Gravadora: YB/Phonobase
Data de Lançamento: 8 de novembro de 2011
Avaliação: 7/10
Quatro artistas brasileiros de rumos distintos e grande prestígio se encontram e formam um novo projeto. Esse é o ponto de partida inicial para que se desperte o interesse de ouvir Passo Torto, grupo formado por Romulo Fróes, Marcelo Cabral, Kiko Dinucci e Rodrigo Campos.
As referências do ‘samba torto’ de Romulo são prensadas no violão assimétrico de Rodrigo Campos que, em pouco tempo, já se destacou como um dos maiores de nossa música.
“Faria Lima Pra Cá” já é mais acelerada pelos instrumentos acústicos, e Marcelo Cabral empunha o arco para trazer referências mais barrocas à canção no seu contrabaixo acústico. A composição de Kiko Dinucci cita as linhas de metrô da cidade de São Paulo, perfazendo a trajetória de um cidadão que precisa trabalhar para juntar dinheiro, enquanto divaga com suas ambições e obrigações durante o trajeto.
Em “Cidadão”, Cabral faz pontuações mais lentas e obscuras. A composição de Rodrigo Campos fala de um ‘cidadão esquizofrênico’ que poderia ser representado por qualquer um de nós, “às vezes lúcido, feliz, conforme a luz do dia”. Poderia muito bem ser reflexo da solidão necessária que uma cidade grande como São Paulo nos obriga, mas a faixa tem um contexto muito mais expansivo, principalmente quando ouvimos Kiko dizer que “um cidadão nunca vai ser igual”. Nem aqui, nem na China.
Kiko Dinucci faz uma nova releitura da faixa “Samuel”, também lançado neste ano com o projeto Metá Metá, composto por ele, o saxofonista Thiago França e a cantora Juçara Marçal.
“Três Canções Segunda-Feira”, mais uma faixa de Romulo Fróes, dá um tom secular a uma possível paixão (“senhorita das maçãs”, “camponesa virginal”) inspirado pelo primeiro dia da semana – inspiração essa que veio de uma vitrola. Poético.
Rodrigo Campos, claro, não poderia deixar de nos regozijar com sua habilidade excepcional no seu acelerado cavaquinho em “Sem Título Sem Amor”. Tem referências do choro, mas o estilo barroco prevalece e, em pouco tempo, nos vemos seduzidos pela letra de Romulo que evoca o sexo (sem amor) da forma mais despudorada possível. A frase “diz que me ama, sempre” cabe como um complemento ao ato selvagem e delicioso daquilo que nós, seres humanos, mais gostamos de praticar.
Em apenas 32 minutos, Passo Torto te leva à esquina, te acompanha do busão e metrô aos bares da vida até te arremessar ao divã da cama com sua amada. Uma efêmera viagem de reflexões e prazeres dos quais não queremos nos desprender tão cedo.
Ouça abaixo o álbum na íntegra:
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