Gravadora: 4AD
Data de Lançamento: 6 de fevereiro de 2012
Avaliação: 8.5/10

As rosas são coisas lindas da natureza, mas já inspiraram algumas das músicas mais tristes que se possa imaginar. Cartola foi fundo ao dizer que elas se desabrocham com a beleza de uma mulher em “As Rosas Não Falam”; Nelson Cavaquinho lembra dos espinhos em “A Flor e o Espinho”; Neutral Milk Hotel nos leva às estranhezas para chegar na melancolia revoltosa de “King of Carrot Flowers”.

Enfim, a intenção não é enumerar músicas com flores. Tudo isso é para justificar a possível decepção (ou surpresa) que você terá no novo disco do Mark Lanegan ao julgar pela capa de Blues Funeral.

O bardo, ex-Screaming Trees que ajudou a criar alguns riffs etéreos para o Queens of the Stone Age, retoma com uma sonoridade lúgubre levada por guitarras.

Tem muita inspiração de Joy Division e New Order, no sentido de buscar a profundidade das composições que buscam contraponto com os instrumentos. Pegue “Quiver Syndrome” que, apesar dos teclados e sintetizadores, é levada por um riff que poderia sustentar uma canção do Foo Fighters. Um verso que citarei você já entenderá: “A lua não sorri em um sábado de criança”. A música fala de solidão e sobre as coisas que dão erradas na vida, com um contexto que caberia pra qualquer pessoa: perder um emprego, ficar sem grana, pensar em coisas horríveis, possíveis monstros que moram em nossas cabeças.

“The Gravedigger’s Song” traz riffs de Josh Homme que lembram bastante a fase Rated R, do QOTSA. Logo de tacada, Lanegan começa dizendo que ‘com dentes de piranha, estava sonhando contigo’. Com versos em francês, daria para dizer que essa seria uma daquelas trilhas perfeitas para sacanagens masoquistas. Combina com uma vela vermelha.

“Bleeding Muddy Water”, que entra em seguida, é uma homenagem à maneira Mark Lanegan para o grande bluesman Muddy Watters. “Gray Goes Black” é uma new age que, para os padrões do bardo, até que soa animada. Os efeitos de fundo lembram New Order, referência declarada de Lanegan.

Do ano 2010 pra cá, muito tem se revivido do grunge, mas Mark Lanegan, ele mesmo uma das principais peças desta cena, deixou tudo isso para trás. Pelo menos, na estética. Mas uma composição que fala de ‘céu onde aviões não voam’ (“St. Louis Elegy”) carregam uma densidade lúgubre que impactaria qualquer incauto de camisas quadriculadas.

Nem tudo são rosas, não é verdade? Chocar-se com isso pode ser doloroso. Da mesma forma que a vida torna-se dolorosa quando sabe-se disso há muito tempo – algo que Mark Lanegan não faz nenhuma questão de esconder. Ainda assim, Blues Funeral leva consigo a beleza da sinceridade, por mais insuportável que ela seja.