Gravadora: Extrapunk Extrafunk
Data de Lançamento: 12 de abril de 2019
Disco da Semana: Black Alien | Abaixo de Zero: Hello Hell
Cada disco é um capítulo diferente da intensa biografia de Black Alien, cheia de adrenalina e boas referências musicais.
Este rapper de Niterói detém um dos flows mais versáteis da cena. Mas, o que mais impressiona na música de Black Alien é como ela é afetada pelo tempo.
Talvez essa percepção se dê porque suas músicas estão vinculadas a uma primeira pessoa aventureira mas que, agora, aos 46 anos, sente a necessidade de desacelerar. A produção de Papatinho (ConeCrewDiretoria), inclusive, deixa isso bem demarcado.
Optou-se por bases mais cruas e monocromáticas, traçando um percurso a pé na selva de pedras sem nenhum tropeço – embora tropeços do passado não sejam ignorados.
Black Alien passou por alguns problemas pessoais ao longo de sua carreira, e esse pesar surge de forma mais densa em Abaixo de Zero: Hello Hell.

Novas referências
Alternando entre referências de Apocalypse Now e Talking Heads, Black Alien domina o tempo musical de expressões como o ragga e, às vezes na mesma música, um rap que se contém na vontade de atropelar tudo.
Por toda essa elaboração, mencionar abstinência com álcool e lisérgicos vai muito além da óbvia curtição. Na verdade, Black Alien sentiu a perversidade dessa combinação ao longo de sua trajetória – algo que atingiu até mesmo sua relação com os antigos membros do Planet Hemp (ele se recusou a voltar por conta das complicações com a justiça e com o vício enquanto integrava a banda nos anos 1990).
Nesse sentido, “Carta pra Amy” soa como a epístola definitiva sobre tudo isso. Há uma alfinetada ao grupo de Marcelo D2 e a resignação ao fato de que largar tudo não é assim tão simples – seja lá sobre o que ele estiver falando.
Mesmo que a ruptura total com o passado seja impossível, Abaixo de Zero ensaia um recomeço sincero. Falar sobre amizade, agora, requer seriedade. As crônicas de sua vida continuam detratoras, mas não se esvai o sentimento de que não há muito a se fazer para mudar as coisas (“Que Nem o Meu Cachorro”).
Zona de conflito
Mas, há uma esperança. Em “Jamais Serão”, ele aposta na boa música como cura à eterna zona de conflito – em que ele é mais que sobrevivente; é uma espécie de mestre.
Presidentes vêm e vão, assim como as ondas pessimistas que formam o que há de mais nocivo no que se convém chamar ‘sentimento de grupo’. Que isso não seja um desestímulo, propõe o cantor. Apoie-se na música que dará tudo certo.
Não é de hoje que Black Alien cita o jazz como uma espécie de cura estética para uma vida de desilusões. Dave Brubeck e John Coltrane, citados em “Take Ten”, formam uma antítese que simbolizam os vaivéns de sua vida. Coltrane era intenso, espiritual e extremamente criativo, enquanto Brubeck era de um perfil mais sereno, técnico e brando.
Após anos reconhecido como um artista dinâmico como o free-jazz, hoje a realidade é outra: com todo o repertório do passado, surge um Black Alien mais contido e reflexivo. Tanto faz que sua individualidade ressoe; sua trajetória é suficientemente complexa para inspirar sua poesia.
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Outros lançamentos relevantes:
• Jorge Mautner: Não Há Abismo em que o Brasil Caiba (Deck)
• Anderson .Paak: Ventura (Aftermath)
• Bibio: Ribbons (Warp)
• Bill Frisell & Thomas Morgan: Epistrophy (ECM)
• The Budos Band: V (Daptone)
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