01 Homem Só 02 Helena 03 Passarinho Esquisito 04 A Não Ser Que Me Ame 05 Símbolo Sexual 06 Adeus 07 O Buraco 08 Isaurinha 09 A Cidade Cai 10 Tempestade 11 Banquete

12 Rárárá

Gravadora: Independente
[rating:4.5]

Na letra de “Helena”, Kiko Dinucci encerra dizendo que ‘a cidade é o centro do cerco’. Lendo assim, parece que o Passo Torto previu as manifestações que ocorrem nas maiores capitais brasileiras por motivos que vão da insatisfação com o transporte público ao direito de protestar.

Falar do factual nunca foi a cara do grupo que, além de Dinucci, reúne os compositores Rodrigo Campos, Romulo Fróes e o baixista Marcelo Cabral.

Subvertendo as linhas do samba e do rock, o Passo Torto mais uma vez criou um olhar analítico sobre o urbano – desta vez, munido de mais complexidade.

Tem tudo a ver a banda ser de São Paulo. A partir dessa premissa, você entende o sentido de solidão de “Homem Só”, o cenário de “A Cidade Cai” e do ‘cansaço que cai de cansaço’ descrito em “Tempestade”.

É o contexto urbano que explica a adoção pelas guitarras elétricas e urgentes ao invés dos violões e do clima acústico do trabalho homônimo. Assim como todo passo precisa da superfície para ser dado, cada composição de Passo Elétrico é ambientada numa metrópole intrincada, onde poeira se entrelaça com a vida (“A Não Ser Que Me Ame”) e a despedida torna-se uma efeméride tão melancólica quanto visceral – como aponta as linhas de “Adeus”.

O dom de Rodrigo Campos de criar personagens e descrevê-los em poucos versos é bem aplicado em “Helena”, que dá um panorama urbano ao dizer que prédios têm ‘varizes’, ‘micose’ e ‘bronquite’; e em “Isaurinha”, que revela um cosmopolita viajado que ‘tem vergonha do amor’.

Os impulsos dos muitos personagens urbanos são extensos. E, o maior deles, é sexual. Isso permite que o Passo Torto divague sem vulgaridades por ‘debaixo do ventre’ em “Símbolo Sexual”, que exibe um flamejante solo nas guitarras de Kiko e Rodrigo. “Rárárá” retoma a estética sambista e, forjando um Bezerra da Silva cult, não tem medo de ‘dizer atrocidades’ como ‘deixa eu gozar/enquanto morro’ num clima de churrasco de domingo.

Nessa travessia ardorosa pelo sentimento e pertencimento urbano a canção-chave é “O Buraco”. Escrita por Kiko, a faixa desce numa espiral estranha que busca um fundo de reflexão. Verbos como ‘devorar’ e ‘engolir’ dão significado aos acordes tão dramáticos quanto violentos creditados a Marcelo Cabral: ‘Eh! Eh!/Olha lá/Mais um carro vai passar/Eh! Eh! Avistei/A rocha no chão/Eh! Eh! Devorar/Pra enfim sumir no vão/Da memória!’.

A cidade despenca, definha, agoniza e desperta ojeriza. O Passo Torto capta essas transformações diárias da metrópole. Elas interferem no humor, nos acontecimentos e nas formações das pessoas. Se isso é bom ou ruim, não cabe ao grupo dizer. O que eles fizeram bem no segundo disco é condensar essa complexidade sem precisar de separações, classes, diferenças sociais.  

Porque a cidade é mais imensa do que meros quilômetros quadrados.

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A seguir ouça Passo Elétrico, do Passo Torto, na íntegra:

Melhores Faixas: “Helena”, “Passarinho Esquisito”, “Símbolo Sexual”, “O Buraco”, “Rárárá”.