Gravadora: YB Music
Data de Lançamento: 24 de julho de 2015
Baixo, violões e guitarras são a articulação sonora que ressoam do início ao fim em Thiago França, disco que o Passo Torto assina ao lado de Ná Ozzetti.
Nos palcos paulistas, Thiago França é conhecido como o ágil saxofonista que revolve a tradição da música afrobrasileira com uma técnica multifacetada que liga Paulo Moura a Anthony Braxton.
Mas, saudações devidas devem ser dadas à Ná. É de se elogiar o envolvimento da cantora paulista com o quarteto que, conjuntamente, melhor domina as cordas em São Paulo na atualidade – pois são as cordas que emanam em nome do Passo Torto e, para isso, algumas notas de Rodrigo Campos, Romulo Fróes, Kiko Dinucci e Marcelo Cabral bastariam.
A corrente de Ná Ozzetti
O que Ná Ozzetti tem à disposição no disco pouco exige de sua voz. Em Thiago França, ela exerce o dom do dinamismo, ainda que não seja isso que determine a real consistência do disco.
Sumariamente, temos Ná Ozzetti cantando temas pertinentes ao Passo Torto. Ela segue a corrente, enquanto eles fornecem a energia. Ela catalisa de forma serena em “Onde é Que Tem?”, mas pouco oferece à construção vulcânica das guitarras. O ouvinte aguarda a compreensão, e o que ela sugere não é algo melhor que ‘autorizo minha imagem pra você filmar‘.
Essa angústia permeia a maioria das faixas, o que não faz de Thiago França um álbum fraturado (tampouco esplêndido). No estilo musical de Ná Ozzetti, a densidade não carece do apoio de guitarras – que aqui estão mais inseridas como ‘barulho feio‘ do que em prol de alguma beleza que o contumaz fã da cantora caçaria.
A grande ‘pegadinha’ é que o público acostumado à música do Passo Torto espera de uma voz feminina algo que Juçara Marçal desempenha com o Metá Metá ou, mais recentemente, no solo Encarnado (2014). Ora, porque são os mesmos músicos, a mesma turma.
Ná e os integrantes do Passo Torto representam escolas distintas. Ela vem da música acústica, do acompanhamento ao piano; eles, do samba renegado de Vanzolini às distorções de Hendrix. Portanto, natural que ocorram encontros e desencontros.
(O melhor dos desencontros se desenrola em “Homem Comum”, onde a cantora acompanha paulatinamente os riffs; o pior dos encontros, porém, é “Palavra Perdida”: a carga de dramaticidade imposta pelo arco no contrabaixo de Cabral e a linha dos violões merecia uma letra sobre sentimentalismo, ao invés de fazer joguetes filológicos.)
Em meio a tantas dicotomias, surpreendente mesmo é que todas as canções pareçam tão iguais. Isso revela uma preocupação quase matemática: as canções são como conchas fechadas, cada uma com uma pérola de diferentes tipos e tamanhos. O conjunto, porém, não forma uma joia tão admirável assim.
Errata:
• Ao contrário do que estava anteriormente, o Passo Torto é um quarteto, não trio.
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