Gravadora: Caprice
Data de Lançamento: 1973

Don Cherry é conhecido por ser um dos principais artífices do free-jazz ao lado de Ornette Coleman, mas se aventurou a ir muito além das raízes da música norte-americana. No final dos anos 1960, gravou o álbum ao vivo Eternal Rhythm (1968), um dos primeiros “registros de jazz a incorporar a música balinesa (da Indonésia) numa mistura de blues e livre improvisação”, segundo Peter Lavezzolli, autor do livro The Dawn of Indian Music in the West.

Essa busca por novas sonoridades globais foi intensificada quando Cherry criou, ao lado da então esposa Moki Karlsson, artista plástica sueca (e mãe de Neneh Cherry), o Organic Music Project.

Ao lado de músicos de diferentes matizes – muitos deles itinerantes – Cherry se dedicou a estudar músicas fora do eixo ocidental após longas viagens por países do chifre africano, além de Índia e Turquia.

Referente à performance, o ‘orgânico’ aqui era levado a sério. Muito do que produziu entre o final dos anos 1960 e início dos 70 foi ao vivo mesmo – uma forma de valorizar a ‘aura’ do momento. Foi nessa época que Don Cherry deixou de ser ‘apenas’ um trompetista; tocou piano, diferente tipos de flauta e aprendeu a tocar um instrumento chamado doussn’gouni, um tipo de cítara com afinação semelhante à guitarra.

Foi também nesse período que Cherry começou a tocar um trompete paquistanês minúsculo, de apenas 8 polegadas, que se tornaria seu instrumento favorito.

Além de descobrir novas facetas musicais, o Organic Music Project organizava conversas informais sobre problemas globais, como a Guerra do Vietnã, imperialismo e colonização europeia de países africanos.

Don Cherry e Naná Vasconcelos

Organic Music Society foi o disco mais ambicioso de Don Cherry até então, por incluir nessas descobertas a música ibérica, africana, indiana. Até mesmo a música brasileira surge nessas explorações, como pode-se conferir logo na faixa de abertura do disco, “North Brazilian Ceremonial Hymn”, que conta com importante colaboração do percussionista Naná Vasconcelos.

Antes de lançar seu primeiro álbum solo, Naná compartilhava a necessidade de criar um diálogo global por meio da música com um instrumento pouco usual: o berimbau. Já parceiro do craque Egberto Gismonti, Naná tinha pleno domínio da linguagem percussiva como uma espécie de mantra.

Ouvir “North Brazilian Ceremonial Hymn” é como frequentar uma procissão católica na mais pequena das cidadezinhas do Norte do país. São sussurros e chocalhos em um caminhar para a paz – uma procura que tanto Naná quanto Cherry compreendiam como algo que transcendia credos.

“Viajando pelo mundo, às vezes juntos, Cherry e Vasconcelos buscaram e desenvolveram as potencialidades curadoras da música improvisada de uma maneira fortemente reminiscente da ideia jungiana de transmutação gradual do ego para o Eu Grande ou Cósmico”, escreveu o autor Maxwell Steer no livro Music and Mysticism. (Vale lembrar que, anos depois, Cherry e Naná formariam o supergrupo Codona, ao lado de Collin Walcott.)

“Cientes da potência dos poderes espirituais, que ligavam rituais ancestrais ao êxtase da cura, eles normalmente trabalhavam em contextos não-profissionais – com crianças e adolescentes, por exemplo”, complementa. Este é o caso de “North Brazilian Ceremonial Hymn”, que faz da observação de um ritual um tipo de expressão musical. Serve muito bem como exemplo orgânico com poucas interferências de uma das suas máximas: “Primeiro vem a forma, depois o fraseado e então o som, sempre o som”.

Organic Music Society: estado musical de espírito

São muitas explorações sonoras distintas, o que dificulta a explicação de Organic Music Society por fatores estéticos.

Não ajuda nada compará-lo aos trabalhos de free-jazz com Ornette, já que se tem poucos momentos em que Don Cherry nos dedica solos efusivos de trompete – salvo trechos de “Elixir” ou a forma com que propõe acompanhar os demais instrumentos de sopro nas duas partes de “Terry’s Tune”, composição do minimalista Terry Riley, que também marca uma influência no trabalho (vale lembrar que, nessa época, Riley estava interessado nas explorações da música carnática, como mostrou em Church of Anthrax, de 1971, ao lado de John Cale).

Organic Music Society funciona mais como a contemplação e possível incorporação de um estado de espírito, em que a música é via de comunicação com seus próprios ideais. O ritualístico, aqui, é mais instigador do que expressão artística. Cherry cria uma atmosfera pacífica de diferentes matizes: logo, o ritmo faz parte da própria pulsação do ouvinte numa espécie de corrente que mira um sobrenatural positivo.

Além de instrumentista, Cherry também desenvolveu uma forma particular de cantar scats – principalmente em ciclos percussivos intensos. As duas partes de “Relativity Suite” alternam diversos instrumentos de sopro (incluindo ocarina e concha do mar) com bateria, percussão e o mencionado doussn’gouni, executado por um de seus principais professores, o malinês Christen Bothén.

Nessa suíte, Cherry prega o respeito à religião alheia: ‘Como será que é sentir amor por Jesus/Como será que é sentir amor por Buda?’, assumindo que associa esse sentimento a hare-krishna.

Com exceção de “Elixir” e as duas partes de “Relativity Suite”, que foram registradas em estúdio, todas as demais tratam-se de takes ao vivo – incluindo memorável versão de “The Creator Has a Master Plan” (Pharoah Sanders) e intensa performance de “Bra Joe From Kilimanjaro”, de Abdullah Ibrahim, momento em que arregaça o trompete ao lado do percussionista turco Okay Temiz.

Unida à discussão de ideias humanitárias que permeavam o mundo naquele momento, Organic Music Society é a materialização de uma busca transcendental comum: viver em sociedade, e em paz. Neste caso, “Utopia and Visions” catalisa esse otimismo num continuum que aprece simular a beleza de viver em pleno respeito.

“Hope” talvez seja a manifestação mais tensa, mas não demora para o ouvinte captar que se trata de uma efusão. Paz e harmonia também têm a ver com a alegria. É preciso conhecer bem as mazelas e tristezas da desigualdade para sentir com profundidade um mundo pacificado.

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