “A Paz no Meu Mundo é Você” e “Preciso Ser Amado”, o Síndico não tem medo de expor o quanto precisa de amor. Todos precisamos, não é mesmo?

Ouça: “Réu Confesso”

Racional Volume 1

Ano: 1975
Gravadora: Seroma
Avaliação: 9/10

Tim Maia sempre foi adepto a uma vida de excessos: doses exageradas de whisky, cocaína, maconha, mescalina… Por isso, seus músicos estranharam quando ele, de um dia pro outro, resolveu pregar a filosofia de um livro gigantesco chamado Universo em Desencanto, de Manoel Jacintho. Todos achavam que era mais uma de suas muitas doideiras. A coisa ficou séria quando perceberam que sua voz estava tinindo de potente (ele havia parado com a chapação), cantando sobre ‘imunização racional’ e ‘leia o livro’. Estava tão sério, que ele exigiu que todos usassem roupas brancas tanto nas gravações, quanto nas apresentações na TV, recusando-se a tocar os hits do passado (mais informações sobre o disco aqui). Outro fator que contribui para o misticismo do primeiro álbum de sua fase Racional: a banda está hiper-afiada. Toque de gênio aqueles slaps de baixo no refrão final de “Bom Senso”. Segundo o músico Paulinho Guitarra, as bases já estavam prontas desde 1974, só as letras que mudaram por conta dessa nova fase do Síndico. Tudo bem que é uma chatice essa pregação messiânica de uma filosofia duvidosa de resguardo e caretice. Mas nada paga aquela jam de rhtytm’n blues de “Rational Culture”: ali tem Herbie Hancock, Stevie Wonder, Curtis Mayfield, um pouco de Parliament… E ele diz que sua cultura vai ‘governar o mundo’: ‘read the book/The only book/The book of God’. Se essa doutrina é verdadeira ou não, preferimos não questionar. Mas o fato é que Tim Maia navegou em suas profundezas e se redescobriu, buscou o ‘eu interior’ – e nos entregou isso de forma instigante.

Ouça: “Bom Senso”

Racional Volume 2

Ano: 1976
Gravadora: Seroma
Avaliação: 9.5/10

Se você acha que a energia do primeiro disco da fase Racional é intensa o suficiente, vai se chocar ainda mais com o Racional Vol. 2. O balanço de “Quer Queira Quer Não Queira” é de remexer os quadris: como se fosse o funk tocado no paraíso, de tão bonito que é. “Paz Interior” traz uma sessão de metais que lembra os principais hits da primeira fase do cantor (1970-1975). Quando ele diz ‘eu agora já não dependo de você’, a mensagem é direta aos seus tempos de doideira e insanidade. “O Caminho do Bem” é mais suave: Tim Maia canta baixinho, ele quer ser o seu inconsciente para te levar pro ‘caminho racional’ (Otis Redding babaria). Em “Energia Racional”, o órgão treme tudo para depois dar espaço para a dança irresistível de “Que Legal”, com guitarras funky de base que dialogam com um teclado inquieto: ‘É legal a cultura viva Racional/É bacana, mas tem muita gente que se engana’. “Guiné-Bissau, Moçambique e Angola Racional”, países africanos que também falam o português, são os alvos da pregação de Tim, que queria de qualquer jeito que todo mundo ficasse por dentro dessa nova filosofia (inclusive, ele chegou a mandar exemplares para John Lennon, Curtis Mayfield e James Brown). Considerado um dos marcos da música brasileira, depois de lançar este disco Tim Maia viu que Jacintho não seguia os próprios ideais e sentiu-se enganado. Ele excluiu os discos de sua fase Racional do catálogo e jurou nunca mais cantar nenhuma dessas músicas. Por isso, até hoje, a fase Racional encanta novos fãs. Seus LPs são disputadíssimos em sebos, com preços exorbitantes.

Ouça: “O Caminho do Bem”

Tim Maia em Inglês

Ano: 1976
Gravadora: Seroma (1976), Warner-Continental (1978)
Avaliação: 7/10

Este disco saiu em 1976 pela gravadora independente Seroma, de propriedade de Tim Maia, e foi relançado dois anos depois pela Warner-Continental. Como diz o próprio nome, todas as composições são em inglês. Depois da decepção que teve com a fase Racional, o músico voltou novamente com seus excessos. Só que aqui, ele revela um lado mais intimista. Seu inglês impecável passeia pela amorosa “With No One Else Around”, que recebeu arranjos meio flutuantes, com coro e orquestração. “I Love You Girl” e “Only a Dream” vão fundo naquele termo ‘mela-cueca’ que o próprio Síndico já cunhou para descrever algumas de suas obras. “To Fall in Love” mostra Tim Maia no ápice de seu romantismo, dizendo que ‘apaixonar-se é como queimar no fogo’. Os metais dão tremenda fúria a uma das canções mais bem arranjadas do cantor. Apesar de não ser uma de suas facetas mais reconhecidas, Tim Maia convence muito bem em inglês. Além das mencionadas, é gostoso ouvir “Let’s Have a Ball Tonight” (que tem uma virada funk espetacular, diga-se de passagem) e a sentimental “Day by Day”.

Ouça: “Let’s Have a Ball Tonight”

Tim Maia (1976)

Ano: 1976
Gravadora: Polydor
Avaliação: 8/10

Estou sofrendo/Mas não largo o osso’, canta o Síndico em “Sentimental”, canção que diz muito sobre este álbum. A instrumentação, feita na Seroma, continua afiada. O tal baixo ‘funky machine’ de Antônio Pedro marca bastante presença, mas o fato é que o tijucano sofria por não conseguir emplacar mais nenhum hit poderoso. “Dance Enquanto é Tempo” tem um gingado mas, comparado com as pancadas que ele já havia feito antes (“Não Quero Dinheiro”, “Canário do Reino”), está um pouco aquém. Ele fala de se soltar, e esperamos algo furioso que, com a sequência de “É Preciso Amar”, nos arremessa lá pra baixo. Já com 33 anos, nada mais natural do que citar os novos parentes em “Marcio, Leonardo e Telmo” e nos mostrar que os gloriosos tempos de outrora passaram em “The Dance is Over”. Como as músicas em inglês de Tim geralmente passam batido, muitos podem ter cometido o erro de não prestar atenção em “Nobody Can Live Forever”. Puro soul music, com a voz do Síndico impondo aquela autoridade que lhe é usual de surpreender um certo Al Green. “Manhã de Sol Florida, Cheia de Coisas Maravilhosas” é uma balada de emocionar os casais mais experientes devido à sua orquestração. Mas Tim Maia, que não perde o balanço, deu um jeito de inserir um slap ou outro dentro da canção, para que ela não perdesse a sua identidade.

Ouça: “Nobody Can Live Forever”

Tim Maia (1977)

Ano: 1977
Gravadora: Som Livre
Avaliação: 6.5/10

Mais um disco do Síndico desprovido de hits. Se no trabalho anterior havia uma tentativa de abraçar novamente seu antigo público, com este disco vemos que ele já está cansado de tais esforços. “Venha Dormir em Casa” tem um tempero timmaiano no quesito estética, instrumentação e sentimentalismo. Mas os ouvidos espertos vão notar que falta alguma coisa. Talvez um urro a mais. Uma entrega maior. Não dá pra dizer bem, mas não se pode negar que a música é boa. O bom deste álbum é que não fica aquele ar de ‘não consigo fazer nada decolar, vou entregar qualquer coisa’. Longe disso. “Pense Menos”, que abre o disco, é positivista e carrega aquele clima disco-soul que o músico já havia abraçado há um bom tempo – e seria levado ao extremo no álbum que sucede esta obra. Destaque para “Não Esquente a Cabeça”, mais uma de suas composições simplesmente geniosas: ‘Não se aborreça/Não esquente a cabeça/o negócio é saber filosofar/Vamos não se iluda/Vê se ajuda quem te ajuda/(…)Não está errado/Se solteiro ou se casado/O negócio é viver em paz’. Neste álbum, Tim manda um rock’n roll com vigor em “Ride Twist and Roll”, de fazer pular nas pistas. Para continuar lá, “Feito Para Dançar”: uma funk-session com muitos wha-whas e efeitos nos teclados, pra ninguém botar defeito. Mesmo quando não emplaca hits, Tim Maia mostra que tem uma habilidade nata de nos fazer mexer o esqueleto.

Ouça: “Não Esquente a Cabeça”

Tim Maia Disco Club

Ano: 1978
Gravadora: WEA
Avaliação: 9.5/10

Os anos que sucederam sua fase Racional não foram tão iluminados quanto os da primeira metade dos anos 1970. Bom, a luz que faltava realmente voltou a brilhar neste radiante Disco Club. Tim Maia voltou às paradas, reconquistou seu público e angariou muitos e muitos outros. Motivos não faltavam. “A Fim de Voltar” tem tudo a ver com o momento que o Síndico estava passando. ‘Não tem jeito de ficar/Ficar satisfeito/Numa legal/Se você não me ajudar agora!’ Como se fosse a última arma do músico para voltar ao topo. Mas, calma, ele não chega a apelar. Disco Club é o resultado final de uma transição musical que já estava acontecendo desde o último volume de sua fase Racional. Os arranjos metálicos da disco music já davam os ares da graça em canções anteriores. Mas aqui é onde ela realmente abraça tudo. E a coisa só melhora quando se tem nos créditos a participação da Banda Black Rio, o parceiro Hyldon e o guitarrista Pepeu Gomes. Pode colocar o globo de prata, as luzes, fumaça e botar pra dançar! ‘Se alguém ligou/Acenda o farol/Acenda o farol’ – de “Acenda o Farol”. “Sossego”, que resgata aquela estética funky da pesada, é de elaborar passinhos: ‘Ora bolas/Não me amole/Com esse papo/De emprego/Está vendo?/Não tô nessa/O que eu quero: sossego’. Cara, se você nunca dançou esse clássico nas pistas (seja nas festas familiares mais comprometedoras a bailes de música negra), tenho que te dizer que há uma reticência grande na sua linha do tempo da diversão. É no Disco Club também que está uma das composições mais lindas de Tim Maia. ‘Juro não ser mais/Um bobão/Hoje resolvi mudar/Vou cantar, vou cantar’. Sabe de qual estou falando, né? Da dor de corno não resolvida de “Se Me Lembro Faz Doer” que, apesar de ter sido castigada por alguns grupos pagodeiros anos depois, continua emocionando como nunca. Que retorno, Tim!

Ouça: “Sossego”

Reencontro

Ano: 1979
Gravadora: EMI-Odeon
Avaliação: 7/10

“Boogie Esperto” abre o disco dando a impressão de ser uma espécie de continuação da fase que veio com o álbum anterior. Os naipes de metais fortes com a bateria acelerada oferecem o arsenal perfeito para se equiparar a um James Brown (claro que muito disso deve ser creditado à excelente Banda Black Rio, que mais uma vez acompanha Tim Maia). Essa estética faz uma ponte com seu estilo romântico, coisa que o Síndico já emenda em “Eu Só Quero Ver”, com arranjos do jovem Lincoln Olivetti, que também toca teclados – e tornou-se um de seus maiores parceiros musicais. Em “Canção Para Cristina”, Tim Maia diz voltar a ter vontade de amar – um sentimento comum a um homem que está chegando aos 40. “Vou Com Gás” funciona como uma sequência de “Sossego” – a instrumentação é bem parecida. Talvez pelo grande sucesso do single, Tim Maia aproveitou a levada, uma pequena homenagem ao estado de Minas Gerais. O álbum funciona bem mas, equiparado à explosão de Tim Maia Disco Club, é apenas uma molécula. Esqueça qualquer comparação, e você vai se entregar à bela “Pra Você Voltar” e ao boogie poderoso de “Para Com Isso” (obrigatória em festas revival) como se estivesse em um baile dos anos 1980.

Ouça: “Reencontro”

Tim Maia (1980)

Ano: 1980
Gravadora: Polydor
Avaliação: 7/10

Este é o último álbum da fase ‘disco’ que começou com o antológico Tim Maia Disco Club – e também o último com a Banda Black Rio. Apesar de muitos gostarem dessa faceta do Síndico, ele causava uma briga danada em cada gravadora que pisava o pé, já que elas exigiam sucessos. De volta à Polydor, algumas canções de pista novamente dão os ares, como é o caso da ótima “Não Vá” e o baile envolvente de “Você e Eu, Eu e Você (Juntinhos)”. Mas, não dava pra forçar: Tim não estava mais naquela empolgação de dois anos atrás. Por mais que gostasse da agitação funky, também imperava a vontade de mostrar quem era o verdadeiro cara por trás daquele figurão bizarro que faltava a shows e gostava de um whisky. Isso ele consegue fazer com êxito em “Tudo Vai Mudar”, inserindo o ritmo contagiante do bongô numa orquestração R&B. O velho parceiro Cassiano volta a contribuir com Tim em “Não Fique Triste”. Tim Maia, que costuma dar a versão definitiva das canções em que põe a voz, também rouba a cena em “Nosso Adeus”, composição de Beto Cajueiro e Paulo Zdanowski. E, pela primeira vez, declara seu amor ao samba em “Meu Samba”: ‘Meu samba/Tem seu lugar/De real valor/De valente condutor/Balanço bom’.

Ouça: “Não Vá”

Nuvens

Ano: 1982
Gravadora: Seroma
Avaliação: 9.5/10

Ficar indo de uma gravadora pra outra, brigando para conseguir o que quer, não era pra Tim Maia. Ele queria ditar seus próprios rumos artísticos sem a interferência de empresário nenhum. Foi então que ele decidiu retomar com a Seroma para gravar o álbum Nuvens. Ele foi lançado dois anos depois do último porque o Síndico criou sua própria estratégia de divulgação: lançou um single, que tinha como lado B “Do Leme ao Pontal” (que nem ele esperaria que fosse estourar tanto), para angariar uma boa verba e distribuir o disco de forma mais ampla. No entanto, por mais que se esforçasse, a Seroma não tinha essa influência toda das grandes gravadoras – e com Tim Maia se recusando a jabás e ‘festinhas de lançamento’, então! Desta forma, foram comercializadas poucas unidades deste que é um dos maiores discos do mestre. Ele está livre para explorar os campos musicais que lhe dão na telha: começa com a levadinha bossa da faixa-título (escrita por Cassiano e Deny King), vai para o xamego bom (clara influência do samba) de “Outra Mulher”, até chegar no soul ‘na medida’ de “Ar Puro”, onde Tim Maia mostra pleno vigor para nos dizer que devemos ‘cuidar do ar’. Em “A Festa”, ele deu seu próprio jeito para simular um ambiente alegre: pediu pra galera do estúdio bater palmas e dar risadas. O baixo de Rubens Sabino agita como se fosse um som de fundo. Quando entram os solos de metais, tudo se apimenta. Em Nuvens, o Síndico registrou algumas de suas canções mais tristes: “Deixar as Coisas Tristes Pra Depois”, composição de Pedro Carlos Fernandes; e “Ninguém Gosta de Se Sentir Só”, de sua autoria, onde traça o seu perfil como nenhum outro conseguiria: ‘Tenho um gênio forte/Sou um pouco abusado/E com fama de doidão’. Sem esquecer de sua linda versão para “Casinha de Sapê”, de autoria de Hyldon. É de fazer chorar de tão linda! Certos músicos acabam se perdendo quando vão por vias independentes. Mas um mestre como Tim Maia sempre soube o que quis e onde chegar. Precisava da liberdade. Pode não ter conquistado sucesso comercial com Nuvens, mas deixou cravada uma das mais belas obras de toda a música brasileira.

Ouça: “Casinha de Sapê”

O Descobridor dos Sete Mares

Ano: 1983
Gravadora: PolyGram
Avaliação: 9/10

A faixa-título deste disco é irresistível. Com uma pegada que lembra bastante “Acende o Farol”, o Síndico puxa o groove ovacionando algumas das mais belas praias que temos em nosso Brasilzão: ‘Pois bem cheguei/Quero ficar bem à vontade/Na verdade eu sou assim/Descobridor dos sete mares/Na verdade eu quero’, e entra um naipe nervosíssimo de metais. É, parceiro, parece que o Tim Maia explosivo do Disco Club está de volta. Bem, pelo menos era o que a PolyGram queria, para alavancar as vendas. Quem assina a composição de “O Descobridor dos Sete Mares” é a dupla Michel e Gilson Mendonça, que a partir de então colaboram com várias faixas para o Síndico (deste álbum eles também assinam a ‘loucura legal’ de “Pecado Capital” e a reflexiva “Neves e Parques”). Talvez pela pressa da gravadora em lançar o disco, há poucas canções de autoria de Tim Maia. Com exceção da brincalhona “Terapêutica do Grito” e da quase-empírica “Essa Dor Me Apanha” (com belo acompanhamento de flauta do próprio Tim), todas as demais composições são de outros autores. Destaques para “Rion Mon Amour”, do eterno colaborador Cassiano; e a sofreguidão impassível de “Me Dê Motivo”, música de Michael Sullivan e Paulo Massadas que ficou im-pe-cá-vel na voz do Síndico.

Ouça: “O Descobridor dos Sete Mares”

Sufocante

Ano: 1984
Gravadora: PolyGram
Avaliação: 5/10

Apesar de não demonstrar tanto com o rumo de suas letras, Tim Maia era um grande experimentador. Neste álbum, ele já mostra outra possibilidade de balanço com “Debaixo do Manacá”, que funciona como uma espécie de eletrobaião. É uma boa música. “Ga-Gaguejando” é um funk que já contém a fórmula usual de Tim Maia. “Aquariar”, escrita por Neuma e Nelson Morais, tem uma letra interessante que fala de novos tempos – provavelmente inspirada pelo momento político do fim da ditadura, que estava por vir. “Mama Super Mama” é uma das poucas músicas escritas por Tim Maia em Sufocante – e talvez a única em que ele mostra o vigor dos velhos tempos. Depois disso, o disco se transforma em uma sucessão de canções românticas que te deixam lá embaixo: “Quero Te Dar (Desejos)”, a faixa-título, “Bons Momentos”, as dores de “Amor Verdadeiro” e “Venha Ser Minha Mulher”. O problema não é bem o clima das canções – é que elas, nem de longe, se aproximam do verdadeiro Tim Maia sentimental que gostamos de compartilhar lágrimas. Elas ficam ao relento, como se fossem obrigatoriamente inseridas para cumprir contrato com a PolyGram. E o resultado final não passa de mediano.

Ouça: “Debaixo do Manacá”

Tim Maia (1985)

Ano: 1985
Gravadora: RCA Victor
Avaliação: 5/10

Já na RCA-Victor, Tim Maia deu maturidade às suas canções românticas. Tanto nas composições, como nos arranjos. Há uma dinâmica maior: instrumentação mais híbrida ao invés do clima exageradamente soturno que permeou a maioria das canções de Sufocante. O investimento foi alto no debut de Tim com a nova gravadora: tanto que alguns críticos chegaram a afirmar que o Síndico havia se vendido à jogatina da indústria fonográfica. (Ele mesmo quis dar um sumiço com algumas tapes, mas felizmente elas foram recuperadas a tempo por Michael Sullivan.) O grande impulso do álbum são as faixas “Bem-Vinda” (de Valmir) e “Leva” (Sullivan e Paulo Massadas), canções românticas mais uma vez arranjadas por Lincoln Olivetti que geraram um grande bafafá nas rádios. Por mais que o álbum seja criticado por muitos, nele Tim Maia está inspirado em seus vocais, dando o tom certo para seu lado mais intimista. A instrumentação está mais polida, como se fosse preparada para um love songbook – é evidente que a gravadora interferiu bastante, jamais a Seroma ia querer chegar numa sonoridade dessas (um ponto negativo para o álbum, diga-se de passagem). Outros sucessos: “Pede a Ela” (Carlos Colla, Ed Wilson), “Uma Estrela a Mais” (Fernando Gama, Ronaldo Bastos) e “Acredito” (uma das poucas de autoria de Tim Maia no álbum relembra os velhos tempos do disco-funk). Por mais que gostemos do Síndico, Tim Maia é para se ouvir com os amigos, em confraternização (mesmo nos momentos mais melosos). Não combina esse lance de ‘escutar Tim Maia sozinho em casa’, talvez uma involuntária intenção do homônimo de 1985. Detalhe: esta é a capa mais bonita dos álbuns de Tim Maia, apesar de ser uma cópia deslavada de O Poderoso Chefão.

Ouça: “Leva”

Tim Maia (1986)

Ano: 1986
Gravadora: Continental
Avaliação: 5.5/10

Depois da briga com a RCA-Victor, Tim Maia recebeu uma proposta da Continental para gravar mais um homônimo. Claro que ele tinha que dar uma garantia de sucesso. Para tanto, registrou o estouro “Do Leme ao Pontal”, que já tinha sido gravada em compacto em 1982. Acho que nem precisa dar muitos detalhes desta canção, né? Ele fala das belezas do Rio de Janeiro em uma disco-music excitante, evocando o coro ao enumerar as praias cariocas. Também fez sucesso a música “Telefone”, um diálogo amoroso com uma amada que liga pra ele às 4h da manhã. É uma das poucas canções amorosas de Tim Maia em que ele mantém a firmeza de uma relação (‘leve um beijo e adeus’) e dá um pé na bunda de uma garota – perceba que é sempre ele quem sofre quando fala de sentimentos. Devido ao estouro nas rádios, as gravadoras insistiam para que o Síndico enfatizasse essa coisa mais sentimental. Afinal, naquela década o público que gostava de novela e músicas melosas era quem dominava nas FMs (talvez uma herança desgraçada da Jovem Guarda) e, por estar em uma grande gravadora, Tim Maia jogava o jogo. Mas isso não quer dizer que o álbum é desprovido de bons clássicos. A trinca “Pudera”, “Brilho” e “Vê Se Decide” é digno de um disco de qualidade do tijucano. Ele incluiu no tracklist uma outra versão de “Brother, Father, Sister and Mother” (gravada primeiro no disco de 1976), que ganhou um clima mais retrô. Vale lembrar que, desde o lançamento do Tim Maia em Inglês pela Warner-Continental em 1978, o Síndico havia desistido de gravar canções estrangeiras em seus álbuns: o desestímulo era tanto comercial, quanto pessoal (Tim achava que os fãs ficavam desagradados com suas músicas em língua estrangeira). Esta versão ficou ainda melhor, bom dizer.

Ouça: “Do Leme ao Pontal”

Somos América

Ano: 1987
Gravadora: Continental
Avaliação: 3/10

Somos América veio na esteira do sucesso do trabalho anterior. No álbum, ele incluiu o single “Amiga” (composição de Cleonice e Edson Trindade, que havia sido lançado em compacto em 1982, com “Do Leme ao Pontal”): a música fala de como o Síndico foi se moldando conforme veio o sucesso – ‘Virei escravo do sucesso de hoje em dia/Mas ninguém sabe/Muitas vezes eu fingia’. Mostrar ao público quem era o verdadeiro Tim Maia era um dos grandes propósitos deste disco. Isso se aplica também à faixa de abertura “Onde Está Você”, onde diz ‘não mudei’, ‘não deixe o nosso amor assim’, ‘me envolvi demais’ (apesar de ser uma música romântica, impossível não associar à carreira do Síndico). Duplo sentido também é fácil de encontrar em “Se Esse Amor Termina”, onde Tim Maia afirma ter vontade de selar um compromisso firme – com uma mulher ou com o seu público? Sua sensibilidade que determina. O fato é que essa dubiedade é tão latente que chega a encher o saco do ouvinte. Ainda assim, por ser o segundo disco com a Continental, vemos que o Síndico está se firmando. Tanto que aqui há pelo menos quatro composições de sua autoria ou coautoria (“Se Esse Amor Termina”, “Parabéns”, “Somos América” e “Você Mentiu”), um aumento se comparado à sua fase pós-O Descobridor dos Sete Mares. Apesar de sua estabilidade na gravadora, este disco mostra um Tim Maia esgotado em suas possibilidades: “Você Mentiu” parece um lado-B descartado de Tim Maia Disco Club; “Ternura em Seu Olhar” carece daquela personificação timmaiesca; e “Parabéns” não tem criatividade alguma na composição. Chinfrim pros padrões de Tim Maia.

Ouça: “Onde Está Você”

Carinhos

Ano: 1988
Gravadora: Continental
Avaliação: 9/10

Achou que os bons tempos de Tim Maia haviam se esvaído? Não não. Apesar de ter deixado de lado o balanço funky dos anos 1970, finalmente ele conseguiu se firmar na obscuridade dos anos 1980. Quem achava que as rádios iriam definhar a grandiosidade do Síndico, deve ter se enganado. Carinhos é um grande disco. A verdade é que, depois de tantas irregularidades e trocas de gravadoras, Tim Maia atingiu dois quesitos importantes em sua carreira naquele momento: estabelecer-se numa gravadora (a Continental) e lapidar seu lado sentimental, que parece ter atingido o ápice neste álbum – e lhe rendeu indicação ao Globo de Ouro. A faixa-título, escrita por Prêntice e Gabriel O’Meara, é uma balada certeira – muito por conta dos compassos da bateria. “Cabeça Feita” traz uma introdução que lembra “Gostava Tanto de Você” graças ao arranjo de metais, mas logo Tim evoca a maturidade de seus sentimentos: ‘O meu coração, mulher/Embarcou no seu amor’. Como o investimento e as possibilidades comerciais deste disco eram pomposas, ele registrou uma versão mais disco-funk de “Ar Puro” (de Nuvens) e trouxe um clima pop-romântico de “With No One Else Around” (de Tim Maia em Inglês, uma das músicas mais bonitas do homem) – duas canções que não tiveram a devida visibilidade por conta da distribuição independente pela Seroma na época de seus respectivos lançamentos. Ah, e mais uma vez Tim Maia descolou um hit potencial: sério, que interpretação é aquela de “Paixão Antiga”, dos irmãos (gênios) Marcos e Paulo Sergio Valle?!? ‘Deixa o coração te seduzir/Não dá mais pra disfarçar/Deixa o sentimento decidir/Já é hora de voltaaaaaaarr!’ Se você não se emociona com essa música, na boa, pare agora de ler este especial.

Ouça: “Paixão Antiga”

Dance Bem

Ano: 1990
Gravadora: Continental
Avaliação: 8/10

Em 1990, Tim Maia estava em um bom momento musical por conta dos elogios do trabalho anterior. A grande intenção do álbum é fazer você mexer os pés. No tracklist, várias já conhecidas de trabalhos anteriores: “Rodésia”, que ganhou uma tonalidade pop com uma produção mais limpa e menos orquestrada (no lugar dos metais, solos de guitarra – provavelmente uma sacada da gravadora para pegar carona no ‘boom’ do rock nacional); “Acenda o Farol” em ritmo um pouquinho mais desacelerado (mas ainda contagiante); “O Descobridor dos Sete Mares”, que entrega uma rouquidão maior do Síndico; “Paixão Antiga”, que não entende-se bem o motivo de entrar novamente, uma vez que já causou no álbum anterior; e “Mãe Natureza”, que nada mais é que uma versão repaginada do clássico “Casinha de Sapê”. Mas, calma, não estamos tratando de uma coletânea. É necessário dizer que boa parte dessas repetições vêm de músicas catalogadas em outras gravadoras – motivos de inúmeros processos que geraram grandes prejuízos ao cantor que, pra piorar a situação, costumava dar o cano nas audiências dos tribunais. De inédita, temos a faixa-título, que retoma sua faceta funky com a adição de baterias eletrônicas. A extravagante “Vale Tudo” (escrita especialmente para Sandra de Sá, que a gravou em 1983), por si só, faz o baile: ‘Vale o que vier/Vale o que quiser/Só não vale dançar homem com homem/Nem, mulher com mulher’ (hoje em dia uma canção com uma composição dessas ia gerar um bafafá tão grande…). As outras duas inéditas, “I’ve Never Felt Like That Before” e “Amizade Não Tem Preço”, dão continuidade ao balanço. Apesar de não ter tanto material inédito, Dance Bem é o álbum que sintetiza o que de melhor aconteceu na fase oitentista do Síndico. Ideal para mostrar pr’aquele incauto que acredita que os anos de glória de Tim Maia pararam nos anos 1970.

Ouça: “Vale Tudo”

Tim Maia Interpreta Clássicos da Bossa Nova

Ano: 1990
Gravadora: Vitória Régia
Avaliação: 7/10

Então toma essa: além de evocar os excessos com seus funks adoidados, elevar a alma com suas canções românticas de tocar o coração e xingar a rodo roadies e músicos durante as apresentações, a voz de Tim Maia também era excelente na interpretação de clássicos da… bossa nova. Apesar de representar o oposto do que o músico fez até então – o soul-funk de Tim era para as massas; bossa nova era a máxima da sofisticação – o disco foi uma espécie de realização para o Síndico. Sim, ele também foi um dos muitos influenciados pela música de João Gilberto – influência mais perceptível nos grupos e trabalhos antes do primeiro disco. Ele teve que treinar para mudar a tonalidade dos vocais e não passar do ponto em canções como “Wave” (Tom Jobim), “Folha de Papel” (Sergio Ricardo), “A Rã” (Caetano Veloso, João Donato). “Girl From Ipanema”, que já ultrapassou o desgaste de tanto que foi interpretada, ficou bonita na voz de Tim, que a cantou com um sotaque perfeito (como ele costumava fazer nas músicas em inglês). Para que a climatização beirasse a perfeição, Almir Chediak assinou a direção musical e chamou craques musicais para acompanhar o Síndico: Antonio Adolfo (piano), Luizão Maia (baixo), Chiquito Braga (violão) e Wilson das Neves (bateria). Destaque para a lindíssima versão de “Meditação”, composição de Tom Jobim e Newton Mendonça que ficou eternizada no segundo álbum de João Gilberto (O Amor, o Sorriso e a Flor). Quem disse que Tim Maia não sabia forjar sutileza? Incrível é saber que, mesmo depois de se acabar com drogas e bebidas, ele ainda permanecia com a voz praticamente intacta.

Ouça: “Eu e a Brisa”

Voltou Clarear

Ano: 1994
Gravadora: Vitória Régia
Avaliação: 6/10

Se o álbum anterior foi uma espécie de ‘libertação’ das limitações da soul music, em Voltou Clarear Tim Maia foi ainda além da bossa nova. Em suma, é um disco que comprova o ecletismo tanto de suas influências quanto de seu poderio vocal. A bossa nova, tão bem cantada no disco anterior, mais uma vez está presente: a singela “O Barquinho” (Ronaldo Bôscoli/Roberto Menescal), a paisagística “Corcovado” (Tom Jobim) e a melancólica “Fim de Noite” (Chico Feitosa/Ronaldo Bôscoli) são algumas delas. A incursão de Tim Maia no gênero foi tão intensa, que o motivou a compor “Você Foi a Primeira” com Almir Chediak: nela, o Síndico criou uma espécie de fusão dos arranjos bossanovistas com o baile-retrô que caracterizou seu som na década de 1980. Em “O Que Vem da Bahia” é nítida a influência de Dorival Caymmi, com uma forma mística de nos transportar ao cenário fantasioso da Bahia. No entanto, quando chega próximo do fim da música, Tim Maia muda totalmente o ritmo e cai em um forrózinho pra falar de Pernambuco. Aliás, esse lado ‘Gonzagão’ de Tim Maia é muito bem executado em “O Nordeste é Lindo”, citando a Asa Branca, rapadura e a felicidade daquela gente de Maceió, Ceará, Pernambuco, Aracaju. Não faz feio não em um baile nordestino, visse! Se ficou assustado com o passeio rítmico de Tim Maia neste disco, conforte-se em saber que “Coisa Mais Bonita”, “Sai Pra Lá” e “Minha Musa” (todas escritas pelo próprio, sendo que a primeira tem coautoria de Claudio Mazza) mantêm a identidade do homem intacta.

Ouça: “Sai Pra Lá”

Nova Era Glacial

Ano: 1995
Gravadora: Vitória Régia/Warner Music
Avaliação: 5/10

Alguns cientistas já alertavam para o excesso de calor do planeta – algo que iria se tornar irreversível anos depois, quando foi constatado o tal do aquecimento global. Eles afirmavam que frios iriam se tornar mais frios – e os verões, cada vez mais quentes. Bom, Tim Maia não era de acreditar muito nisso. Louco como sempre foi, entrou numas de que o mundo logo entraria numa era glacial (coisa que já aconteceu com o nosso planeta). E deu o tom alerta na faixa-título: ‘Todo mundo sabe/Mas ninguém quer dizer/Não é responsável/Pro que vai acontecer/Se prepare, garota/Sem shortinho/Sem bustiê’. Mas, ao contrário da intensidade de sua fase Racional, essa é a única canção do disco que fala de frios e geleiras. De suas composições, uma nova parceria com Almir Chediak na baladinha “Totalmente Natural”, o realismo que já está incrustado na veia do Síndico em “Não Me Iludo Mais” e a bela “Essa Tal Felicidade”, uma reflexão sobre a vida. A “Corcovado” daqui é a versão em inglês, que lá fora ficou conhecida como “Quiet Night of Quiet Stars” (responsável por alavancar a carreira de Astrud Gilberto); e “Meditação”, que ficou bonita no álbum anterior, ganhou uma versão à altura com o inglês de Tim Maia.

Ouça: “Essa Tal Felicidade”

Amigo do Rei (com Os Cariocas)

Ano: 1997
Gravadora: Vitória Régia
Avaliação: 7.5/10

Para quem não sabe, Os Cariocas é um dos grupos mais tradicionais do Rio de Janeiro. Formado nos anos 1940 por Ismael Neto nos arredores da Tijuca, foi responsável pelo grande sucesso “Adeus América” (também gravada por Tim Maia no disco de mesmo nome) e, tempos depois, também entrou na onda da bossa nova depois da morte do fundador. Tim Maia, já acostumado a gravar o que e com quem quiser com a sua gravadora Vitória Régia, conquistou uma grande realização ao dividir um disco com caras tão importantes da música nacional. Os coros vocais d’Os Cariocas exigem uma levada mais suave, estética a qual o Síndico estava acostumado desde o primeiro disco que interpretava clássicos da bossa nova (até pode-se dizer que os anos 1990 formularam a ‘fase bossa’ do músico). “Ela é Carioca” poderia ser ambientada em cabarés chiques da praia de Copacabana de tão old-fashioned que é – principalmente por conta do coro. O sambinha bom de “Amigo do Rei” (Braulio Tavares, Lenine) nos transporta para os tempos de Carmen Miranda. Escrita por Caetano Veloso, “Lindeza” ganhou um tom popularesco era-JK – ficou bonita. Claro que Tim Maia não deixaria de testar seus clássicos com o grupo: em “Não Quero Dinheiro, Só Quero Amar”, eles é que tiveram que entrar na onda do Síndico e encararam o desafio de fazer os backings do refrão; “Telefone” ganhou uma levada sambista, com direito a brincadeiras esquizofrênicas nos vocais do grupo; e “Azul da Cor do Mar” ficou mais radiofônica, sem perder a beleza dos arranjos orquestrados.

Ouça: “Valsa de Uma Cidade”

Pro Meu Grande Amor

Ano: 1997
Gravadora: Vitória Régia
Avaliação: 7/10

Como o próprio título já entrega, Tim Maia está todo amores. As músicas são de amor e, apesar de uma ou outra melada (“Por Causa de Você”, “Eu Sei Que Vou Te Amar”, que o Síndico interpretou muito bem), até que ele está inspirado. Ao saber que foi bem elogiado ao cantar a faixa “Oceano” (de Nova Era Glacial, sucesso de Djavan que também entrou neste álbum), Tim Maia se interessou em gravar versões de outras composições do alagoano: “Flor de Lis”, com aquela levadinha bossa que já se enraizou no trabalho do Síndico na década de 1990; e a abertura “Estória de Cantador”, um pop romântico que ganhou belos arranjos de metais. Aquele balanço malandro do homem não podia ser descartado – e ele o inseriu muito bem nas composições que assina no disco: “Pra Fazer Você Sorrir”, “Tudo Era Lindo (E Se Foi)” (que, por mais que seja triste, te faz mexer de alguma forma com aquela percussão meio escondida) e “Eu Confesso”, talvez a marchinha de Tim Maia mais próxima de algo carnavalesco. Apesar de ser eternizada por inúmeras versões, é bem impactante a interpretação de “A Felicidade”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Uma vez dentro da bossa nova, Tim Maia precisou de pouco tempo para saudá-la como um verdadeiro mestre.

Ouça: “Oceano”

What a Wonderful World

Ano: 1997
Gravadora: Vitória Régia
Avaliação: 7/10

Realmente, os anos 1990 serviram para Tim Maia pagar suas dívidas pessoais no âmbito musical. Depois de revisitar à sua maneira bossa nova, samba e baião (os dois últimos em menor grau), neste álbum de 1997 o Síndico foi ainda mais nostálgico e resgatou um pouco do que ouviu quando foi morar nos Estados Unidos: músicas de raízes negras, que influenciaram sua carreira no Brasil. O clima é bem intimista mesmo. Talvez só vá despertar o interesse de verdadeiros fãs do músico, ou fãs de sua voz, que não costuma falhar quando entra em ação. “Hey There Lonely Girl”, de Leon Carr e Earl Schumann que fez sucesso na voz de Eddie Holman, serviu de inspiração para a desconsolada faixa-título do anterior Pro Meu Grande Amor. Aqui, ela é cantada na versão original, em inglês – como todas as demais. “Since I Don’t Have You”, que muitos devem conhecer na versão dos Guns’N Roses, é uma canção de 1958 que ficou eternizada na versão dos The Skyliners (by the way, ficou bem melhor que a versão de Axl Rose por ser bem mais natural, sem aquele esforço vocal que beirava o estapafúrdio do vocalista do Guns). Algumas versões podem enganar ouvidos desatentos: “What a Wonderful World” não é menção ao clássico de Louis Armstrong, mas sim ao hit de Bradford Lewis na voz de Ben E. King; e “Diamonds and Pearls” não é regravação da música de Prince que dá título ao disco de 1991 – é aquela versão que foi composta no início da década de 1960 para o grupo de doo-wop The Paradons. Ao contrário da maioria dos intérpretes, Tim Maia não tenta se destacar ao cravar suas versões de clássicos da música popular. What a Wonderful World é apenas um exercício, uma prova de amor do Síndico às origens da soul music. Ainda assim, uma dedicatória que vale muito a pena ouvir.

Ouça: “Since I Don’t Have You”

Só Você (Para Ouvir e Dançar)

Ano: 1997
Gravadora: Vitória Régia
Avaliação: 8/10

“Lindo Lago do Amor”, do Gonzaguinha, é uma canção estupenda. A levadinha retro-oitentista permeia uma composição que valoriza a beleza natural de uma forma mística, contemplativa. O que poderia ser um trabalho árduo para muitos intérpretes, foi fichinha pra Tim Maia. O contrabaixo rhytm’n blues e a preservação daquele sax melancólico combinaram com a voz do Síndico, que continuava límpida como nunca mesmo depois dos 50. Para garantir o sucesso do álbum, o Síndico gravou uma versão de “Só Você”, composição de Vinícius Cantuária nacionalmente conhecida na voz de Fábio Jr. “Saigon” tem um piano de poucas notas e flashes de um baixo que ensaia uma levada funky, mas logo revela ser uma das canções mela-cuecas do Síndico de contemplar o céu e as ‘estrelas na escuridão’. Fez sucesso sim porque é muito bonita – mas não deixa de ser mela-cueca. “Vixe”, um soul-funk que evoca os velhos tempos de balanço nas pistas, é temperada por um compasso sutil e irresistível. Ela foi escrita pelo compositor, que parece ter voltado a se inspirar nas composições que datam de sua fase disco-funk. Além desta, ele assina mais seis faixas: o soul delicioso de “Cross My Heart”, o ardor perigoso de “Não Se Envolva” (coautoria de Reginaldo Francisco), a bossanovista “People” (coautoria de Paulo R. Alves), o groove curtismayfieldiano de “Eu Te Adoro” e a dobradinha “Day By Day” e “Vivo Sonhando”, que encerram um álbum que mostrou que Tim Maia ainda tinha muito o que mostrar musicalmente pouco antes de sua triste partida.

Ouça: “Vixe”

Sorriso de Criança

Ano: 1997
Gravadora: Vitória Régia
Avaliação: 8/10

Eu fico ali sonhando acordado/Juntando/O antes, o agora e o depois’: quem cresceu ouvindo muita rádio FM provavelmente deve pensar que os versos de “Sozinho” são de autoria de Caetano Veloso. Enganam-se: a música é de Tim Maia. Assim como quase todas as demais que integram um dos últimos lançamentos em estúdio do Síndico. Com exceção de “Acenda o Farol” (que ficou menos acelerada, com clima de nostalgia de belos tempos idos), as demais músicas são inéditas. Começa com “Pense Em Mim (Não Me Trate Assim)”, que acabou ficando brega demais com os backings de Tim Maia interrompendo a canção como aquele famoso programa moralista da Gazeta FM. “Para Que Vou Recordar”, de autoria de Carlos Daffé, mais uma vez expurga os sentimentos do cantor e é a única do álbum que não foi escrita por Tim Maia. Falar de consciência social não era algo tão comum ao Síndico, mas de vez em quando ele enaltecia o orgulho negro (lembra de “Rodésia”, né?). Neste álbum, ele vai mais a fundo nessa faceta, que talvez se tornasse mais presente em sua obra caso permanecesse vivo: em “África Mãe”, fala de não abrir mão do respeito à sua cultura com um lamento que, aos poucos, lhe enche o peito de orgulho – perceptível quando ele aumenta o grave da voz e diz: ‘Erguer a cabeça/E ter confiança/Uma liderança/Para conduzir essa gente bela/Sem esperanças’. Inspiradora! Na faixa-título, o Síndico toma de assalto a autoridade de um mentor e chama, sem pedagogia, as crianças a valorizarem o ensino diante de um abismo social que não perdoa nem os pequeninos: ‘Tanta gente fica rica ganhando tanto dinheiro/E um bocado de criança ficando sem aprender’. Sem deixar de desapontar os aficionados (ou simpatizantes) pela sua veia dançante, também tem o disco-funk de “The Queen” (conhecidíssima como “Jurema”). Apesar de não ter muitos hits, Sorriso de Criança é um discão difícil de ser citado. Mesmo nos anos finais de vida, Tim Maia ainda tinha poder de sobra no campo artístico. Parafraseando o próprio músico em “Dizer que Te Amo (É Muito Pouco)”: ‘Se você for logo embora/Tudo isso irá mudar’. O tempo e as loucuras aceleraram a partida de Tim Maia. Uma grande pena, porque não há nenhum outro artista que dê impulsão à soul music brasileira como este Síndico: não tão amado por alguns, mas adorado por milhões e milhões de fãs, que crescem a cada dia, cada hora. Viva Tim Maia!

Ouça: “Dizer Que Te Amo (É Muito Pouco)”

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ERRATA: Conforme foi atualizado, o disco Tim Maia (1976) foi reavaliado com quatro estrelas, e não com três, como estava anteriormente.

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E aí, o que achou deste Especial dedicado a Tim Maia? Concorda com as avaliações? Foi injusta? Faz jus à obra do Síndico. Não hesite em opinar. Dispare aí nos comentários!