A junção do jazz com o candomblé é a essência do grupo Alabê KetuJazz. As percussões são pontuadas com metais, formando um som ritualístico que intersecciona dança e religião, Brasil e África.

Quem capitaneia o projeto é um percussionista francês, Antoine Olivier, ao lado do saxofonista brasileiro Glaucus Linx. Eles se conheceram em Paris, em 1994, através do grupo Salif Keita.

“Me mudei para Londres, onde fui produtor musical e compositor, além de tocar com vários grupos, e Glaucus voltou para o Brasil”, disse Antoine ao Na Mira.

“Em 2006, me mudei para o Rio de Janeiro, onde procurei as fontes dos ritmos e da espiritualidade afro-brasileira”.

Foi por meio do mestre Dofono de Omulú que Antoine aprimorou seus conhecimentos musicais e religiosos em vários terreiros do Rio. “Aprendi a tocar para os Orixás durante 10 anos. Em um dia de 2013, nasceu na minha cabeça a ideia de montar o grupo com Glaucus”, contou.

Dofono participou dos primeiros shows do Alabê, e participou das sessões que resultaram no primeiro disco do grupo, complementado por Thiago Magalhães e Gabriel Guenther, que tocam distintos instrumentos de percussão: rumpi (da família dos atabaques) e gã (outra designação para o agogô).

Como retribuição, o grupo decidiu homenagear Dofono no primeiro clipe oficial do Alabê KetuJazz. Confira, com exclusividade ao Na Mira, o vídeo de “Opanijé Xaxará”:

Jazz: influência abstrata

“O grande diferencial de nossa música é que não estamos fazendo uma fusão de vários estilos musicais com música africana e jazz. As canções foram criadas de maneira orgânica a partir dos tambores do jeito que eles são tocados e arranjados dentro do ritual. O jazz é só uma influência na maneira de deixar espaço para improvisação e liberdade”, disse Antoine no texto de divulgação do grupo.

Essa fusão, explica o líder do grupo, se dá pela espiritualidade: “A influência do jazz é mais abstrata: é uma forma de aproximar a música, de ter um grande espaço de liberdade e de improvisação”.

Como se percebe já pelo primeiro single, o tema parece ganhar caminho próprio – tanto que não há destaques individuais. “O formato, as harmonias, a instrumentação e as melodias são bem diferentes dos padrões do jazz”, endossa Antoine.

O Alabê KetuJazz colocou o lançamento do álbum de estreia em plataforma de crowdfunding, após “5 anos de trabalho para criar, lapidar, ensaiar, gravar e arranjar nossas músicas”, como conta Antoine.

Alabê KetuJazz: disco de estreia

Além do jazz e do candomblé, o Alabê KetuJazz tem variadas influências: música clássica europeia, indiana e do Oriente Médio e, claro, música africana. Rock, blues e até musica eletrônica também entram no caldo, segundo Antoine.

O álbum atualmente está em fase de mixagem e deve ser oficialmente lançado no segundo semestre de 2018.

Serão 18 participações em todo o disco, incluindo a do flautista/clarinetista/saxofonista Carlos Malta, famoso por integrar o grupo de Hermeto Pascoal nas décadas de 1980 e 90.

Os demais nomes que participam no álbum de estreia do grupo são oriundos do candomblé, como Mãe Nildinha de Ogum, Raoul de Ogum (Ogã Alabê do axé Opo Afonjah), Ogã Eli (casa de Oxumaré) e muitos outros.

Antes do disco ser lançado, o Alabê KetuJazz lança o segundo single, em agosto. “Temos também um grande projeto de fazer um vídeo do disco inteiro ao vivo, com o grande videomaker francês Vincent Moon, em outubro”, adiantou Antoine, citando o cineasta independente francês que já trabalhou com o R.E.M. e fez documentários na região de Kosovo.

Esta parceria deve fazer parte do projeto Híbridos, que reúne imagens de rituais brasileiros filmadas durante os últimos 3 anos por Moon.

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